A Idade Dourada arrisca com o destino na impiedosa 3ª temporada

A melhor temporada da série cai no gosto da audiência e entrega vestidos deslumbrantes, atrizes iluminadas e muito drama

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O casamento entre Gladys e o duque de Buckingham é apenas um dos norteadores da terceira temporada de A Idade Dourada, a novela da HBO que ganhou audiência e percebeu a sedução que o perigo oferece às elites de uma cidade – e mundo – no precipício da evolução. Agora, os riscos são maiores que nunca.

Falando sobre uma sociedade nova-iorquina na ebulição das revoluções sociopolíticas, The Gilded Age continua a inflar a rotina dos ricos com eventos inadiáveis: o baile que abre a estação, o matrimônio do século e até um par de funerais. O criador Julian Fellowes, responsável pela igualmente caprichada Downton Abbey, olha para o passado na criação de senhoras do destino.

O Casamento Vermelho ganhou um rival entre as celebrações catastróficas da emissora, mas o desenrolar de Gladys e do duque é mais feliz que o dos Stark (Foto: HBO)

Para toda a ambição de Bertha (Carrie Coon), há também o otimismo de Marian (Louisa Jacobson), a sensibilidade de Ada (Cynthia Nixon) e a visão rígida de Agnes (Christine Baranski). Com personagens femininas em todos os cantos da tela, a temporada ainda divide Peggy (Denée Benton) e a mãe Dorothy (Audra Mcdonald) do restante, mostrando uma face dos negros bem afortunados da época.

A jovem jornalista, porém, enfrenta um tipo diferente de obstáculo: a preconceituosa mãe de seu pretendente, o Dr. Kirkland (Jordan Donica). A mulher, papel de Phylicia Rashād, não esconde o descontentamento de ver o filho cortejando uma mulher preta retinta, além, claro, de menosprezar o passado do pai de Peggy, Arthur (John Douglas Thompson), que passou de escravizado a homem livre e abriu o próprio negócio.

Peggy caminha para seu conto de fadas (Foto: HBO)

Nas partes mais baixas da cadeia, A Idade Dourada enfim sacramenta a jornada de crescimento do mordomo John (Ben Ahlers), que ao lado de Larry (Harry Richardson), vende a ideia do relógio e recebe uma fortuna quase inestimável. O resto da criadagem comemora como a família que ele escolheu, mas o cheque significa uma passagem só de ida para longe da residência dos Forte. 

E para toda a prestação de serviços que figuras como Bannister (Simon Jones), Armstrong (Debra Monk), Bridget (Taylor Richardson) e Bauer (Kristine Nielsen) exercem no microcosmo da série, a casa do outro lado da rua concentra os dramas serviçais do ano 3. Em busca da pessoa que vende os segredos da Sra. Russell, o mordomo Church (Jack Gilpin), o cozinheiro Borden (Douglas Sills) e a governanta Bruce (Celia Keenan-Bolger) montam um plano infalível e acertam na mosca.

Convertendo para a inflação de 2025, o cheque de trezentos mil dólares de Jack chega a valores astronômicos; a reação do Clock Twink diz tudo (Foto: HBO)

Misturando uma ação sem muitos riscos, Fellowes concentra o drama na vida de Oscar (Blake Ritson), o filho falido de Agnes que reencontra a mulher que o arruinou e decide ajudá-la, e depois vê John Adams (Claybourne Elder), o homem que amou em segredo por anos, ser atropelado e enterrado. O episódio 7, que mostra o resultado do luto na alma de Oscar, contém a melhor cena da temporada: momento em que o jovem desaba, grita e descreve em letras garrafais o amor que sentia por Adams. No banco do passageiro, Baranski registra a confissão do filho e, sem abrir a boca, sente um turbilhão de negações em míseros segundos. 

As emoções estão florescendo e sangrando na cidade, que abriga uma Marian enamorada pelo noivado com Larry e depois enraivecida pela descoberta de que ele visitou uma casa de prostituição na noite que propôs a união. A falta de comunicação impera em diversos núcleos, especialmente na casa dos Russell, quando George (Morgan Spector) enfim revida as investidas egoicas de Bertha e exibe a ela as cicatrizes de uma vida de concessões.

O adeus a John Adams, direto dos luxuosos bastidores de A Idade Dourada (Foto: HBO)

A tristeza de Gladys (Taissa Farmiga), a impaciência de Larry e a bravura de George golpeiam, sem cessar, o âmago da mulher. Na expressão de catástrofe e perdição de Coon, Bertha desmonta a fachada fria que cultivou desde que se mudou para a cidade. É só quando ela visita a filha na Inglaterra e enxerga os benefícios do casamento arranjado que a personagem reencena a própria tragédia para entender como as peças se encaixaram. 

Do lado de lá do oceano, Gladys supera a amargura que a levou em prantos ao altar só para topar com uma bruxa no formato da cunhada, a Lady Sarah (Hattie Morahan). Com uma relação de proximidade e domínio por sobre o duque Hector (Ben Lamb), a mulher demora a entender sua nova função na residência e, quando recebe o ultimato, é Gladys quem sorri como Bertha a ensinou na marra

Merritt Wever é convidada no papel da irmã ‘caipira’ de Bertha, e alguém que sabe a receita da ascensão da Sra. Russell (Foto: HBO)

George, descontente com o temperamento da esposa, tampouco tem paz nos negócios, com todos os acordos e assinaturas fracassando como castelo de cartas no vendaval. O medo de perder a fortuna e quebrar a própria reserva de fundos impulsiona o empresário a colocar Larry na estrada e estancar a hemorragia que os demais líderes e chefes das terras propiciaram. George enxerga o futuro nas ferrovias, e defende com peito de ferro a visão para aqueles que duvidam de seu intelecto e capacidade. 

Bertha também entende que a mudança é o caminho para a evolução, e cabe a ela defender o direito de existência das mulheres divorciadas. Aurora Fane (Kelli O’Hara) começa a temporada sendo traída e deixada pelo marido, é forçada a se mudar da cidade e vive escondida. Uma das filhas da Sra. Astor (Donna Murphy), a abelha-rainha da sociedade, sofre o mesmo destino.

Impedida de agir pela pressão externa e pelo escândalo, Astor se volta para Bertha, que resolve as pendências. Mas não sem antes quebrar alguns ovos no processo. E por ovos, leia-se o Sr. Ward McCalister (Nathan Lane), que publica um livro cheio de fofocas, traições e punhais nas costas das senhoras que o idolatraram por tantos anos – ao melhor estilo de Truman Capote e suas belas e mortais Cisnes. 

Celina e Odete (Foto: HBO)

Menos centrais ao ano 3, as tramas das irmãs Ada e Agnes ocupam-se dentro da própria residência. A primeira vive as sequelas do luto e até procura a ajuda de uma charlatã que se posa de vidente. Mas o grande momento de Nixon é às vésperas da final, quando decreta o erro de Marian querer a vida de solteirona. Nos olhos, cravejados pelos anos de silêncio e solidão, a mulher nega esse estilo para a sobrinha.

Agnes, dona dos melhores comentários ácidos e inquestionavelmente icônicos, passa a temporada fugindo de uma das responsáveis pela fundação de caridade da cidade. Sem fortuna, ela tem vergonha de admitir em voz alta a possibilidade de não oferecer mais dinheiro à instituição. Para o raro erro da Sra. Van Rhijn, a série encontra uma nova posição social que tem tudo para movimentar a já confirmada quarta temporada.

Na disputa pelo prêmio de Atriz Coadjuvante por The White Lotus, Carrie Coon deve repetir o feito em 2026, quando voltar ao hall da Academia pelo papel em A Idade Dourada (Foto: HBO)

Sucesso de audiência e de comentários e repercussão online, The Gilded Age deu a volta por cima e se concretiza como drama de prestígio e de muito bafafá. O episódio 8 é marcado por um tiro quase fatal, o tão comentado baile de Bertha e a promessa de muitas uniões inéditas. Larry e Marian reatam, ao passo que Oscar encontra o ponto de intersecção entre as aparências e a estabilidade. A cena final, porém, abre portas para que Bertha, depois de lutar pelo direito das divorciadas, acabe entrando no clube.

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