Estação Onze pinta retrato esperançoso de um mundo devastado por pessoas e doenças

Quase no papel de arauto da tragédia de saúde do COVID-19, a autora Emily St. John Mandel cria obra aterrada na humanidade

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A Gripe da Geórgia dizimou o mundo fictício da americana Emily St. John Mandel, que constrói Estação Onze ao redor de um homem, morto horas antes do surto patológico começar. Ele é Arthur Landen, um ator que coleciona casamentos fracassados e, no palco e na pele do Rei Lear, de Shakespeare, desaba para a própria desolação. 

Dividido em capítulos que narram desde as origens de Arthur, seu começo na indústria, seus romances, casórios e divórcios, até o fatídico dia da peça, o livro também intercala os demais personagens, no passado longínquo onde a humanidade funcionava às mil maravilhas, com o presente afoito das crises e o futuro, mais precisamente duas décadas depois da Gripe.

“Jeevan foi esmagado pela repentina certeza de que era aquilo mesmo, a doença que Hua descrevia iria representar uma fronteira entre um antes e um depois, uma linha que cortaria sua vida ao meio”.

Mandel é criativa na maneira que entrelaça a atriz Kristen e sua Sinfonia Itinerante, que, no Ano 20 do novo mundo, se depara com um misterioso e perigoso culto numa cidadezinha qualquer. Sob a tutela do Profeta, os cativos e os fiéis também se relacionam com a vida de Arthur e a existência de um par de exemplares de Estação Onze, revista em quadrinhos com estranhas semelhanças e coincidências com esse cenário pós-desolação.

A carne da história está na maneira como cada ser, seja Miranda, a primeira ex-mulher de Arthur, ou Clark, seu amigo de adolescência, ou Elizabeth e Tyler, segunda mulher e filho do homem, se localiza e se organiza na epidemia que matou quase todos os humanos. Há, também, suficiente foco num paparazzi transformado em jornalista e em treinamento para ser socorrista que, anos depois de perseguir e entrevistar Arthur, é quem, de prontidão, tenta salvá-lo do colapso no palco.

“[…] Frank de pé em cima de um banco, sobre suas pernas maravilhosamente funcionais, antes da Líbia; a bala que ia seccionar sua medula espinhal ainda estava a vinte e cinco anos de distância, mas já se aproximava: uma mulher estava dando à luz uma criança que, um dia, ia puxar o gatilho de uma arma, um projetista desenhando a arma ou seu percussor, um ditador tomando uma decisão que, quando a hora chegasse, ia deflagar o conflito do outro lado do oceano que Frank teria de cobrir para a agência de notícias Reuters, as peças de um esquema já se movimentavam e se aproximavam, para afinal se encaixarem”.

A edição brasileira foi traduzida por Rubens Figueiredo para a Editora Intrínseca (Foto: Reprodução)

As criações de William Shakespeare moldam a vida da Sinfonia, um conjunto de músicos, atores e artistas sobreviventes, que caminha pelas estradas abandonadas e intercala as peças, das mais dramáticas às mais cômicas. O que poderia parecer uma enrolação confusa de pessoas e lugares ganha a linha tênue da autora, que costura cada emenda com precisão e observa, ao longe, uma estrutura de feridas, paixões e esperança, na mais vã das situações.

Best-seller do NY Times, finalista dos prêmios National Book, Pen/Faulkner e do Baileys Women’s Prize, Estação Onze previu certos cenários que tornariam-se terrivelmente similares à realidade dez anos depois de sua publicação, quando o COVID-19 despertou fantasmas de isolamento e mortalidade no mundo todo. O livro, tão polimorfo e versado em temas de pertencimento, arrependimento e o poder da arte, ganhou as telas da HBO Max em 2021, com indicações ao Emmy

“Será que aquilo acontecia com todos os atores, aquele apagamento da fronteira entre representação e vida?” 

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