Se a maternidade guiou a jornada brutal do terceiro filme da franquia Extermínio, o lado do pai reina na sequência O Templo dos Ossos. Spike (Alfie Williams), inserido na gangue satânica de Sir Jimmy Crystal (Jack O’Connell), esbarra na figura avermelhada do Dr. Kelson (Ralph Fiennes), imerso na dinâmica de criador e criatura com o alfa Sansão (Chi Lewis-Parry), cada vez mais distante da imersão raivosa do vírus.
Responsável por imprimir sua visão numa série de filmes consolidada, a americana Nia DaCosta (de Candyman, As Marvels e Hedda) abraça o frenético ritmo de Danny Boyle mas não perde a chance de brincar com os símbolos de maldade e de amadurecimento de The Bone Temple, um longa cheio de elipses sentimentais, normalmente ao som de Duran Duran e Iron Maiden.

Como extensão direta de A Evolução, o roteiro finaliza certas tramas de longa gestação, ao passo que abre o horizonte para um terceiro capítulo ainda incerto nos planos do estúdio. Fiennes e O’Connell, em embate direto de fé e propósito, proporcionam cenas de perder o fôlego e de segurar a ansiedade numa mão cheia de riscos e cicatrizes. O jovem ator definiu o quarto filme como o “primo estranho e louco” de 28 Years Later.
Menos interessado no desenvolvimento extra corporal dos protagonistas masculinos, o roteiro de Alex Garland estipula os limites da violência da gangue dos Jimmys, em cenas que cerceiam o limite do cruel e a viscosidade do sangue, aqui explorado como camada mais superficial de pessoas caídas vítimas de um sádico satanista.

Com a construção do palácio do médico, o filme se esbalda pela magnitude das torres feitas de ossos, com aqueles crânios pacíficos preenchendo o ambiente com aura de morte e de danação. Em contraste, Sansão agarra a consciência e, a partir das intervenções médicas, recupera sua humanidade, apreciando a brisa, a água do riacho e até o sabor doce de uma fruta colhida com esmero e precisão.
Punk rock na atitude e verborrágico na compostura, O Templo dos Ossos bagunça o status quo que Boyle e Garland originaram na virada do século, dando a DaCosta, uma cineasta cheia de recursos e remodelações, o palco para uma experiência histriônica, sensível e passível de expurgar os sinais de uma doença que, 30 anos a dentro, ressaltou os buracos de solidão e de saudades que os remanescentes sentem à enésima potência.

Anunciado de surpresa e com o processo de filmagem iniciado apenas três dias depois do fim de A Evolução, o quarto filme justapõe violência e crença, pincelando a maldade como saída mais fácil para que o fim da humanidade empalideça. Em termos técnicos, e em contraste com o filme anterior, filmado com câmeras do iPhone 15 Pro, The Bone Temple foi filmado usando a câmera digital Arri Alexa 35, o que abre horizontes da direção íntima, desvairada e salivante de DaCosta.
Na trilha sonora de Hildur Guðnadóttir, a imensidão só é comparável aos planos da câmera de Sean Bobbitt, em constante recusa da visão pacífica do mundo povoado por monstros, sejam eles portadores do vírus ou não. No elenco de apoio, um grupo pequenino de atores que conta com Erin Kellyman, Maura Bird, Connor Newall, Ghazi Al Ruffai, Robert Rhodes, Sam Locke e Emma Laird, faz da Terra um inferno que reina sob perucas loiras e moletons esportivos.


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