Nenhum de nós têm memória do momento de nossa concepção, nem dos nossos primeiros anos de vida. Muito menos dos pensamentos que ocupavam nossa cabeça. Mas e se, de algum jeito, uma criança tivesse consciência formada desde o início da vida, antes mesmo de nascer, descobrir e absorver os conhecimentos e afetos ao seu redor? É esse exercício simultaneamente desatinado e fascinante que guia A Pequena Amélie, animação francesa indicada ao Oscar 2026.
Ao tomar consciência da própria existência — enquanto ainda no ventre, como um tubo —, a conclusão da nossa protagonista é óbvia: se sou a única coisa que vejo e reconheço, só posso ser Deus. Mesmo após vir ao mundo, Amélie segue em estado vegetativo, sem reagir aos pais, irmãos e ao ambiente externo, como se estivesse isolada por uma bolha.
Quando o primeiro contato acontece, a reação é de frustração, choro, birra, e somente é pacificada com a magia do paladar, engatilhado por um pedaço de chocolate branco oferecido pela avó. A partir dali, a garota se tornará integralmente guiada pela experiência sensorial que é viver.

Dirigido pela dupla francesa Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, A Pequena Amélie estreou em Cannes em 2025 e adapta o romance semi-biográfico da escritora belga Amélie Nothomb, Métaphysique des tubes (2000). Assim como a pequena Amélie, Nothomb cresceu em Kobe, no Japão, onde seu pai trabalhava como diplomata, em uma das regiões mais atingidas pela Segunda Guerra Mundial e que, nos anos 60, ainda carregava feridas profundas.
Há quem diga que das premissas mais específicas surgem as histórias mais universais. E A Pequena Amélie abraça essa filosofia com louvor. O cenário pode ser particular, porém o senso de novidade puramente infantil, como na descoberta das estações ou na empolgação em atos simples como correr, já fez parte de todos nós. Essas sensações são aguçadas pelas técnicas de animação 2D, que viajam nas andanças de Amélie e bebem de influências do Japonismo, movimento artístico do século XIX que nasceu da inspiração de obras japonesas na França.

Contudo, toda essa empolgação é logo esmorecida com a contestação de que a vida não são só flores. Subitamente, a família recebe a notícia do falecimento da avó na Holanda, da qual Amélie ainda não consegue compreender. Por outro lado, seu forte vínculo com Nishio-san, faxineira da casa e a única pessoa que a trata como igual, logo é estremecida pela barreira cultural. Esse atrito é compelido pela proprietária da residência em que moram, que, machucada pelos ecos da guerra, não admite a inclusão da criança em tradições locais.
Enquanto isso, Amélie percebe que as pessoas que a rodeiam guardam facetas múltiplas. Seu irmão mais velho travesso, que ela guardava rancor por conta das brincadeiras de mau gosto, a salva de um afogamento na praia sem pestanejar e demonstra amor genuíno ao perceber seu perigo. Seu pai, antes uma figura resiliente, chora como “um bebê” ao descobrir a morte da mãe.

Nessa epopéia internamente homérica, Amélie descobre que a vida se forma em um emaranhado contraditório de dores e prazeres. E, por mais clichê que pareça, entende que são os elos e lembranças que construímos com quem importa que fazem a loucura de ser humano valer a pena. De repente, ser Deus nem parece tão interessante assim.
Com uma animação vibrante e uma das histórias mais tocantes da temporada, A Pequena Amélie rapidamente se tornou um dos queridinhos do público. Não é por acaso que conquistou o Prêmio da Audiência no Festival de Animação de Annecy em 2025 e garantiu uma indicação à Melhor Animação no Oscar 2026. Entretanto, o longa-metragem ganhou pouca tração durante a corrida, perdendo nas sete categorias em que foi indicado no Annie Awards e sem fôlego para acompanhar a soberania de Guerreiras do K-Pop.


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