UK vs. the World 3 reserva um suspense que recompensa

Com vitória da tailandesa Gawdland, temporada continua a surpreendente e inesperada qualidade da franquia

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O debate em torno da existência dos “vs the World” num cenário que poderia ser formado por edições All Stars de diferentes países é extenso, mas a terceira temporada britânica não tem nada a ver com ele. Um grupo de dez queens, sem alianças óbvias ou favoritas de cara: a receita para um entretenimento servido de bandeja.

Depois de uma estreia curta mas chocante (com as eliminações de Jimbo e Pangina Heals eternizadas no mármore temporal de Drag Race), e de uma segunda temporada cheia de destaques e surpresas, o retorno tardio do UK vs. the World, com intervalo de quase dois anos entre filmagem e exibição, deixou os fãs de cabelo em pé.

Elenco serviu looks inspirados em jornais da TV em promo da temporada (Foto: World of Wonder)

No elenco, três britânicas e outras sete representantes solo de suas franquias, na ausência de uma “cotada” óbvia. A produção colocou tudo em jogo, abrindo margem para a imprevisibilidade que o reality show raramente proporciona. Há ecos, também, dos dilemas iniciais do All Stars 6, quando um cast aleatório acabou protagonizando o apogeu do Drag Race moderno.

A estreia mudou o habitual show de talentos e inseriu um concurso de canções, em homenagem ao Eurovision. Desta vez, RuPaul foi a apresentadora da primeira edição do RuRuVision, agraciada com os vocais de suas dez filhas internacionais. Para a felicidade de todo brasileiro, Fontana, originalmente a vice-campeã da série sueca e brasileira de nascença, chegou para arrasar e arrematou o primeiro broche da season.

Fontana revelou sua identidade como mulher trans num programa sueco, exibido em paralelo à temporada do reality (Foto: World of Wonder)

Protagonista memorável e instantânea da competição, Fontana foi do céu ao inferno em poucos episódios, deixando que sua personalidade cativante e energia aceleradas implantassem em Mama Ru um senso de genuíno maravilhamento. A diva abriu-se em relação à ansiedade crônica com que convive e o gatilho físico de ânsia.

Como tudo em Drag Race acaba somando tempo à tragédia, Fontana conseguiu transformar sua vulnerabilidade em comédia e branding, tornando o balde um símbolo de sua participação e até um coadjuvante no desafio do stand-up, mais tarde na competição. Mas a brasileira não foi a única a captar atenção logo de cara.

O Snatch Game reuniu Unicórnio, Charo, Humpty-Dumpty, o irmão gay de Hitler, Jackée Harry, Cardi B, Lobo Mau, Jessica Alves e Carmen Miranda (Foto: World of Wonder)

Vinda da Tailândia, a eventual campeã Gawdland provou-se uma personagem diferente de qualquer outra que RuPaul julgou. Seja na voz, nos gritos ou nos visuais, a rainha foi a segunda melhor na estreia e logo acumulou os broches dos desafios de Design e do Snatch Game, numa semana em que o formato mudou para o de um concurso de belezas e sua imitação de Cardi B, totalmente enviesada na própria personalidade, conquistou Ru.

Não teve semana que Gawdland passou abaixo do radar, costumeiramente desfilando com potência e performando com desbunde nos mais diversos desafios, desde o Girl Group até o fantástico trailer de filmes mudos. Para nivelar melhor a disputa para as drags que não tem o inglês como língua nativa, a produção flexionou os conceitos padrões do show e serviu a mesma qualidade e criatividade.

O Chippy Tea rendeu tensão no Ateliê: Fontana nunca recebeu das companheiras e Kate Butch optou por “quebrar” a aliança nacional ao cedê-lo à Mariah e não à Sminty (Foto: World of Wonder)

Se ninguém foi eliminada na estreia, a partir da semana seguinte, RuPaul instituiu o Chippy Tea, artifício dado à ganhadora do episódio para ser cedido a uma das integrantes do Bottom 3. Quem melhor defender seu caso (ou formar a aliança mais estratégica) estaria livre do Lip Sync pela Sobrevivência.

Gawdland recebeu o primeiro Chippy Tea, salvando sua irmã asiática Minty Fresh, da primeira temporada de Drag Race Filipinas. No Bottom, as representantes do Canadá e da Alemanha foram para o embate, mas apenas The Only Naomy sobreviveu. Para a tristeza dos fãs de barraco, Melinda Verga concretizou a maldição canadense e saiu como Pork Chop da season.

Sminty Drop não aprendeu a letra de I Heard A Rumor e, na presença da banda Bananarama, foi mandada embora da competição (Foto: World of Wonder)

O que parecia um elenco escalado a partir do simulador online de Drag Race, acabou se provando uma fartura de drama e de momentos inesperados. Na aliança britânica, Sminty Drop (da quarta temporada), Kate Butch (da quinta) e Zahirah Zapanta (da sexta) afrouxaram os laços e deixaram que o destino definisse suas próprias escolhas. Depois de algumas semanas flutuando entre as melhores, Sminty não decorou a letra e foi mandada embora pela mexicana Serena Morena.

Grata adição a competição, a latina que passou batida em sua primeira participação na inauguração do Drag Race México encantou e saiu amada, com a faixa de Miss Simpatia para provar a gentileza. Renomeando o mecanismo de salvação como La Chippy Tea, Serena sobreviveu entre trancos e barrancos, eliminada por sua irmã de continente, Fontana.

Kate Butch venceu o Girl Group e o Stand-Up, quando desfilou um modelito incomum de crochê e conquistou aplausos dos jurados (Foto: World of Wonder)

A diva sueca-brasileira passou por todos os estágios da competição: da vitória na estreia e do topo no design challenge, foi parar no Bottom 2 depois de um Snatch Game paupérrimo na pele de Carmen Miranda. Voltou à posição no desafio dos filmes mudos, quando eliminou Serena. 

Vinda das Filipinas, Minty Fresh não cresceu à altura da competição e se viu como segunda eliminada, logo no Concurso de Belezas em formato do Snatch Game, interpretando um genérico unicórnio. Para o azar da franquia asiática, que viu o florescer de fenômenos como Marina Summers na temporada anterior, Minty passou tímida pelos palcos do Reino Unido.

A inesperada amizade entre Mariah e Zahirah moldou um dos corações do UK vs. the World 3 (Foto: World of Wonder)

Zahirah quebrou recordes com sua sequência de safes, e serviu especialmente para construir a narrativa de Mariah, sua ídola desde os tempos de season 3. As duas protagonizaram uma amizade inesperada que dominou o drama narrativo, culminando na eliminação da britânica e na consagração da americana rumo à Grande Final.

Mariah Balenciaga, sem o Paris de sua participação no All Stars 5, seguiu o caminho de Scarlet Envy e Jujubee ao conseguir seu brilho justamente numa temporada internacional e cheia de queens do mundo todo. Venceu o desafio dos filmes mudos com o pé nas costas, e levou para casa um suspeito badge no Makeover, ao transformar um atleta olímpico em sua filha drag, ao melhor estilo ballroom de sua origem.

Na Grande Final, a Miss Simpatia Serena Morena girou a roleta que decidiu os confrontos pela Coroa (Foto: World of Wonder)

UK vs. the World 3 soube se divertir enquanto fazia TV, com os arquétipos e os arcos de redenção e queda tão caros ao espectador. A alemã The Only Naomy caiu, por azar, na primeira dublagem eliminatória, mas de lá só cresceu. Com looks inspirados, nada óbvios e cheios de requintes, a segunda eliminada do Drag Race Germany surpreendeu com um Snatch Game delicado (o irmão gay de Adolf Hitler), e acumulou elogios. Foi eliminada, novamente pela ausência de sorte, num Makeover contra Kate Butch. Mas, ao exemplo de sua sister de franquia no Global All Stars Tessa Testicle, deu orgulho à nação e provou o valor do casting dessas temporadas, perseguindo figuras distintas daquelas que foram bem em suas tentativas originais.

Kate Butch, a rainha cômica da season 5 britânica, melhorou nos looks (seu calcanhar de Aquiles) e foi vice-campeã da corrida, perdendo para uma efervescente Gawdland. Com o episódio final misturando uma pequena Reunion com a Batalha de Lip Syncs pela Coroa, RuPaul manteve o suspense até o último segundo, antes de anunciar a tailandesa como detentora do título de Queen of the Mother-Tucking World, e a primeira asiática a vencer uma temporada fora do continente.

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