Se em Something to Give Each Other (2023) Troye Sivan nos chamou para a pista, com o corpo colado, o suor de Rush escorrendo pelas paredes da boate e a liberdade pós-pandemia celebrada em batidas de quatro por quatro, em She’s the Best ele faz o que pouca gente teria coragem de fazer depois de um hit indicado ao Grammy. Ele acende as luzes da festa. Não estamos mais no auge da noite. Estamos na hora da ressaca, no carro de aplicativo de volta para casa, no celular aberto no app de pegação às quatro da manhã. É um disco sobre desejo, sim, mas sobre o desejo que sobra quando a música para.
Para entender este novo trabalho, é preciso lembrar que Troye é famoso há mais da metade da vida. Do garoto que gravava vídeos no quarto em Perth, na Austrália, ao popstar que transformou Bloom e My My My! em hinos queer de uma geração inteira, ele sempre carregou aquele rótulo meio torto de artista que está “a um hit de distância” do topo absoluto. Depois de rodar a América do Norte ao lado de Charli xcx na SWEAT Tour, em 2024, o caminho óbvio era dobrar a aposta no clube. Ele não fez isso. E ainda bem.

A primeira pista do que viria estava na capa. Não é Troye quem aparece ali, mas uma mulher de topless, coberta apenas por tapa-mamilos de glitter, fumando um cigarro numa esquina de Astoria, em Nova York, à sombra do metrô elevado. E a faixa-título explica a escolha, já que She’s the Best é uma carta de amor às mulheres que ficaram enquanto os garotos e os empregos iam embora, como a irmã, a mãe, as professoras, as melhores amigas e a própria Charli. Mulheres trans, drag queens, a feminilidade em todas as suas formas. O próprio Troye admite que a música é um ponto fora da curva no disco, pois é o único momento em que ele olha para fora, e não para dentro.
Nos versos, ele mais fala do que canta, deslizando sobre um trip-hop arrastado de dois acordes que balança como uma dança lenta, até a faixa explodir num final acelerado, com Charli nos vocais de apoio. O clipe, dirigido por Gordon von Steiner, ainda traz ninguém menos que Nicole Kidman como a musa misteriosa que conduz a trama, paixão de infância do cantor desde Moulin Rouge. Perdoem-me, mas não consigo pensar num GAG maior em 2026.
É justo dizer, porém, que a faixa dividiu opiniões. O tom falado lembrou a alguns críticos o Neil Tennant dos Pet Shop Boys, e não necessariamente como elogio. Houve também quem apontasse a ironia de uma homenagem ao divino feminino assinada por cinco homens (Troye, Leland, George Daniel, Jack Antonoff e Styalz Fuego). É uma crítica que merece ser levada a sério. Ainda assim, acho que ela perde de vista o que a canção realmente é. Não se trata de uma tentativa de falar por essas mulheres, mas de mostrar o que elas significaram para um menino gay que, nas palavras dele, nunca foi “um dos garotos”, e sim “as meninas mais o Troye”.
Logo depois, o disco nos arremessa de volta à pista com Canada Dry, o trocadilho mais safado do ano, já que a bebida gelada que ele quer é também o canadense bonitão que lhe roubou a atenção. Originalmente batizada de Addison Rae, numa piscadela para Diet Pepsi, da amiga, é pop feito para arquear as costas e foi desenhada sob medida para o clube. Sinceramente, merecia ter sido single no lugar de Party.
Não que Party seja ruim. Construída sobre um sample de Madonna e praticamente nenhuma letra além da própria palavra repetida à exaustão, ela funciona menos como canção e mais como ritual. Para a cultura queer, em que a festa sempre foi também um espaço de sobrevivência, isso não é pouca coisa. Mas é, de longe, o momento em que o álbum mais soa como rascunho.
É a partir de I Do This For You que She’s the Best revela o que realmente é. Aqui, Troye dedica o refrão a um “quem quer que você seja”, vasculha os solteiros da região de Los Angeles e pede desculpas pela crise de histeria, afinal ele só está um pouquinho sozinho. A ponte, costurada com sons de anúncios pop-up, é um retrato feio e preciso da solidão mediada por aplicativos, aquela que bate no quarto de hotel quando a turnê acaba e o barulho do estádio vira silêncio.

Dali em diante, o álbum se entrega a uma sequência de canções sobre um homem que não existe. Em Cowboy, embalada por um violão quase sussurrado, ele descreve um rapaz que lhe apareceu em sonho, enquanto pequenos floreios instrumentais parecem saídos da trilha de um faroeste. Em Embarrassingly, tão nostálgica que chega a se datar por um iPhone 6S, ele confessa, sem pudor nenhum, que ainda pensa no ex nos seus momentos mais solitários. É um dos raros instantes em que os instintos acústicos e o glitch do disco se fundem de verdade, em vez de apenas dividirem o mesmo espaço.
Não tenho medo de dizer que Le Boy é a minha favorita absoluta. Com uma progressão de acordes cheia de acidentes que a deixa etérea, quase flutuante, ela soa diferente de tudo ao redor e, ainda assim, impossível de imaginar fora deste álbum. O mais bonito, porém, é o desfecho, em que a busca por um desconhecido termina em quase certeza, como se esse garoto estivesse destinado a ele antes mesmo da canção começar. Troye chegou a chamar essas músicas de amor para um homem imaginário de “patéticas”. Discordo com todas as forças. Poucas coisas são mais humanas do que desejar alguém que ainda não chegou. Sex Star fecha esse bloco de saudade do futuro com uma balada que imagina a vida a dois, sem abrir mão de um lado mais safado.
E então vem o caos. Troye Meets World é um surto de UK garage, com camadas e mais camadas de produção, a voz tratada até soar quase robótica no refrão e, de repente, um saxofone fechando tudo. Depois de tanta saudade, Troye é jogado num ambiente primal, frenético, que lembra muito 365, de Charli, na maneira como abraça a bagunça sem pedir licença. FF desacelera para um breakbeat lânguido, em que ele sente ciúmes do jeito como o rapaz segura o braço da guitarra, até se dissolver num falsete com auto-tune que se perde numa onda de instrumentos.
O disco caminha para o fim com Love So Big It Hurts e se despede em Lost Time, ao lado de Lily-Rose Depp, colega de The Idol e, não por acaso, uma das mulheres que ele cita como inspiração para o projeto. O mais interessante é que não há resolução. O álbum termina na mesma expectativa com que começou, como quem fecha a porta de casa ainda esperando que alguém bata.

Com tudo isso, é preciso fazer uma ressalva honesta. She’s the Best não é um álbum coeso no sentido tradicional. Ele passeia do glitch-hop ao drum and bass, do soft rock ao pop orquestral, do trip-hop ao violão de fogueira, com uma lista enorme de colaboradores, como Antonoff, George Daniel, Finneas, Tayla Parx e o fiel escudeiro Leland, que assina todas as faixas. Quem chegar esperando a pulsação contínua de Something to Give Each Other vai se frustrar. E há momentos em que a franqueza das letras beira o literal demais, como se o duplo sentido tivesse esquecido de ser duplo.
Troye também não é, e nunca foi, o vocalista mais tecnicamente dotado do pop, e ele mesmo é o primeiro a admitir isso. Mas, se tem algo que este disco prova, é que ele aprendeu a usar a própria voz como instrumento. Ele canta em sussurros que se somam à produção em vez de disputar espaço com ela, assume o protagonismo na hora exata e sabe se recolher quando os sintetizadores pedem passagem. É menos o trabalho de um cantor e mais o de um curador da própria visão.
E é justamente aí que mora a grandeza de She’s the Best. A dispersão não é desleixo. É a escolha estrutural de um disco de ressaca, de quem cansou de ter que mover a multidão sempre no mesmo andamento. Troye trocou a gratificação imediata pela estética, o refrão fácil pela escuta atenta, e entregou um álbum que não quer ser amado de cara, mas vivido aos poucos, nos baixos tanto quanto nos altos.
No fim, a conclusão é inevitável. Este é o disco mais estranho, mais corajoso e mais honesto da carreira de Troye Sivan. Talvez não seja o álbum que te conquista na primeira audição. É o que fica. Ela é a melhor, sem dúvida. Mas, desta vez, ele também é.


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