A poeta Andrea Gibson tem uma parcela de sua vida detalhada em Embaixo da Luz de Neon (Come See in the Good Light), documentário que disputa o Oscar 2026. À partir do relacionamento com a também poeta e escritora Megan Falley, o filme segue o diagnóstico de câncer de ovário de Gibson que desafia as expectativas dadas por médicos.
A doença foi descoberta em 2021, mas o diretor Ryan White (de Boa Noite Oppy) só adentra o cotidiano do casal em 2024, do início ao fim de um ano que foi marcado pela dor da metástase e pela certeza da partida. Mas o chororô é adereço da narrativa, num retrato atípico da morte e do que significa estar vivo.

Não demora para que Gibson encante o espectador, seja pela visão otimista e pela língua afiada no humor que desarma a tristeza, seja nos recortes que White faz da carreira delu. Com a câmera servindo de ouvinte fiel, Gibson e a esposa falam sobre tudo: infância, expressão como pessoa queer, sair do armário, começar e terminar relacionamentos. E também sobre a doença com C.
Produzido pela atriz Tig Notaro, amiga de longa data das protagonistas, Embaixo da Luz de Neon estreou em Sundance, de onde saiu com o prêmio de favorito do festival. A Apple comprou os direitos, mas Andrea Gibson morreu antes do circuito comercial do documentário. Sua morte, todavia, não é detalhada tampouco exemplificada em epígrafes.

O foco é a vida – e a arte, com poesias de Gibson sendo interpretadas ao melhor estilo spoken word que deixava elu tão a vontade e energizade. As cantoras Sara Bareilles e Brandi Carlile compuseram a canção que embala o último show de Gibson, habilmente intitulada Salt Then Sour Then Sweet, a mais simples e mais certeira das descrições.
Mais do que o testamento visual da alma de seu objeto de admiração, Come See in the Good Light destaca as proezas, as minúcias e as esperanças de pessoas confrontadas com o inevitável, mas sem o tempo que o resto de nós costuma possuir, ignorando tal privilégio. Da caixa de correio que se desmonta dia sim, dia não, a vida é atravessada por infortúnios e sortilégios, um granulado agridoce, embora inconfundível e inegável, da experiência ao lado daqueles que amamos.


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