Se a trilogia original de Evil Dead pertencia exclusivamente ao protagonismo de Bruce Campbell, uma coisa é fato: a nova fase da franquia é de responsabilidade das mulheres. Em 2013, Jane Levy roubou a narrativa para si, mas dançou sozinha em sua conturbada e trágica história. Dez anos depois, foi a vez de Alyssa Sutherland e Lily Sullivan liderarem um filme ainda mais dedicado em trazer tramas diversas e personagens completos.
O novo capítulo do universo macabro de Sam Raimi, A Morte do Demônio: Em Chamas repete o feito e traz uma nova final girl para as nossas telas, mas com uma abordagem capaz de aprofundar discussões sobre a violência de gênero através de muitas tripas, massa encefálica e dedos cortados.
Seguindo diretamente os acontecimentos da cena de abertura de A Morte do Demônio: A Ascensão, voltamos para o lago onde a jovem Jessica afundou três anos atrás. Enquanto ela permanece adormecida, Joseph Price (Hunter Doohan) aproveita o silêncio de um sótão empoeirado para ouvir as gravações antigas de seu avô quando encontra um embrulho misterioso cheio de runas que parecem prenunciar o perigo. Adivinha? Ele abre, claro. E ao revelar a Adaga Kandariana, ele desperta aqueles que querem encontrá-la, incluindo uma ainda possuída Deadite-Jessica.

A partir daí, a estrutura narrativa que dá o tom da franquia se repete: a maldição encontra o primeiro membro de uma família, que se reúne em um local isolado para dar vazão a relacionamentos em ebulição, e, aos poucos, o caos se espalha. No entanto, a graça de uma série de filmes tão sagaz quanto Evil Dead está no sentimento de renovação que cada produção traz. Sam Raimi, a mente por trás dos originais, escolhe a dedo um novo diretor toda vez que uma nova obra é iniciada. Esse, por sua vez, assume a missão de expandir a mitologia demoníaca, entregar personagens que conquistem o público e contar uma nova história que equilibre lealdade e disrupção às ideias originais.
Depois do uruguaio Fede Alvarez e do irlandês Lee Cronin, agora foi a vez do francês Sébastien Vaniček – que ganhou destaque em 2023 pelo trabalho em Infestação – assumir o comando. Com toques do Novo Extremismo Francês, a câmera de Vaniček brinca despreocupada pela produção, sendo, muitas vezes, protagonista dos pequenos momentos de comicidade e uma das grandes aliadas do senso de antecipação que toma conta do filme. É através desse jogo de ângulos e movimentações que a destreza do diretor fica mais evidente e faz com que muitos dos méritos de Em Chamas aflorem.
A construção da tensão é gradual e, pouco a pouco, o ambiente todo vai apodrecendo. Os indícios da putrefação, no entanto, já estavam lá e o mal que ronda o universo de Evil Dead só é muito certeiro na hora de escolher suas vítimas. Atraída sempre pelo fedor do trauma, a maldição da franquia mira em famílias fragilizadas que buscam desesperadamente reconstruir os próprios laços. Os demônios possuidores de corpos não criam os problemas, eles apenas penetram por brechas existentes e aprofundam os buracos de relações humanas falidas.

Esse aspecto, por sinal, é particular a nova trilogia de filmes, e o roteiro assinado pelo próprio Vaniček e por Florent Bernard abraça com força essa característica. O terror do abandono, do vício e do luto pulsa tão forte quanto o sangue, e o sofrimento em tela cria uma atmosfera tão sufocante que Deadite nenhum consegue atravessar. Em Chamas explora esse atributo com maestria, mas ainda deixa espaço de sobra para o cartunesco, que é a marca assinada da franquia.
Depois de um primeiro terço mais focado no desconforto e no mal-estar, o filme se torna mais histérico, usa e abusa de cenas de ação e do gore para cumprir as próprias expectativas. Vaniček não quis abandonar de forma alguma o humor alucinante de seus predecessores e é muito eficaz em arrancar risos de nervoso em meio a membros decepados (te amamos, vovó!).
Nesse compasso, os Deadites seguem sendo os reis do carisma do cinema de horror. Debochada, a Deadite-Thya é a que mais cativa o público e, dado o contexto de sua morte, fica impossível não torcer um pouquinho por ela e pela surra que ela dá no ex-amado. Outro destaque também vai para o Deadite-Edgar, que talvez seja um dos possuídos mais aterrorizantes de toda a franquia graças ao primor da interpretação de Erroll Shand. O ator neozelandês fica completamente em transe no papel, transmitindo uma sensação intensa de perigo, implacável em seus confrontos. Importante citar que Edgar também é o tutor de um Deadite-cachorro. Puro suco de Evil Dead.

Se tanto foi falado de trauma humano, como, então, ele toma forma em A Morte do Demônio: Em Chamas? A resposta é cruamente através da violência de gênero. De longe, o ponto alto da produção de Vaniček está na leitura que este faz das gerações de mulheres suprimidas pela indiferença masculina. O quarteto de personagens femininas representa, em maior ou menor grau, as ruínas de uma percepção sobre o papel da mulher como sustentáculo da família, do casamento. Susan, Alice, Thya e Polly – e, se possível chegar tão longe, até a pobre tia Bonnie, apenas mencionada na narrativa.
No caso de Thya (Luciane Buchanan), o desenrolar é mais explícito. Literalmente deixada para morrer com requintes de crueldade pelo companheiro patético e covarde. A cena que se passa inteiramente dentro do carro, bem no começo do incêndio, é dolorosamente rápida. Joseph é incapaz de apertar o gatilho da própria arma, que mantém para si como símbolo de sua masculinidade frustrada. Ele apenas vira as costas e corre para bem longe. E seu pai termina de matar sua namorada. Disputa o prêmio de homem do ano do cinema de terror com Beau (Obsessão) e Bradley (Socorro!).
Susan (Tandi Wright), por sua vez, é a cereja do bolo, a chave da interpretação. Uma personagem rica que conquista pena e ódio do espectador por ser completamente refém da ilusão de que pertence a uma família unida e perfeita. Seu pai, avô de Joseph e membro do Círculo dos Homens Sábios, deixou a esposa e as filhas para trás em busca de formas de derrotar o mal. Muito heróico, claro, mas, no caminho, Susan assumiu a responsabilidade de uma irmã doente e de uma mãe que já dava indícios de demência.

Mais tarde, perdeu a irmã, Bonnie, e casou com Edgar – não necessariamente nessa ordem, não sabemos direito. Tiveram dois filhos, Will e Joseph. Graças ao abandono, Susan foi levada a acreditar que sua vida era sua família. O único indício da mulher que um dia foi é o castiçal feito por ela, de uma época em que tinha algum tempo para si, sem cuidar da mãe, do marido, dos filhos. E se dependermos dos flashes do relacionamento desinteressado que vemos entre ela e Edgar, também é possível acreditar que Susan estava em uma posição de subserviência, externalizada pela versão possuída do marido diversas vezes.
Por isso, quando tudo começa a desmoronar, Susan não pensa duas vezes antes de se entregar deliberadamente a um mal que promete restaurar sua vida arruinada, recuperar seu filho morto, devolver sua mãe perdida. Cega e desesperada, ela abraça uma paródia, uma versão jocosa da própria família, e ainda mantém uma certa consciência em seu corpo dividido nunca antes explorada na franquia.
Última, mas não menos importante, Alice (Souheila Yacoub), a protagonista, dispensa comentários. A personagem é casada com Will (George Pullar), que bate as botas ainda no início do filme, e vítima de um relacionamento abusivo, onde sofria violência física, verbal e psicológica. É pelos olhos dela que o desconforto chega ao espectador. Ela é, a todo momento, forçada a se posicionar, a tomar decisões e a resolver conflitos de uma família à qual não pertence mais. Seus desejos são desrespeitados e suas cicatrizes são desmerecidas.

A sogra não se conforma com o fato de Alice não se encaixar no mesmo padrão que lhe foi imposto e, possuída ou não, age como uma clássica mãe de menino, passando por cima das marcas da violência que ela sabia serem causadas pelo filho. Apesar da bagagem sensível e passível de identificação, a construção de Alice entrega uma sensação desagradável de apatia, como se ela estivesse muito distante do espectador. Não que falte carisma especificamente à suíça Souheila Yacoub, mas falta ao filme como um todo e, consequentemente, a protagonista é a maior atingida.
A parte mais fraca de toda essa empreitada é, sem dúvidas, o ato final. Depois de assistir uma família de comercial de margarina se despedaçar inteirinha, chega a ser brochante acompanhar Will-Demônio-Carbonizado sair do inferno no melhor – ou pior – estilo Vecna e render uma cansativa sequência de perseguição. Claro que, para o roteiro, o momento termina de unir as pontas, mas além de uma excelente cena em vermelho vivo que quebra mais de uma hora e meia de cinza na tela, o confronto final entre Alice e Will não anima muito. É um adendo quase burocrático, como se fosse impossível finalizar a história sem um pouco mais de ladainha. Em todo caso, Alice atravessa de cabeça erguida a via crucis de uma final girl de Evil Dead. No final, expurga seu demônio.

Evil Dead Burn não é tão potente quanto seus predecessores, nem conta com personagens tão icônicos. Ainda assim, é uma experiência vertiginosa que agrada os amantes do gore e entrega bons conflitos humanos. Em outras palavras, o filme tropeça, quase fica no meio do caminho, mas consegue terminar a corrida. E a medalha de Sébastien Vaniček é melhor do que qualquer um poderia sonhar: fazer parte da franquia mais barulhenta do cinema de horror.


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