5ª temporada de The Boys implode como bomba-relógio 

Última investida contra Capitão Pátria gerou temporada irregular mas capítulo final com gosto de dever cumprido

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As explosões são múltiplas na 5ª e última temporada de The Boys, sátira do Prime Video que acabou rendendo-se ao objeto de escrutínio. Com novas produções derivando da matriz principal, a criação do VCU (Universo Cinematográfico da Vought), fica claro certa impaciência e falta de planejamento no grand finale da história que lançou Os Sete e seus rivais para o mundo.

Capitão Pátria (Antony Starr) está cada vez mais poderoso e imprevisível – e não é de hoje. Correndo em círculos, The Boys adia o máximo qualquer situação que envolva conclusões ou abruptas correções de rumo. Para impulsionar a vindoura Vought Rising, focada na origem da empresa e na primeira geração de heróis, o roteiro abraça os personagens do futuro spin-off e vai, pelas beiradas, resolvendo as pendências antigas.

The Boys começa com o paralelo dos campos de concentração de Homelander com os centros de detenção da ICE de Trump; nesta realidade, o Coachella foi cancelado e os artistas Chappel Roan e Tyler, the Creator foram mandados para o xadrez (Foto: Prime Video)

A morte de Trem-Bala (Jessie T. Usher), no episódio que abre a quinta temporada, chega tarde. Assim como o anti-climático sacrifício de Frenchie (Tomer Capone), na penúltima hora. O cabo de guerra entre honrar a base e preparar os novos lotes de conteúdo gera uma temporada inconstante, problema que a série criada por Eric Kripke carrega desde que começou a operação de multiplicar e reproduzir o lucro.

O cancelamento de Gen V, a inspirada versão teen de The Boys que acabou presa no “plano maior” do universo, só não é mais trágica porque sabíamos de sua possibilidade real de concretização. Marie Moreau (Jaz Sinclair), treinada para responder à ameaça do líder dos Sete, é um fantasma passageiro aqui, sendo escanteada por Luz-Estrela (Erin Moriarty), quando o momento pedia uma investida final.

A morte do Trem-Bala é carregada de simbolismo e de redenção, quando ele desvia de um civil e acaba desorientado, ao contrário do piloto da série, quando ele matou a namorada de Hughie numa situação semelhante (Foto: Prime Video)

No lado dos mascarados, Black Noir II (Nathan Mitchell) invoca a fúria de um deslocado Profundo (Chace Crawford), personagem que era avatar de todas as caretices da direita ultra-nacionalista e ficou vivo tempo demais para perder qualquer contraste ou sustância. Seu encerramento, para lá de satisfatório, não esconde o timing inoportuno.

Mana Sábia (Susan Heyward) derrapa em facilitadores narrativos descarados demais, Soldier Boy (Jensen Ackles) é todo empedrado num papel que exige mais vocabulário do que atuação, e a pobre coitada da Ashley (Colby Minifie) se alça ao posto de vice-presidente dos EUA, amparada por um marido pastor, Oh Father (Daveed Diggs), é armadora de uma redundante briga com sua outra eu, nascida do Composto V que a tornou uma relutante Super.

O plano de Butcher, construído ao redor do vírus letal aos Supers, é combatido com a existência do poderoso Composto V1 original, ação que come quase todos os episódios da temporada (Foto: Prime Video)

Aparecem aí figuras menores, caso de Sheline (Emma Elle Paterson), Countess Crow (Maitreyi Ramakrishnan), Rock Hard (Andrew Iles), Dogknott (Zach McGowan) e outros esquenta-banco preparados para serem obliterados na primeira oportunidade. No lado dos mocinhos, Kimiko (Karen Fukuhara) recupera a voz mas perde a autonomia, MM (Laz Alonso) repete o mantra batido do líder da gangue e Hughie (Jack Quaid), puro de coração, não adiciona nem subtrai.

Billy Butcher, no sotaque insuportável e lacônico de Karl Urban, é um redemoinho de jargões e frases pré-cozidas, indo de mal a pior numa narrativa deficiente de clímax ou êxtase. As interações com o jovem Ryan (Cameron Crovetti), outro personagem esquecido entre as promessas do futuro da franquia, são insossas e desagradáveis, especialmente quando comparadas ao carinho que ele cultivava pelo garoto.

Patinando na tarefa de tornar relevante o arco de Soldier Boy em sua futura produção derivada, a temporada final de The Boys desloca o foco narrativo original para uma firula sem fim frente ao personagem de Ackles. Ele ganha romance passado, inimizade presente e até uma pequena reunião com o elenco de Supernatural, ambientada toda no quinto episódio, One-Shots, montado como uma porção de pequenos curtas.

Entre retornos e estreias, a 5ª temporada de The Boys tem no elenco os nomes de Elisabeth Shue, Giancarlo Esposito, Nicholas Hamilton, Jackie Tohn, Jared Padalecki, Misha Collins, Will Forte, Kumail Nanjiani, Craig Robinson, Seth Rogen, Paul Reiser, Mason Dye, Naoko Mori, Jeffrey Dean Morgan, Samuel L. Jackson, London Thor, Langston Kerman, Lizze Broadway e Jim Beaver (Foto: Prime Video)

Espoleta (Valorie Curry) é dona de uma redenção à altura de sua importância, na virada final de um plano tão ridículo quanto verossímil de Pátria. Sátira escrachada dos líderes mundiais que acreditam estarem em direitos divinos de governo, o personagem de Antony Starr, sempre muito versátil em caras, bocas e reações, serviu de espelho para um Donald Trump descolado do plano real. Na semana que The Boys exibiria o capítulo com Homelander visitado por um anjo, a Casa Branca publicou uma imagem do presidente na exata situação.

Mais tarde, a estátua feita de ouro do Capitão Pátria foi novamente eclipsada pela figura do próprio Trump. O que começou como uma visão deturpada e cômica do que significa eleger alguém tão despreparado para a função que lhe cabe, tornou-se um lembrete sombrio e desanimador que a ficção não deve nada aos noticiários. Sorte de The Boys que Starr, tantos anos imerso no personagem, consiga extrair novidade e surpresa: desta vez, é o medo que guia os habitantes dos Estados Unidos, sentimento tão estrangeiro ao homem mais poderoso do mundo.

Blood and Bone, o episódio final da série, faz com que Antony Starr revele a última faceta do personagem, que implora por misericórdia, sugerindo todo tipo de pagamento para que mantenham seu coração pulsando. É ridículo e assustador, como toda a escatologia que moldou The Boys desde 2019, quando a primeira temporada estreou cercada de expectativas sanguinolentas e como antídoto ao pasteurizado cenário do gênero. 

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