A ingrata tarefa de recriar a espontaneidade nascida de uma farsa não foi desafio para a equipe de Jury Duty. Três anos depois de estrear mudando os panorama da ficção na comédia, a série volta repaginada, embora fiel a seu princípio. Em Company Retreat, um ingênuo protagonista participa de uma semana de reuniões, encontros e palestras.
Se as dezenas de realities românticos penam para achar homens heterossexuais que convidem generosidade e afeto do público, a equipe que escala Jury Duty encontrou ouro duas vezes. Anthony, a vítima da vez, é um trabalhador temporário que acaba por acaso na empresa Rockin’ Grandma’s, no período em que o atual CEO passará o bastão para seu inexperiente filho.

Diferente da primeira temporada, ambientada num sistema judicial rígido e com cronograma definido, Company Retreat tem tempo para preencher as interações sociais entre Anthony e seus agora colegas de empresa. Entre eventos corporativos, jantares em shows de ilusionismo e a criação de um laço afetivo entre todos os envolvidos, a temporada caminha bem para uma conclusão dramática e hilária.
Com a chegada de uma provável compradora do legado familiar, Anthony estranha e repele a figura de Elizabeth Prescott (Wendy Braun, de Atypical) responsável por uma empresa que emprega apenas pessoas ruivas e quer acabar com a Rockin’ Grandma’s em sede de poder e monopólio. Aos poucos, o educado e prestativo Anthony vai se fartando do monstro corporativo.

Junto dele, os atores que interpretam tipos específicos ganham experiência de sobra com improvisações, arcos pré-determinados e alguns dramas que soam fabricados além do ponto de verossimilhança, diferente, por exemplo, das tramóias no tribunal do ano de estreia. A qualidade não é afetada, por mais que fique claro uma veia menos “realista” da abordagem atual.
Anthony, mais do que o homem enganado na temporada inicial, está ali se divertindo e, no caminho, remendando situações e auxiliando na mudança de gestão. Ele gargalha frente às bananadas daqueles que o cercam, e não se segura quando precisa mexer num vespeiro que envolve um pedido de casamento recusado na frente de todos os funcionários.

Mais interessante quando observada em suas minúcias e no que os atores fazem quando a câmera não foca neles, a dinâmica do elenco é um oásis para os fãs de comédia. Temos de tudo aqui: Claire (Rachel Kaly de High Maintenance), tímida T.I. que sai de seu casulo e vicia o resto da equipe na série Bones; Helen (Stephanie Hodge, de The Comeback), mais perto da aposentadoria mas ainda disposta a sujar as mãos; Steve (Warren Burke, de Family Reunion), interessado no futuro da empresa; Kate (Erica Hernandez, de True Lies), a certinha do grupo que, para corrigir sua postura, leva choques esporádicos de um aparelho corretivo.
Other Anthony (Rob Lathan, de Inside Amy Schumer) é um perdedor que ignora o problema de mofo na casa e engata o romance da temporada com Amy (Emily Pendergast, de Veep), que recusa o pedido de casamento de seu supervisor e acaba se apaixonando depois do show do ilusionista. PJ (Marc-Sully Saint-Fleur, de Space Force) é o influencer, Jackie (LaNisa Renee Frederick, de To and From) é a alma da festa, Jimmy (Jim Woods, de Safety Geeks: SVI) esconde segredos que está louco para compartilhar com os colegas e Kevin (Ryan Perez, de The Napa Boys) foge depois de ser humilhado logo na chegada.

O chefe Doug (Jerry Hauck, de Paradise) tenta até o fim confiar no filho, Dougie Jr. (Alex Bonifer, de Kevin Can F**k Himself), que volta da Jamaica depois de ser expulso de sua banda de ska. O que poderia ser uma reunião de estereótipos, ganha na gentileza e na honestidade de Anthony uma camada de leveza que faz o humor, seja ele intencional, roteirizado ou espontâneo, diferente de tudo que passa na TV atualmente.
Se Jury Duty conseguirá repetir o efeito uma terceira vez, só o tempo dirá. Mas os resultados obtidos em Company Retreat, com direito a participação especial de Sia como ela mesma, não devem ser tidos como levianos. Há espaço para inovar, embaralhar e se maravilhar com os preceitos básicos do humor, e devemos essa glória ao time que, incessantemente, encontra alguém com fé suficiente para estar rodeado de atores em situações incabíveis e deliciosas de assistir.


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