2ª temporada de The Pitt convida raiva e impaciência para plantão médico 

Bebê abandonada no feriado da Independência americana dispara outro caótico dia no hospital da HBO Max

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Sobreviver a uma estreia regada a prêmios e elogios é uma tarefa à altura da equipe criativa de The Pitt, que volta ao ar antes mesmo de terminar sua varredura pelas cerimônias. Depois de troféus no Emmy, Globo de Ouro, Critics Choice e no Actor Awards, o drama médico de Noah Wyle não se acanha em outro turno de deixar os cabelos em pé e os nervos extravasados.

Cerca de dez meses separam o caótico dia do tiroteio no PittFest da estreia da segunda temporada. Por acaso, o dr. Robby (Wyle), prestes a tirar uma rara licença, precisa conhecer quem irá substituí-lo como Chefe das Emergências e, ainda, lidar com o retorno do dr. Langdon (Patrick Ball), de volta da reabilitação e terapeutizado.

Sarah Wyle, esposa de Noah, e Elysia Roorbach, namorada de Patrick Ball, atuam como pacientes na segunda temporada de The Pitt (Foto: HBO Max)

O esquema é o mesmo: ao longo de quinze horas (i.e. quinze episódios), os funcionários do hospital lidarão com desafios profissionais, sobrecarga emocional e os diversos traumas e cobranças que rondam o trabalho com a saúde e a população. Desta vez, porém, não há uma tragédia que serve de cola para os personagens.

E, ao decorrer da segunda temporada, The Pitt prova que a ausência de um apocalipse isolado pode ser tão ou mais eficiente, dramaticamente falando. Tratando-se de uma série tão apoiada e dependente de sua fama de médicos, enfermeiros, estudantes e pacientes, é lógico mencioná-los nas argumentações que virão a seguir.

A proximidade de Samira com um paciente diabético sem plano de saúde guia sua trama na segunda temporada (Foto: HBO Max)

A Dra. McKay (Fiona Dourif) começa o dia marcando um encontro com um paciente bonitão para então ser alvejada pela trágica história de uma paciente terminal, vivida de forma heroica e inconsolável por Brittany Allen. Enxergando a vida e o amor de uma mãe, McKay se fecha emocionalmente, servindo de amparo para as lágrimas da mulher. Entre macas e receituários, ela oferece uma palavra amiga a Langdon e abre os olhos do estudante James Ogilvie (Lucas Iverson) para uma abordagem menos crítica da Medicina de Emergência. 

A jovem -quase doutora-, Victoria Javadi (Shabana Azeez) precisa tomar decisões que impactarão o futuro na carreira, e a mãe e o pai aparecem no térreo do hospital para oferecer dicas e opiniões não requeridas. Azeez, mais velha que suas colegas de elenco na vida real, interpreta uma personagem recém-saída da adolescência, e navega a ingenuidade e o maravilhamento da pouca idade com louvor, ganhando estofo pela persona online.

Os cortes do governo Trump na área da Saúde são mostrados na rotina do hospital (Foto: HBO Max)

Sua alter ego, a Dra. J, diverte os demais funcionários, causando um leve levantar de sobrancelhas de Robby, que não se agrada com a ideia de uma médica falando abertamente sobre os casos on-line. Javadi não abaixa a cabeça e devolve a cobrança com argumentos plausíveis, especialmente depois que policiais da ICE invadem o local e levam preso o enfermeiro Jesse (Ned Brower). O TikTok torna-se o canal de denúncia de problemas aparentemente irremediáveis do sistema norte-americano de saúde e de política.

Parte vital do conflito ético da primeira temporada, a Dra. Trinity Santos (Isa Briones) abraça um papel menos enérgico, muito pela apendicite que tirou a atriz do set por algum tempo. O retorno colocou a esquentada R2 para preencher os formulários e relatórios dos pacientes, mas as rusgas com Langdon permanecem borbulhando, assim como o romance sem rótulos com a cirurgiã Dra. Yolanda Garcia (Alexandra Metz).

Episódio focado no que acontece após a morte de um paciente ganha o brilhantismo das atrizes que interpretam enfermeiras (Foto: HBO Max)

A metade da laranja de Santos, no sentido platônico, é o recém-formado na faculdade Dr. Denis Whitaker (Gerran Howell). A amizade dele com a viúva da vítima de queimadura da primeira temporada gera ciúmes nela, que cala os sentimentos e processa as emoções especialmente na forma de silêncios constrangedores. Na season 2, Whitaker assume parte do papel de mentorado por Robby ocupado por Langdon no passado, seguindo os passos do mestre no que tange a humanidade e a atenção dada aos pacientes. 

Por meio dele, os novatos Ogilvie e Joy Kwon (Irene Choi), prodígios cada um a seu nível de capacidade, entendem a dinâmica do pronto-socorro e se integram aos diversos graus de envolvimento. Ele é frio, pensa alto demais e deixa os detalhes passarem batidos, enquanto ela é dotada de memória fotográfica e tem a terapia em dia, caindo fora assim que o relógio bate sua hora de saída.

Wyle e Hatosy se arriscam atrás das câmeras, abrindo espaço para que o elenco escreva e dirija episódios daqui para a frente (Foto: HBO Max)

Dra. Mel King (Taylor Dearden) também ganha menos momentos, mas usufrui dos poucos com primazia. Processada por pais negacionistas de um filho morto por meningite, a médica passa metade da temporada temendo o depoimento para os advogados do hospital, e quando o momento passa, sua irmã Becca (Tai Anderson) aparece com uma infecção urinária que acaba revelando pedaços da vida da caçula que Mel não teve acesso e, pior ainda, privou a si mesma de experienciar. 

É uma quebra de confiança e uma oportunidade dela rever o próprio cosmos, gerando epifanias que Dearden interpreta com calma e cálculos precisos. A cena pós-créditos da finale, com Mel e Santos se esgoelando no karaokê ao som de Alanis Morissette, representa um apocalipse benéfico para as duas. 

Craig Ricci Shaynak está espetacular na pele de um paciente obeso que precisa ser transferido para um hospital com equipamentos que comportem seu peso (Foto: HBO Max)

No canto oposto de uma vitória pessoal, a Dra. Samira Mohan (Supriya Ganesh) é puxada pela mãe, de quem ela não pode exigir confiança, e por Robby, que esbanja machismo e impaciência para sua outrora garota-propaganda. Seu arco na segunda temporada, que acaba na já anunciada saída da atriz do elenco do drama, é frustrante mas não surpreendente. Desde o princípio, Wyle e seus co-produtores John Wells e R. Scott Gemmill esclareceram o caráter “rotativo” do setor de Emergências.

As enfermeiras Princess (Kristin Villanueva) e Perlah (Amielynn Abellera), ao lado da novata Emma (Laëtitia Hollard), ganham protagonismo no sexto episódio, dirigido por Noah Wyle e focado no trabalho de limpeza do corpo de Louis (Ernest Harden Jr.), o carismático alcoolista que desperta simpatia e preocupação de todos os médicos do hospital. Sua morte, um infortúnio há muito desenhado pelo histórico de trauma e depressão, é epicentro emocional que afeta personagens e audiência com igual efeito colateral. 

Dana sofre com o estresse pós-traumático de ver a jovem Emma atacada por um paciente irritado (Foto: HBO Max)

A chefe da enfermagem Dana Evans (Katherine LaNasa), quebradora de promessas de aposentadoria, ganha também uma trama paralela ao drama geral da temporada, primeiro mentorando Emma e depois no exame físico dado à Ilana (Tina Ivlev), vítima de abuso sexual. É pelo silêncio e pelo olhar acolhedor que LaNasa eleva o material que já a rendeu um Emmy, e demonstra uma série de atributos e armas para combater a tristeza e o medo que nascem de casos do gênero. É ela, igualmente, quem coloca um pouco de razão na cabeça de Robby, cutucando feridas que o chefe tampouco reconhecia. 

Wyle, igualmente premiado com o Emmy pela interpretação corajosa e raivosa de Robby, cava mais fundo no estresse e na depressão do protagonista, projetando em todas as mulheres do pronto-socorro a mãe que o abandonou e, mais tarde, cogitando ele mesmo seguir os passos e despedir-se de surpresa. A chegada de Duke (Jeff Kober), amigo motoqueiro com problemas piores do que uma simples dor no peito, catalisa o arco de Robby, mas não o oferece conclusão satisfatória.

Grande nome da segunda temporada, Sepideh Moafi faz mais que o necessário para sair carregada de prêmios pelo papel da Dra. Al-Hashimi (Foto: HBO Max)

Isso porque tal senso de finitude só é declamado na cara da Dra. Baran Al-Hashimi (Sepideh Moafi), a substituta na chefia e uma médica com abordagem antagônica ao método do silêncio e da cobrança velada de Robby. Moafi, convidada a integrar um elenco com química e dinâmicas estabelecidas, desvia de qualquer traço vilanesco para viver uma personagem rica em ações e emoções, com cuidado para desprender a casca protetora e revelar, já desarmada, um evento na primeira infância que deixou sequelas intransponíveis.

Por mais que sua chegada remeta, indiretamente, à presença inicial da Dra. Kerry Weaver (Laura Innes), lá na segunda temporada de E.R., como a megera destinada a tomar o lugar do simpático protagonista masculino, Al-Hashimi desdobra-se com a atenção, o tom de voz e a empatia no olhar; mas não isenta de falhas, já que a ligação com o sistema de Inteligência Artificial que agiliza os processos burocráticos volta para morder suas costas, especialmente quando o hospital enfrenta uma crise tecnológica e precisa abraçar o analógico. 

A aposta que movimenta a economia da temporada é a respeito das origens do ataque cibernético aos hospitais da cidade (Foto: HBO Max)

Os fãs de Plantão Médico salivaram ao deparar-se com os prontuários, fichas, canetões e quadro branco para detalhar tratamento, diagnóstico e status dos pacientes. Enquanto os profissionais veteranos tiraram de letra, apesar da poeira acumulada em décadas de dispositivos e telas, os novatos penaram até para entender o funcionamento de uma máquina de fax. Assim, o bom humor encontra-se ao drama de vida ou morte do hospital, na medida dosada que The Pitt acostumou-se a servir.

E quando surgem problemas, a equipe noturna é convocada. Dr. Jack Abbot (Shawn Hatosy) primeiro dá as caras como paciente, baleado numa tentativa de assalto em seu bico como militar, e depois é encarregado de organizar a cena e delegar funções a seus fieis escudeiros, os “malucos” e alucinados profissionais que trabalham na madrugada. O enfermeiro Mateo (Jalen Thomas Brooks) só chega ao anoitecer, muito pelas responsabilidades do ator em outro sucesso do streaming, o romance Amores Improváveis, filmado quase em paralelo à série médica. Também em jornada múltipla, Luke Tennie, de Abbott Elementary e Shrinking, aparece como doutor da noite.

Vencedor na categoria de Ator Convidado no Emmy, Shawn Hatosy decidiu disputar como Coadjuvante na segunda temporada de The Pitt (Foto: HBO Max)

Inquirida pela mesma família que processou Mel, a Dra. Parker Ellis (Ayesha Harris) surge de maneira mais proeminente, e promete um retorno como personagem regular na terceira temporada. Já em processo de pré-produção, o cronograma mantém-se: com janeiro servindo de lar para The Pitt. Agora, o turno ocorrerá perto do final do ano, mas antes dos feriados que embalam a América entre novembro e dezembro.

Equilibrando fatos inéditos, como o status de pai de primeira viagem de Donny (Brandon Mendez Homer) e o destino profissional fora das telas da Dra. Collins (Tracy Ifeachor), e a presença rápida de uma porção de médicos com especialidades distintas, do cirurgião Shark (Lou Ferrigno Jr.) ao reencontro de E.R. entre Wyle e Mary McCormack, no papel da chefe da neurocirurgia Dra. Linda Conley, há espaço para pequenos acenos ao futuro de The Pitt; à vontade no formato de várias horas de um mesmo dia, encapsulando dramas que os personagens carregam há mais tempo que isso.

The Pitt abdica da regra de realismo e até apresenta uma música original, Need Someone, que toca no encerramento do sexto episódio (Foto: HBO Max)

A dilatada relação entre Robby e Langdon esfarelada em confiança e cobrança, é analisada pela ignorância de um e pelos pecados de outro, ferindo os personagens de maneiras profundas. O chefe quer a demissão do antigo pupilo, que parece não aceitar a atual condição dos termos. Como pode ele, tão falho quanto eu, receber amparo? Como pode ele, tão quebrado quanto eu, esconder-se do julgamento alheio?

Robby devolve em quietude: como pode Langdon, tão afetado, ter encontrado luz e paciência, e eu não? Wyle interpreta Robby com amargor, desilusão e a total vacância de esperança por detrás dos procedimentos, regulamentos e pedidos. É um trabalho sem vaidade ou para-quedas, onde toda e qualquer ação pode desencadear um terremoto na maneira que a audiência, e os demais personagens, virão a responder ao chefe do setor. Wyle, ciente, mergulha na explosão e abraça toda e qualquer consequência e dano colateral.

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