Elio: filme espacial da Pixar flutua acima da falência criativa

Narrando a história de um garoto perdido no espaço, animação surpreende pelo capricho

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A história original de Elio foi descartada pela Pixar, que alocou o diretor Adrian Molina em um projeto futuro (a sequência de Viva: A Vida é uma Festa) e trouxe as diretoras Madeline Sharafian (indicada ao Oscar por Toca) e Domee Shi (vencedora do Oscar por Bao e indicada por Red – Crescer é uma Fera) não só para remendar o roteiro, mas também para polir as arestas.

Na trama, o menino (Yonas Kibreab) perde os pais de forma trágica e passa a morar com a tia Olga (voz de Zoe Saldaña), oficial do exército que tem pouco tempo para a infância dele e menos ainda para suas criancices. Ele tem um idioma próprio, adora comunicar-se por rádio e é obcecado por alienígenas.

Novo chefe da Pixar, Pete Docter decidiu afastar o estúdio de histórias autorais, mudando a base de Elio ao trazer novas diretoras (Foto: Disney)

Tamanha paixão pelo extraterrestre que Elio deseja ser abduzido para morar num lugar onde se sentirá querido e confortável. Azar da tia quando uma nave captura o garoto e, erroneamente, o reconhece como o Rei da Terra e, portanto, um representante digno no conselho interplanetário. Mentira vai, falácia vem, e Elio acaba numa emboscada que envolve o vilanesco Lord Grigon (Brad Garrett) e seu filho Glordon (Remy Edgerly).

Enquanto o pai é autoritário e já plantou o futuro militar do garoto, este é sensível, adora brincar e tem aversão à violência. Elio não demora a se afeiçoar ao amigo, prometendo uma chance de viver, em harmonia, o melhor dos dois mundos. Afinal, o próprio protagonista fez isso, ao clonar a si mesmo e mandar o coitado para a Terra e viver em paz com a tia.

Além de trechos narrados por Carl Sagan, o elenco de voz de Elio tem Jameela Jamil, Atsuko Okatsuka, Shirley Henderson e Kate Mulgrew (Foto: Disney)

Simplificando a jornada do herói e suas reviravoltas e consequências, Elio é um filme seguro e pouco inventivo, marca que tornou-se regra na safra recente da Pixar, estúdio que se vê falido quando o assunto é originalidade e aposta todas as fichas em sequências e derivados. A animação de 2025, indicada ao Globo de Ouro, ao Critics Choice e com grandes chances de integrar a lista do Oscar, esconde a mágica no simples.

Com composições visuais estonteantes e muito caprichadas, o filme abusa do jogo de cores, brincando também com as sombras ao contar uma história de aceitação e liberdade. Embora o subtexto queer passou de sutil para inexistente na troca da direção, Elio opera numa frequência semelhante a de Luca, acompanhando também a infância num ambiente incomum.

O livro com artes conceituais originais do filme mostravam o Outro Elio como vilão, o que com certeza apostaria numa trama mais cinzenta e árdua de ser resolvida pelo protagonista (Foto: Disney)

Mas, se as paisagens italianas eram cenário de descoberta e liberdade, o interior das naves e o horizonte estrelado do espaço sideral parece minar o desenvolvimento dos amigos, que são confrontados com decisões difíceis mas encontram soluções rápidas até demais.

Sem complicações ou problemas morais, Elio desarma a moralidade e a amargura que outros títulos da Pixar fizeram antes. Remoer o passado do estúdio é um ato masoquista, mas ainda dói perceber como figuras como Linguini, Carl, Woody e Boo alçaram-se ao panteão da Disney e hoje em dia os personagens precisam dar título aos filmes para que lembremos seus nomes.

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