Dramaticamente falando, a 18ª temporada de RuPaul’s Drag Race colocou-se num beco sem saída ao eliminar a favorita óbvia e escalar uma Grande Final composta por rainhas sem o “edit” de campeã. E os sinais estavam visíveis desde o princípio.
O desafio dos materiais não convencionais substituiu o Show de Talentos na estreia, mas também trocou a eliminação por uma Dublagem pela Vitória. Nini Coco nocauteou a costureira Vita VonTesse Starr ao som de Cardi B e arrecadou o primeiro Win da season.

A rapper, jurada convidada da estreia, trouxe seus maneirismos e sua moda para o Ateliê, também enfatizando a importância de duas de suas companheiras de equipe, a cabeleireira Tokyo Stylez e a maquiadora Erika La’Pearl, mulheres trans que apareceram no Untucked e foram aplaudidas pelo elenco. Enquanto outra rapper toma conta dos noticiários com comentários esdrúxulos e se curva ao governo americano, Cardi rebate da melhor forma: com talento, nerve e shade!
A infame posição de primeira eliminada caiu no colo de DD Fuego, rainha latina que ouviu Sashay Away no desafio dos grupos musicais, mandada embora por uma tão inexperiente quanto enérgica Mandy Mango, eventual segundo boot da season 18. A dupla não rendeu e nem foi pauta para o restante das queens ao longo dos demais episódios, retornando no Lalaparuza para perderem no primeiro round.

Quem saiu cedo mas ganhou palco foi Briar Blush, eternizada por um desmaio no palco e pela triste história de uma pneumonia mal-diagnosticada que logo se converteu em sepse e prejudicou a saúde da queen.
Entretanto, sua passagem pela temporada foi cheia de embates, especialmente com a veterana Athena Dion, com quem Briar cultivou uma rivalidade mais do que ardente: a picuinha entre as duas passou de incômoda para efervescente e fechou na chave do humor, quando Athena perdeu o Lalaparuza e Briar, impossibilitada de participar por sua saúde, logo apareceu para atazanar a sister.

O temido RDR Live Returns! apareceu ressurgindo das cinzas para coroar os talentos cômicos inesperados de Juicy Love Dion, filha drag de Morphine e neta drag de Athena, e para eliminar Mandy Mango. Juicy, uma das protagonistas absolutas do ano, surpreendeu com o timing cômico, o sotaque de Nova Jersey e uma passarela temática de animais. Para quem acreditava nos talentos da dançarina apenas nas Dublagens, o desafio de comédia provou o oposto – pelo menos por ora.
Red Carpet Mash-Ups dividiu as competidoras em duplas e julgou-as dessa forma: uma ia pro Top e a outra para o Bottom, com tecidos iguais que deveriam misturar dois looks que marcaram os tapetes vermelhos. Derrotada na estreia, Vita conseguiu o tão merecido Win, enquanto Briar acabou eliminada, depois de desmaiar, por Kenya Pleaser.

O chacoalhão narrativo veio no Show de Talentos alocado no meio da temporada, a tempos de alianças estarem formadas, com o retorno do ranqueamento pessoal das queens. Dividido em duas semanas, com Lip Syncs pela Vitória e um único duelo pela sobrevivência, o desafio viu estratégias como Drag Race não costuma apostar. A aliança da Flórida rendeu os melhores frutos.
Juicy e sua tia drag Mia Starr acabaram empatadas depois do melhor Lip Sync da temporada, Pretty Ugly, da jurada convidada Zara Larsson; na rodada seguinte, Athena Dion derrotou Jane Don’t e conseguiu um raro hat-trick da família. No Bottom, a apagada e negligenciada Ciara Myst encontrou-se com a injustiçada Myki Meeks, votadas como as piores pelas demais competidoras.

Foi com a batida de Toxic e o look inspirado na Noiva de Frankenstein que Myki saiu do casulo hermético projetado pela produção e, além de mandar Ciara embora, decolou para o Top e de lá não saiu mais: do Show de Talentos até a Semifinal, a queen acumulou elogios e quebrou recordes do programa, com quatro vitórias e mais nenhum tropeço.
Mas se estamos falando de recordes, louros e elogios na season 18, ninguém brilhou como Jane Don’t. Drag de Seattle, irmã de Bosco e Irene the Alien e a primeira participante na história de RuPaul’s Drag Race a passar todas as semanas entre as Melhores até o antepenúltimo desafio.

Jane estraçalhou qualquer rivalidade ou senso de corrida com um track record repleto de estrelas. Venceu o Girl Group, o Rusical temático de Annie e da cultura de Ballroom, e o polêmico Drag In A Bag, quando precisou costurar usando os retalhos de tecido deixados por Ciara Myst. Protagonista, heroína e mártir da season, Jane viu o castelo ruir no Makeover e, mais ainda, na eliminação depois de uma improvisação mal bolada.
Ninguém esperava ou enxergava um futuro sem Jane na Grande Final, com um histórico que rivaliza com as marcas de Jinkx Monsoon na season 5, Bianca Del Rio na season 6 e até supera os desempenhos de Sasha Colby na season 15 e Onya Nurve na season 18. Sem precedentes, a drag saiu depois de Nini Coco derrotá-la dublando Garden of Eden, de Lady Gaga.

O susto de ver Jane eliminada, num furor que tomou as redes sociais como a série não fazia há anos, não valeu a aposta. Afinal, o gag pelo gag mais atrapalhou a construção da temporada, jogando as fichas fora. O que poderia ser uma Corrida impecável de Jane, excedendo expectativas da estreia ao final, acabou com um asterisco gigantesco e que, inevitavelmente, marcará o reinado de Myki.
Se este fosse o único deslize da produção, estaríamos felizes da vida. Mas RuPaul’s Drag Race pisou na bola em terrenos múltiplos de construção de arcos e histórias entre queens. Vita foi obliterada por Juicy no desafio de comerciais, depois de flutuar entre o Safe e o triunfo na máquina de costura. Mia Starr, poço de carisma e de coração, foi passada para trás depois do Snatch Game, preterida em favor de Kenya, uma drag que mais decepcionou do que qualquer outra coisa.

Sem narrativa, mesmo com todo o mote familiar da Flórida, Mia imitou a Maria Sangrenta na repaginação do desafio, com o twist do Love Island levando as queens do painel habitual para um sofá com os solteirões da vez. Kenya Pleaser, na pele de Lizzo, entregou a performance mais constrangedora do ano – e depois, ganhou a recompensa de permanecer na competição.
Mia partiu, deixando Juicy e Athena no campo de batalha. No Rusical, as parentes acabaram dublando a péssima Call Me When You Break Up, de Selena Gomez, benny blanco e Gracie Abrams. O momento, planejado como apogeu dramático da season, seguiu a toada da canção: morno, intragável e com a óbvia vitória da mais jovem. Athena, do alto de sua experiência e certa arrogância, saiu sem mais nem menos.

Discord Addams, a única drag sem Wins a chegar tão longe na temporada, foi também um dos rostos de proeminência na edição e no Ateliê. A começar por sua caminhada, que ganhou câmera própria e foi tema de discussão entre as queens e RuPaul, com direito a aula particular e até um joinha, até os vários momentos de “tensão” que a produção implantou na diva punk.
Ao contrário, por exemplo, de Jan na season 12, Discord recusou-se a surtar ou quebrar tudo pela roubalheira que a mantinha sempre entre as salvas e nunca entre as Melhores da Semana, lugar que deveria ter ocupado uma vez ou outra. Após as eliminações de Discord no Makeover e Jane no Improv, a temporada repetiu a comédia como tarefa final e mandou Juicy embora.

Com históricos em mãos: Myki foi para o Bottom apenas no Rate-A-Queen, e ouviu de RuPaul que as irmãs foram maldosas – e tal julgamento foi injusto! Com 4 vitórias nos desafios principais, além de alguns mini-challenges, como o Reading, tornou-se a queen com maior domínio, sem dúvidas. Na sequência, a eufórica e sorridente Darlene Mitchell demorou a desabrochar, não dublou pela vida, e venceu o Roast (em “homenagem” à Alyssa Edwards) e o improv do jornal matutino com Myki.
De azarona a potência, Darlene representa uma drag mais despojada e fora dos padrões que Michelle Visage costuma elogiar. E fechando o Top 3, a versátil Nini Coco passou pelo Vale da Morte ao sobreviver três Lip Syncs seguidos na reta final, somando sua vitória na estreia com o triunfo no Snatch Game na pele de David Attenborough, e provando-se fluente na gramática de Drag Race. Na Final, conquistou a medalha de prata.

Organizado para favorecer drags que duraram mais na competição, All RuPaul-A-Paruza Smackdown foi feito para desempatar o histórico de Mia Starr e de Juicy. Na rodada final, elevadas pelas palavras icônicas e pela batida frenética de Cover Girl, a mais jovem saiu por cima. Rainha do She Done Already Done Had Herses e com cinquenta mil dólares na conta, Juicy Love Dion junta-se a Morphine e Suzie Toot no panteão.
A Grande Final homenageou Miley Cyrus com o Giving Us Lifetime Achievement Award e com a música do Lip Sync pela Coroa. Every Girl You’ve Ever Loved embalou Myki e Nini, culminando na vitória da primeira. Numa temporada com mudanças estruturais (ao invés de Ru-Mail, temos as Ru Rules), fracassos colossais (o mini-desafio dos puppets e a eliminação de Jane), e primeiras vezes (não teve ball!), RuPaul’s Drag Race persegue o momentum do passado, quando os Emmys se acumulavam e as críticas eram pequenas perto dos elogios.


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