Falar de Televisão em 2025 é falar de The Pitt, drama médico da HBO Max que reúne as mentes por trás de E.R. num repaginado e intrinsecamente simples emaranhado de casos clínicos, relações interpessoais e o senso de comunidade que a era do streaming, infelizmente, transformou em raridade. Foram 15 semanas acompanhando o plantão mais caótico do Dr. Robby (no retorno de Noah Wyle aos hospitais fictícios), ao lado de um grupo de jovens e veteranos. Melhor ainda: a segunda temporada já está em exibição.
Quando o assunto são as premiações, espere não ser surpreendido. The Pitt dominou como Drama, a também estreante O Estúdio ganhou tudo em Comédia, e a comedida Adolescência foi o destaque entre as Minisséries. Abaixo, você confere algumas correlações com os troféus dourados, mas a lista do Tesoura com Ponta com As Melhores Séries de 2025 vai além disso. O casal que joga hóquei e conquistou o mundo; o drama brasileiro que volta aos anos oitenta para tratar dos preconceitos do HIV; as várias temporadas de um reality de drag queens. Sirva-se.

Enquanto isso no multiverso de Drag Race…
São muitas as versões de RuPaul’s Drag Race que estreiam no calendário, e nem todas alcançam os mesmo níveis de aclamação e qualidade. Em 2025, a estrela da Coroa foi o All Stars da França, com passarelas de cair o queixo e uma vencedora para lá de icônica. E se o assunto é campeã irretocável, a recente coroação de Satín Greco em España 5 prova o valor da arte transformista da velha guarda.
Falando, agora, de pedaços que merecem aplausos, os terços iniciais do All Stars 10 trouxeram intrigas, talento e queens há muito imploradas para retornarem ao Ateliê. O terceiro bracket, porém, acabou com a ilusão – mas os grupos Laranja e Rosa fizeram valer seu lugar na lista. A sexta temporada de Canada’s Drag Race, embora exibida metade ano passado e metade neste, merece os louros – algo que a Corrida de Brooke Lynn alcança ano sim, ano não. – Vitor Evangelista

É tempo de sitcoms!
A morte da TV e o nascimento do streaming acabou com uma das pérolas da programação semanal: as comédias de situação que, com orçamento limitado, estendiam-se por meses com personagens queridos e situações triviais. O ano de 2025 trouxe algumas produções dignas de menção, caso da primeira temporada (e início da segunda) de St. Denis Medical, capitalizada pela performance de uma inspiradíssima Wendi McLendon-Covey.
Os órfãos de The Office pararam com a cara feia depois da chegada de The Paper, comédia que atualiza a mitologia do escritório e viaja ao lado de jornalistas novatos. Oscar Nuñez retorna ao papel clássico da NBC, e ganha a companhia de Domhnall Gleeson como um chefe nada afetado e Sabrina Impacciatore como a antiga mandachuva do local.
Outro ambiente de trabalho que ganhou uma comédia para chamar de sua foi a galera do Detran, na simpática e criativa DMV, ainda em seus passos iniciais, mas cheia do potencial que alavancou o pessoal de um escritório de papel, um departamento governamental e um supermercado lotado. – VE

Falando em antigamente
Se as comédias revitalizaram-se frente às audiências e às emissoras, o drama procedural ganhou espaço na categoria de Melhor Atriz nas premiações com Kathy Bates e sua versão de Matlock. Show sobre uma advogada que finge ser indefesa para vingar a morte da filha, a produção original da CBS encantou pelos ganchos irresistíveis, personagens secundários de fibra e muito do DNA que constitui a TV décadas atrás, e que foi esquecido em prol do modelo de maratona e do binge-watching. No ar com sua segunda temporada, Matlock continua escavando ouro. – VE
Pequenas e enormes revoluções
Michelle Williams assumiu o papel de uma mulher infeliz em Morrendo por Sexo. Diagnosticada com um câncer terminal, ela se livra do marido e, ao lado da amiga interpretada com gana por Jenny Slate, se aventura por romances relâmpago e a liberdade a que foi privada uma vida inteira.
Outra produção que brindou a revolução e a mudança foi Andor, que entregou uma segunda e última temporada que honra o material original e gera empolgação dentro do universo de Star Wars, feito raríssimo nos dias de hoje. Vencendo, de surpresa, o Emmy de Melhor Roteiro pelo impecável e urgente Welcome to the Rebellion, a saga de Cassian não teve medo de denunciar o fascismo do Império, numa representação genocida que, diariamente, ultrapassa os limites da ficção. – VE

Os melhores espiões da TV
Os agentes secretos comandados por Jackson Lamb (Gary Oldman) estão em uma enrascada – e provam do próprio veneno na 5ª temporada de Slow Horses. O ritmo é ágil, o humor é seco e os personagens são memoráveis. Com o hacker Roddy Ho na mira de uma organização estrangeira que busca atacar a Inteligência Britânica, todos devem atuar em conjunto e, quem sabe, limpar a barra da nação. – VE
I have full body chills
Só lamenta o fim do UNHhhh quem não acompanha semanalmente os vídeos de Trixie Mattel e Katya no The Bald and the Beautiful. Além do quadro no canal da Netflix, as drag queens alimentam os fãs com todo tipo de conteúdo, que varia entre comentários sobre filmes e séries do momento, obsessões antigas, reformas na casa e recebem uma seleção suculenta de convidados especiais. Imperdível é pouco para definir a agilidade e o humor característico da dupla, que continua tirando leite em pedra e nos divertindo tantos anos depois de fazerem uma aparição na sétima temporada de Drag Race (vale destacar: season que elas reviram e recapitularam com direito a áudios das companheiras de elenco!). – VE

TV à moda antiga
Enquanto escrevemos isso, a segunda temporada de The Pitt já está sendo exibida na HBO Max, o que exemplifica um dos muitos motivos do sucesso da série médica que virou fenômeno de crítica e audiência. Dispensando a ideia da Televisão como um Cinema dividido em partes, a criação de R. Scott Gemmill retoma alguns dos elementos mais clássicos do formato enquanto introduz suas próprias variáveis, criando uma mistura irresistível que parece destinada à um futuro brilhante. Sua efetividade é apenas um sinal do mantra central daquela que se tornou a série do ano: isso aqui é televisão levada à sério. – Gabriel Arruda
Amor em tempos de ruptura
Três anos após sua temporada de estreia, Ruptura retorna às telas da Apple TV e resolve alguns de seus mistérios enquanto introduz muitos outros. O charme da produção vai muito além das questões não respondidas e o trabalho de caracterização e narrativa é tão minucioso quanto era em 2022. No cerne da temporada, o cubo amoroso entre Mark S. (Adam Scott) e Helly R. (Britt Lower) realça uma das grandes narrativas românticas da Televisão recente, pulsando com originalidade em cada aspecto. – GA

Amadurecer não é fácil, mas rende piada!
Estreada em novembro de 2025, I Love LA já virou um clássico sobre a vida adulta. Sintonizada com o espírito de sua geração e ambientada em uma Los Angeles em que carreira, imagem e prestígio equivalem a moeda de troca, a trama é centrada na assistente Maia Simsbury (interpretada por Rachel Sennott, criadora da série), que busca reconhecimento profissional na agência de celebridades onde trabalha, enquanto também lida com o inesperado retorno da ex-melhor amiga – agora influencer e roubadora de bolsas de grife –, Tallulah Still (Odessa A’zion).
Há uma semelhança inevitável no gesto autoral de Sennott com o de Lena Dunham, criadora de Girls (2012-2017) – série do milênio para alguns (eu!). Assim como Dunham, os episódios partem de uma observação muito direta do próprio tempo, incorporando referências, linguagens e dinâmicas sociais que soam extremamente orgânicas entre as personagens, nunca explicativas. O grupo de amigos é completado por Alani (True Whitaker), Charles (Jordan Firstman) e Dylan (Josh Hutcherson), que convivem num mosaico de fracassos administráveis, relações codependentes e desejos mal resolvidos de personagens complexos que, assim como todos nós, estão apenas tentando descobrir quem são. Reconhecer as pequenas humilhações da vida adulta nunca foi tão hilário! – Ayra Mori

Nosso casal (sim!) preferido da comédia
O ultimato lançado no último episódio da terceira temporada de Hacks transforma a dinâmica central das “amigas-inimigas” em conflito aberto, calibrando ressentimentos e testando até onde a parceria entre Ava (Hannah Einbinder) e Deborah (Jean Smart) consegue sobreviver. De Las Vegas para Los Angeles, a mudança de cenário não é apenas geográfica, mas simboliza o encontro direto entre o passado e presente da comediante veterana, que assume como primeira apresentadora (mulher e setentona) em um late night, formato máximo de consagração no universo da comédia norte-americana.
Vencedora do Emmy, Hacks permanece uma comédia hilária sobre poder, ego e sobrevivência criativa na indústria cinematográfica, sustentada por essa dupla que funciona melhor quando está em duelo. O humor origina menos da harmonia e mais da fricção contínua entre duas mulheres que simplesmente não conseguem ficar longe uma da outra. Que Deus abençoe Deborah Vance e sua bissexual de estimação! – AM

Charlie Cale, a detectora humana, é quem queremos
Poker Face retorna na segunda temporada com novos casos, muitas novas mentiras e um elenco de luxo, mantendo intacta a estrutura à la Scooby-Doo. Na série, cada episódio é iniciado por um mistério autônomo parcialmente revelado – o interesse nunca está em quem cometeu o crime, mas em acompanhar o encadeamento de decisões erradas, pequenas crueldades e acidentes morais que levam, inevitavelmente, a um desfecho tão absurdo quanto revelador. É um formato repetitivo apenas na superfície; na prática, funciona como um laboratório semanal de modos bobos de se assassinar alguém.
Charlie Cale, detectora humana de mentiras (interpretada por Natasha Lyonne), é o centro absoluto da série. Sua voz de tia fumante e seu cabelo ruivo armado nunca erram em estar na hora e no lugar errados, transformando cada investigação em comédia de observação quase sempre constrangedora. – AM

ChatGPT, me explique sobre o que é a 1ª temporada de Pluribus da Apple
O nome da mais nova sensação do momento vem do latim, E pluribus unum, “em muitos, ser um só”, ou algo próximo disso. Criada por Vince Gilligan, de Breaking Bad e seu spin-off Better Call Saul, a série acompanha um mundo pós-apocalíptico fora da curva. Carol, interpretada pela genial Rhea Seehorn, tem sua existência virada de cabeça para baixo quando uma invasão alienígena (em forma de “vírus”), além de matar a única pessoa importante em sua vida e mais trocentos humanos, unifica quase todos os outros sobreviventes em uma consciência coletiva, estranhamente pacífica, subordinada e sedada de felicidade.
Antes de qualquer camada política, Pluribus é extraordinária por si só. Ideia original, texto impecável, cadência narrativa que flui como água, atuações hipnotizantes, composições visuais de encher os olhos e um tom comicamente angustiante. Quando o assunto é lacração, a série se debulha em temas atualíssimos, desde os efeitos perversos da globalização na supressão de culturas até os perigos da IA para o que faz humanos serem humanos: identidade.
Na era do doomscrolling, brainrot e IN (Ignorância Natural), Gilligan vem com uma temporada lenta, de construção de universo e personagens, que não trata seus espectadores como crianças em processo de alfabetização. O resultado é envolvente e instigante, e, o mais importante, corajoso, algo em risco de extinção na arte que alcança o mainstream. O casual viewing (assistir enquanto faz outras coisas, como mexer no celular) já virou ordem executiva para os roteiros atuais, lotados de exposição preguiçosa e repetição de ideias. Ainda bem que temos a disposição o gênero “série para pensar”, seja lá o que isso signifique. – João Arnaldo Brunhara

Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente da HBO Max é babado forte
Brasil, anos 80, HIV, comissários de bordo e um remédio milagroso que pode salvar a vida de pessoas morrendo de AIDS, proibido em território brasileiro. Nando (Johnny Massaro) e Lea (Bruna Linzmeyer), tripulantes da rota Brasil-EUA, já conhecem bem o esquema para passar sem problemas com as mais diversas muambas. A partir dessa premissa, Máscaras desenrola uma das mais lindas e impactantes histórias do que foi e é ser cuír (queer) no Brasil.
Sem espaço para o sofrimento dominar, essa é uma trama sobre a vida, e não sobre a morte. Ao longo dos episódios da minissérie, clichês do gênero são destituídos e dão lugar a celebração da coragem, da liberdade sexual, do amor, da amizade e do perdão.
Nesse retrato da cultura LGBTQIAPN+ brasileira com direito até a presença de Cazuza, a dor se transforma em união e luta, como na figura de Raul (Ícaro Silva), drag queen da boate Paraíso, peça central do socorro a muitas vidas vulneráveis. Tudo isso embalado em uma belíssima fotografia, uma deliciosa trilha sonora e uma narrativa irresistível. – JAB

Animação para adultos de verdade
Cinco anos após o final de Bojack Horseman, uma das animações de maior sucesso da história da Netflix — e fonte para dez mil vídeoensaios sobre niilismo — Raphael Bob-Waksberg retorna com um projeto completamente diferente. Long Story Short acompanha a história de uma família judaica ao longo dos anos, dissertando sobre linhagem, trauma geracional e o que nos forma enquanto seres humanos (sim, porque dessa vez são só humanos mesmo).
O humor besteirol e trivialmente absurdo continua aqui, porém nunca em detrimento dos seus personagens. Bob-Waksberg eleva a sensibilidade de sua série anterior, apostando em uma narrativa quase autobiográfica, tão especificamente localizada que não poderia ser mais universal. Os traços são simples, mas com intenção, assemelhando-se aos rabiscos de uma criança e dando um ar lúdico à obra, ao mesmo tempo que abre espaço para que qualquer um possa se projetar. – Enrico Souto

Agora a Pixar faz Televisão?
Bom, provavelmente não. Ganhar ou Perder foi anunciada em 2020 como a primeira série original da Pixar, com o objetivo de enriquecer o catálogo do novo streaming da Disney, em que o conglomerado apostava todas as fichas. O tempo passou, a pandemia acabou e prejuízos financeiros fizeram a empresa redirecionar seus esforços ao Cinema. Ganhar ou Perder é um eco daquele período e, cinco anos depois, seu lançamento soa deslocado e fora de hora.
O motivo para a demora é simples: fazer animação é difícil e demorado — ainda mais seriada e com o orçamento de um longa-metragem. Ademais, a produção viveu momentos turbulentos e passou por diversos cortes, incluindo o de uma narrativa trans, reduzida à ‘alegoria’ na versão final. Entretanto, apesar de tudo isso, a paixão e criatividade dos artistas transborda à tela, transformando a singela história de um time de softball em uma aventura apoteótica e muito divertida. – ES

The White Lotus quebra as regras, e que bom
O tempo chega para todo mundo. Quatro anos depois de sua estreia, The White Lotus enfim lançou sua primeira temporada divisiva. No ano 3 da queridinha das antologias, o criador, diretor e roteirista Mike White vira sua própria fórmula do avesso. Ainda estamos em um novo resort, com um novo cenário paradisíaco e um novo grupo de personagens. No entanto, a melodia da abertura não é mais a mesma, a dinâmica dos personagens também não e o ritmo da narrativa muito menos, mirando em uma abordagem slow burn que rapidamente aborreceu o público nas primeiras semanas de exibição.
Sob paisagens tailandesas, a espiritualidade se revela como tema central da temporada. A partir disso, a obra leva suas premissas estapafúrdias ao limite, desafia seus protagonistas como nunca antes e, por consequência, a seu público também. Por outro lado, é essa radicalidade que rende alguns dos momentos e arcos de personagem mais memoráveis de toda a série. Muito tsunami e muito budismo! – ES

A graduação da comédia televisiva
Assistir à transição do final da quarta temporada para o início da quinta de Abbott Elementary em 2025 foi como ver um aluno prodígio finalmente se tornar monitor da classe. A série de Quinta Brunson atingiu aquele ponto raro na Televisão — o “ponto de cruzeiro” — onde o elenco se conhece tão bem que o texto parece improviso e o improviso parece Shakespeare. O encerramento do quarto ano, focado em amarrar as pontas soltas das dinâmicas românticas e profissionais, abriu caminho para uma quinta temporada que respira com novos ares.
O início do quinto ano demonstra uma maturidade narrativa impressionante. A série deixou de ser apenas sobre a luta por recursos para focar na luta pela identidade de cada educador. Vemos uma Janine menos neurótica e mais assertiva, e uma Barbara que começa a confrontar a ideia de legado versus aposentadoria. Abbott continua sendo o lugar mais engraçado da TV, mas agora carrega uma bagagem emocional que transforma cada mockumentary look para a câmera em um diálogo silencioso (e gostoso) com o público. É o conforto televisivo em sua forma mais nobre. – Vinícius Rodrigues

O caos da autodescoberta na era da performance
A transição de “fenômeno da internet” para showrunner de TV é um caminho pavimentado por muitos fracassos, mas Muito Esforçado (Overcompensating) prova que Benito Skinner (o Benny Drama) é a exceção que justifica a regra. Baseada livremente na vida do próprio comediante, a série captura com precisão cirúrgica a ansiedade paralisante de tentar ser quem você não é. A trama acompanha Benny, um jogador de futebol universitário no armário que constrói uma persona hipermasculina e ridícula para esconder sua verdadeira essência, resultando em uma comédia de erros que é tão hilária quanto dolorosa.
O brilhantismo da produção está em não tratar a jornada do protagonista apenas com o peso dramático habitual das narrativas LGBTQIAPN+, mas sim através do filtro do absurdo e do exagero (marcas registradas de Skinner). O humor físico é impecável, e o elenco de apoio, recheado de figuras excêntricas, serve como espelho para as neuroses de Benny. Por trás das risadas e do comportamento errático do personagem, Overcompensating entrega uma crítica afiada sobre a masculinidade performática e o custo mental de viver uma mentira. É uma carta de amor caótica para qualquer um que já sentiu que precisava gritar para não ser visto de verdade. – VR

Quando a rivalidade se transforma em obsessão
A adaptação de Heated Rivalry carrega o peso das expectativas de uma fanbase literária voraz, mas a série não apenas cumpre o prometido: ela eleva o material original a um novo patamar de drama esportivo. A narrativa, que acompanha a década de tensão entre os astros do hóquei Ilya Rozanov (Connor Storrie) e Shane Hollander (Hudson Williams), acerta em cheio ao tratar o romance não como um subplot, mas como o motor de uma tragédia grega moderna sobre repressão e imagem pública no esporte de elite.
O grande trunfo da produção é a química elétrica entre os protagonistas, que conseguem comunicar anos de história compartilhada apenas com trocas de olhares através do vidro do ringue. A direção é inteligente ao contrastar a brutalidade física do hóquei com a intimidade claustrofóbica dos quartos de hotel, criando uma atmosfera de perigo constante. Mais do que uma história enemies-to-lovers, a série se revelou um estudo complexo sobre masculinidade, o preço da fama e a coragem necessária para amar quando o mundo inteiro está assistindo (e torcendo contra). – VR

Tremembé
Tremembé foi uma febre. E muito do que o tornou um fenômeno foi o choque de lembrar como essas histórias pararam o país. A série expõe uma linha tênue e perturbadora onde a realidade do cárcere se mistura com uma narrativa ficcional que sequer faz diferença para o público. Para muitos, foi assim que aconteceu. É impactante ver essa interpretação de personagens reais que conhecemos apenas pelas manchetes em rostos tão familiares, como Marina Ruy Barbosa no papel de Suzane von Richthofen. A existência desse microuniverso soa como loucura, uma prova cabal de que a ficção ainda precisa comer muito feijão com arroz para alcançar o absurdo de certas realidades, e por vezes, precisa se unir a ela para entreter. No mais, apesar das boas atuações e criação de cenários hipnotizantes, é preciso que também seja tratada com devido equilíbrio, em tempo que são situações que para muitos ainda pode ser delicada. – Henrique Marinhos
The Mighty Nein
Raramente uma história funciona tão bem com tantos protagonistas dividindo o holofote, mas aqui a multidão cria o charme da obra. O acalento vem dessa bagunça. São muitas vozes, muitos passados e muitos problemas, mas o resultado é estranhamente aconchegante. A dinâmica do grupo sustenta a trama de forma que a quantidade de personagens não dilui a experiência, mas a enriquece. É um caos onde a gente se sente em casa e ainda mantemos uma certa preocupação com seus futuros. Desenhos adultos como The Mighty Nein, Invencível, Vox Machina e muitos outros vieram para ficar. E que bom! – HM

Se a Vida Te Der Tangerinas
Se ainda existe algum receio de entrar no universo dos dramas coreanos, essa aqui é uma ótima indicação de porta de entrada. É tocante, acessível e principalmente, nos faz encontrar o extraordinário na rotina. O roteiro acerta em cheio ao retratar um coming of age de gerações. Do nascimento ao amadurecimento na juventude, na vida adulta e na velhice, enxergamos como nunca paramos realmente de crescer.
E não demora para criarmos intimidade com os personagens. Os momentos que nos são mostrados pela direção às vezes parecem traumáticos demais e às vezes parecem banais, mas ao fim nos dizem o que precisamos e queremos ouvir. Felizmente, não são os grandes eventos que nos ganham, visto que na maioria das vezes eles são mais trágicos do que gostaríamos, na vida e na tela. E mesmo sabendo onde a trama vai dar, custamos a aceitar o fim de certos ciclos. O tempo passa aqui conseguimos aprender um pouco também sobre como resistir ao inevitável fim das coisas. Dói e conforta na mesma medida ver que essa dificuldade de virar a página,mas agrada aos olhos e ao coração. – HM

Adults
Adults desnuda a grande farsa da nossa existência de que, em algum momento, passamos a saber o que estamos fazendo. Sem o cinismo de outras produções sobre a geração Z, a série captura a sensação de como somos crianças grandes vestindo roupas de trabalho e improvisando todo o resto.
Em um formato clássico de sitcom amigável em Nova York com uma dose de caos ansioso dos nossos tempos, a trama acompanha cinco amigos vivendo na casa de infância de um deles no Queens, lidando com problemas que oscilam entre o existencial e o ridículo — desde a humilhação de tentar marcar uma consulta médica sem seguro até fazer amizade acidental com um criminoso por ser permissivo demais. O roteiro é tão refrescante só tratá-los como pessoas tentando ser funcionais. É reconfortante assistir como o grupo tropeça em suas próprias ambições, porque isso valida a nossa própria síndrome de impostor, e também nos lembra daqueles que estão conosco nessa. – HM


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