AJ and the Queen revigora o drama de estrada

RuPaul se alia a uma criança birrenta na espirituosa e emocional série cancelada da Netflix

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Para 2026, RuPaul prepara o lançamento de Stop! That! Train!, estreia do “multiverso de Drag Race”. Mas essa não é a primeira investida ficcional que envolve Mama Ru e diversas de suas filhas: em 2020, AJ and the Queen chegou na Netflix. Embora cancelada na temporada inicial, a produção carrega o DNA do reality show e subverte clichês em uma narrativa de estrada com muito a dizer.

Na história, contada ao longo de dez episódios de uma hora, RuPaul é Robert, drag queen que paga as contas com dificuldades e planeja abrir uma boate em NY, mas tem os sonhos interrompidos quando o homem com quem se relacionava, papel do sensual Josh Segarra, se revela um golpista e some com os cem mil dólares.

Ao longo da série, aparecem 22 ex-participantes de RuPaul’s Drag Race (Foto: Netflix)

No meio da desilusão de ter o coração partido e a conta bancária depenada, Robert se depara com AJ (Izzy G.), apelido de Amber Jasmine, uma garotinha de pouca idade mas muita audácia que se disfarça de menino para conseguir alguns trocados e sobreviver ao despejo. Sua mãe, papel de Katerina Tannenbaum, é uma trabalhadora do sexo perdida entre a dependência química e os deveres para com AJ. Sem planejar, a drag queen e a menina pegam a estrada.

Em turnê, a persona drag de Robert é Ruby Red, uma estátua impecável de cabelos ruivos e presença de palco única. Pela América interiorana, a dupla aprende a viver em harmonia e, de bar gay em bar gay, amadurece uma relação que parecia estranha demais para ser considerada real. Se a TV e o Cinema cansaram de parear veteranos e novatos sob a mesma roupagem de experiência, inocência e troca de afetos, a série criada por RuPaul e Michael Patrick King (de The Comeback e Sex and the City) prova que uma pitada queer é capaz de renovar a cafonice da coisa.

A série marca a primeira cena de amor da carreira de RuPaul (Foto: Netflix)

Além da viagem, realizada num trailer ultra equipado com camas portáteis e dezenas de gravações do programa da Oprah, AJ and the Queen também acompanha os vilões, insatisfeitos com a polícia em seu encalço e dispostos a eliminar Ruby. Segarra, versátil como Damien, um cafajeste que outrora conquistou o coração da drag, faz dupla com a caricata mas impagável Lady Danger (Tia Carrere), farsista com passado obscuro e tapa-olho. Juntos, eles bolam planos fajutos e acabam presos na própria armadilha.

Ainda em NY, Louis (Michael-Leon Wooley) é o fiel escudeiro de Robert e o responsável por manter a trama da mãe de AJ conectada com a estrada. Cego mas encarregado de costurar looks para diversas queens, o personagem é alívio cômico e também par romântico do sarado policial Patrick (Matthew Wilkas), mostrando que a vida queer na cidade grande não está restrita aos padrões dos bares e às drags novinhas. 

A figurinista Trayce Gigi Field comanda um departamento cheio de lantejoulas e brilho, sempre vestindo Ruby de maneira surpreendente (Foto: Netflix)

Do mundo de Drag Race, a série da Netflix convoca uma infinidade de rainhas. Para algumas, cabe o papel de compor a multidão das boates e dos camarins, mas outras ganham destaque e compartilham cenas dramáticas, cômicas e carregadas de tensão com Ru. Dentre as mais utilizadas, estão Chad Michaels, como uma veterana também enganada por Damien; Latrice Royale, como a diva Fabergé Legs, rainha da falsificação em Jackson e mãe de Terri Tory, papel de Mo Heart, e Ginger Minj. Katya, Bianca del Rio, Kennedy Davenport, Mariah Balenciaga, Jade Jolie, Eureka!, Jujubee, Trinity The Tuck, Jinkx Monsoon, Pandora Boxx, Jaymes Mansfield, Alexis Mateo, Manila Luzon, Ongina, Mayhem Miller, Pork Chop, Valentina e Vanessa Vanjie completam o elenco.

Além das drags, a série conta com diversos artistas, em sua maioria com veia cômica, que povoam as paisagens suburbanas da viagem de Ruby e AJ. Mesmo com pontinhas, espere sagacidade de Jane Krakowski, Mary Kay Place, Bridget Everett, Natasha Leggero, Tim Bagley, Kevin Daniels, Michael Cyril Creighton, Lorraine Bracco e Drew Powell. No roteiro, supervisionado por Ru e King, os coadjuvantes e figurantes se misturam rapidamente à linguagem camp e clássica do programa, gerando piadas recorrentes. 

Além de King e Shankman, também dirigem Adam Davidson (The Lunch Date), Anne Fletcher (27 Dresses), Bobcat Goldthwait (Jimmy Kimmel Live!), Dennie Gordon (Young Sherlock) e Michael Spiller (Modern Family) [Foto: Netflix]

 No time da direção, King comanda quatro dos dez capítulos, e Adam Shankman, diretor de Hairspray e de Stop! That! Train!, surge para comandar o icônico festival no camping de trailers. RuPaul, tão à vontade na pele de um personagem conhecido por ignorar os sinais ruins da vida, encontra em Izzy G. uma parceria de cena calibrada e preparada para rebate-lo, sem dó nem piedade. A jovem atriz, muitas vezes parte para o grito a fim de expressar o abandono, sabendo quando calar-se e fazer o momento pesar. Mistura de Sessão da Tarde com produção de roupagem queer, AJ and the Queen teve vida curta e final aberto, mas impacto duradouro. 

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