Um defeito de cor foi publicado originalmente em 2006, mas já coleciona méritos para ser considerado clássico no cânone brasileiro. A metaficção de Ana Maria Gonçalves, inspirando-se livremente na vida misteriosa de Luísa Mahin – mãe do poeta e advogado abolicionista Luis Gama, é construída como uma odisseia da infância à velhice de uma protagonista ímpar.
Em formato de carta para um remetente que ainda não conhecemos, a africana Kehinde reconta toda sua vida. Da primeira infância com a irmã gêmea em Daomé, ela presencia os horrores da violência e, sozinha, chega ao Brasil como escravizada.
“Olhando o céu sem estrelas do teto do porão, se não fosse o cheiro que fazia o ar ficar difícil no porto, eu teria gostado de ser embalada pelo mar”.
A autora não poupa o sadismo e a desumanização dos africanos trazidos para o país como mercadoria, embora na narrativa de Kehinde sobre tudo, menos a desistência. Ela é forte, espirituosa e inventiva, transformando qualquer situação numa possibilidade de adaptação.
Isso é verdade para cada um dos lugares que vive, partindo do casarão de uma sinhá malvada, um sinhô abusador e a filha, que acabará tornando-se amiga pela vida inteira, Kehinde ganha o nome brasileiro de Luisa, mas nunca esquece suas raízes, suas crenças e seu propósito.
“Era agosto de mil oitocentos e vinte e dois, e eu já estava me acostumando com a ideia de me casar aos doze anos”.
Um defeito de cor é extenso, embora nunca se mostra cansativo e enfadonho. Ao longo de quase mil páginas, Gonçalves passeia pela Bahia, com a protagonista conhecendo tanta, mas tanta gente, que uma autora menos habilidosa poderia se perder entre nomes, ocupações e relações. Não é o caso.
O livro serve de testemunho para a bondade e a esperteza de Kehinde, com doses cavalares das origens de um país moldado pela violência e pelo sangue. Os anos passam, e os problemas se acumulam, assim como as responsabilidades. Gestações complicadas, cultos aos ancestrais africanos, relacionamentos amorosos nublados pela condição de escravização e a criação de uma família escolhida, para além de todos os elementos que atuaram contra sua vida: é assim que Kehinde atravessa oceanos a fim de encontrar para quem escreve.
“A minha avó e a minha mãe tinham cheiros que nunca mais senti em alguém ou em algum lugar onde elas não estivessem”.
Ana Maria Gonçalves detalha histórias esquecidas e apagadas dos negros brasileiros e africanos, com capítulos inteiros esmiuçando crenças, rituais, cerimônias e as manifestações de fé da população que se viu refém do homem branco. Há, também, reflexos e rimas com a História do Brasil, como a Revolta dos Malês, que coloca Kehinde numa situação sem escapatória simples.
Tamanha riqueza de detalhes e ideias, que Um defeito de cor virou tema do samba-enredo da Portela em 2024. No ano passado, consagrou-se no pódio dos Melhores Livros do Século XXI para a Folha de S.Paulo; também em 2025, Gonçalves tornou-se a primeira mulher negra imortalizada na Academia Brasileira de Letras.
“[…] porque sei que já não tenho mais esse tempo. Já não tenho mais quase tempo algum, a não ser o que já passou e que eu gostaria de te deixar como herança”.
Vinte anos depois de sua publicação original, Um defeito de cor permanece intocável no que tange sua temporalidade, voz autoral e relevância para que os problemas de hoje sejam entendidos pela raiz. É uma leitura que permeia o prazer e a tristeza, que transformou em clássico um conto de muita mágoa e muita alegria de uma garota tão iluminada quanto especial. Kehinde nos acompanha por centenas de páginas, e ao fim do décimo capítulo, faz uma falta e tanto.


Deixe um comentário