James Gunn não quer saber de introduções. A abertura de Superman, o primeiro título do novo universo da DC nos cinemas, delimita o escopo presente. Derrubado, o herói jaz acabado, com sangue manchando a neve e precisando da única ajuda que conhece, o hiperativo Krypto, que antes de voar de volta à Metrópolis, deita e rola no corpo do tutor.
Definido na internet como “o episódio 17 da terceira temporada de uma série”, o filme é frenético e abraça as cores e a instabilidade do material base do personagem. Lex Luthor (Nicholas Hoult) estudou tanto a figura do Super-Homem que sabe antecipar golpes e, no calor do momento, até imita os socos que seus minions desferem no herói.
É vivo e ácido, como numa relação de ódio que não precisa de justificativas para existir; o mesmo se repete no restante da matriz de Gunn. No Planeta Diário, a redação do jornal tem gente demais fazendo coisa demais. Lois Lane (Rachel Brosnahan) inquere Clark Kent, mesmo sabendo a resposta de todas as perguntas.

A dinâmica do casal, que namora há três meses mas não esconde sentimentos fortes e vitais, é analisada com cautela por Gunn, que não hesita em escrever uma discussão que passa dos dez minutos e, de tão bem articulada, serve de manual de instruções para a psique e as motivações dos personagens.
Superman, na contramão de tudo que o Cinema cultivou para o panteão da DC desde que Christopher Nolan fez de Batman seu arauto da escuridão, é um filme solar, espevitado e ligado no 220. A Gangue da Justiça opera com segurança e pouca mídia, com as personalidades contrastantes do Lanterna Verde (Nathan Fillion), Sr. Incrível (Edi Gathegi) e Mulher-Gavião (Isabela Merced) quebrando o lado otimista do Superman.

Tese da bondade que justificou a criação do personagem nos anos 30 e sua imortalização nas telonas com a atuação de Christopher Reeve, o trabalho de David Corenswet lembra a audiência que esse alienígena, refugiado na Terra depois de perder seu planeta natal, é alguém imbuído da certeza que o mundo pode ser menos pior do que é.
Ele salva esquilos, protege criancinhas e faz de tudo para recuperar o cachorro, que não é dele e nem é tão comportado assim, mas com certeza está assustado. Nas garras de Luthor, aqui capturado com aquela raiva que tira o sono e faz perder os cabelos pelos olhos lacrimosos de Hoult, o filme brinca com as possibilidades que uma adaptação dos quadrinhos tem a seu dispor.

Universos compactos, ex-namoradas fofoqueiras, atuais namoradas com uma queda pelo fotógrafo do jornal e até um clone do Superman estão no arsenal de Lex, um vilão que avança a história e incomoda o herói a todo momento. A Engenheira (María Gabriela de Faría), uma personagem classe D nos gibis, ganha propósito e se integra ao olhar macro de James Gunn, que enche o filme de rostinhos conhecidos mas nunca sufoca a audiência com detalhes terciários.
E se o Clark jornalista faz figuração, o filho de fazendeiros do Kansas é a verdadeira identidade secreta do herói, que busca a presença acolhedora e protetora de Martha (Neva Howell) e Jonathan (Pruitt Taylor Vince). Krypto, modelado com base em Ozu, o cão peralta do diretor, é sem igual e rouba a cena, destroçando os robôs de Luthor, perseguindo as armas do Sr. Incrível e enfim se reunindo com a dona, uma trôpega e rebelde Supergirl (Milly Alcock).

Mas a luz e a esperança não impedem que o roteiro debata autoritarismo e o genocídio de uma nação, no espelho narrativo para os acontecimentos em Gaza. Até a versão fictícia do presidente israelense dá as caras, sendo carregado pelos ares com os gritos da Mulher-Gavião.
Gunn, que enxerga no filme a oportunidade de falar com propriedade sobre assuntos sensíveis, faz deste Superman uma história entre as várias aventuras do herói. Ganchos de Comando das Criaturas, assim como pontes pequeninas para Pacificador e Lanternas, estão ali para compor a imagem – e não como lição de casa para a próxima parada do Universo nos cinemas.

Com cores que dançam à luz solar, a fotografia de Henry Braham banha Metrópolis, a realidade compacta e até a gélida Fortaleza da Solidão com mais do que boas intenções. Em Superman, uma máquina desgastada descansa suas engrenagens para demonstrar a variedade e a criatividade atreladas ao trabalho dos realizadores. Nas cenas pós-créditos, um respiro e uma pequena piadinha sobre mundos reconstruídos tiram a compressão das horas anteriores de ação e emoção.
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