Filha exemplar, dona de um dom artístico para a escrita e… grávida do professor casado no primeiro ano da faculdade. Essa é Margô Millet, a protagonista interpretada por Elle Fanning na comédia familiar da Apple TV.
Com base no livro de Rufi Thorpe, publicado no Brasil pela Editora Rocco, a história se desenrola quando Margô descobre a gravidez e precisa de medidas legais para lidar com o genitor da criança. Afastada da universidade em definitivo, ela luta para pagar as contas – e tudo piora quando as colegas de casa debandam-se para longe do choro do recém-nascido.

A sobrevivente é Susie, papel de Thaddea Graham, a amiga que persiste e se mantém ao lado da Margô. Apaixonada pela cultura da luta livre e criadora fumegante de designs para cosplays, Susie nem acredita quando atende a campainha e dá de cara com Jinx (Nick Offerman), exímio wrestler que por acaso é também pai distante da protagonista.
Soma-se ao trapézio familiar a excêntrica e espalhafatosa Shyanne (Michelle Pfeiffer), mãe-perua e agora noiva do pastor Kenny (Greg Kinnear). Quem desenvolve a série é o prolífico David E. Kelley, patriarca de grandes títulos da TV nas últimas décadas, e um profissional que sabe quais cordas puxar para extrair drama, humor e emoção.

Margô Está em Apuros mergulha no mundo do Only Fans ao posicionar a protagonista como criadora de conteúdo adulto. Embora não atue sobre a categoria de trabalhadora do sexo, ela sofre com os estigmas e os preconceitos, demonstrando que resiliência e coragem não são páreo para o maior dos escândalos.
Michael Angarano e Marcia Gay Harden, pai e avó do bebê Bodhi, respectivamente, dão trabalho na harmoniosa porém caótica rotina de Margot, Susie e Jinx, os mais improváveis colegas de apartamento. A comédia, também produzida por Fanning ao lado da irmã mais velha Dakota, é daquelas que desvenda novos ângulos e camadas com o passar dos oito capítulos.

Com o relacionamento amoroso literário de fora da versão televisiva, nunca esquecemos do bebê e do tamanho da responsabilidade na vida de Margô. Quando a saída é contribuir para vídeos e fotos com outras famosas camgirls, vividas por Rico Nasty e Lindsey Normington, ela coloca em prática os dotes para a escrita e despeja a criatividade enjaulada nos roteiros de vídeos onde sua persona on-line, Hungry Ghost, é uma alienígena que acabou de chegar à Terra, tímida e inocente aos percalços do local.
Mais profundamente, o roteiro trata das fantasias e das máscaras usadas por todos ali, na vã tentativa de proteção contra a realidade. A pose de Jinx, a fragilidade fabricada de Shyanne, as criações cibernéticas de Margô e as fantasias confeccionadas por Susie servem ao mesmo propósito, por mais que os resultados variem em sucesso. Até Nicole Kidman entra na gandaia, como Lace, a advogada com passado na luta livre que ajuda a família quando a Justiça é envolvida.

A finale, em antecipação para a já confirmada segunda temporada, convoca Paul McCrane (o eterno Dr. Romano de E.R.) para interpretar o juiz da vara familiar. Sua abordagem nada ortodoxa é um bálsamo para quebrar a tensão e lembrar que, no âmago, Margô Está em Apuros é daquelas dramédias com uma perna inteira mergulhada no humor.


Deixe um comentário