Habeas Corpus sofre com a pressa de chegar lá

Série brasileira aposta em formato consolidado no exterior para fins supérfluos

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Professora de direito penal reúne um grupo de alunos ambiciosos para resolver casos cabeludos e ganhar créditos na faculdade. Não é a premissa de How to Get Away with Murder, o drama que rendeu um Emmy ao status EGOT de Viola Davis; é Habeas Corpus, produção original brasileira da Netflix encabeçada por Marjorie Estiano.

Por mais similares que sejam os pontos de partida e certas batidas do roteiro, as séries não poderiam ser mais diferentes: de uma protagonista moralmente decidida à ausência do assassinato que acomete o programa americano, Habeas Corpus é pé no chão e um tanto idealista e utópica, resolvendo suas pendências de forma facilitada.

Inspirada no Innocence Project Brasil, a trama aborda casos de revisão criminal para discutir falhas da Justiça, provas, reconhecimento de suspeitos e os impactos humanos das condenações injustas (Foto: Netflix)

Criada por Luiz Villaça, Leonardo Moreira e Donna Oliveira e dirigida por Villaça e Flávia Lacerda, a história segue dois casos principais: o de Jonathan (Hypólito, o Fiyero de Wicked: O Musical), condenado sem provas por um crime que não cometeu; e o de Eliane (Naruna Costa), figura que assombra tanto o passado de Inez quanto o de Marina (Any Gabrielly), a protagonista mais jovem e disposta a quase tudo para conseguir justiça.

Ao longo de oito episódios, o linguajar técnico e jurídico se desenrola em apelações, processos, argumentações e vereditos, tudo contornado pela presença mitigante da delegada Cristina (Marisa Orth, soberba mesmo que caricata), figurona da Lei que pode estar manipulando mais do que se configura aceitável na legalidade.

Gabrielly retorna às séries de TV depois de 11 anos, desde Buuu – Um Chamado para a Aventura, período em que se dedicou ao Now United e à carreira solo (Foto: Netflix)

Do grupo de estudantes, a série extrai muito mal qualquer sensação de normalidade ou proximidade. Marina ganha corpo na atuação de Gabrielly, mas sente com força a ausência de um texto bem bolado. Kim (Nicolas Lee) repete gírias da internet e cumpre a diversidade por ser gay, asiático e um bocado irritante, ao passo que Lima (Pedro Roza) quase não registra presença, tão apático quanto robótico.

Sua namorada Raquel é impulsiva e cabeça quente, apoiando-se numa interpretação teatral de Luiza Gabus Mendes; e Bernardo, papel do esforçado Felipe Ricca, caminha bem entre o dever herdado pelo pai Pedro (Danton Mello) e a justiça possível apenas por meio da ruptura com o passado. No elenco adulto, Mello, Natália Lage e Vladimir Brichta vivem advogados inescrupulosos e de rabo preso, até que a série precise de liderança e altruísmo e então todos dão as mãos e andam juntos em direção ao que é certo.

Criticada pelos rombos lógicos que qualquer consultor da área apontaria de cara, Habeas Corpus carece do que fez, por exemplo, a série de Davis tão envolvente e viciante: tempo. De conhecer os personagens, descobrir suas falhas e qualidades, observar suas interações e entender, no fim, quais equações resultaram num produto tão frágil embora humano. O modelo do streaming consome qualquer migalha de desenvolvimento, nos deixando reféns de abordagens herméticas, livres da alma e da assinatura de seus criadores.

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