Kate Hudson é uma nepobaby para lá de querida em Hollywood, por mais que sua carreira na indústria não faça valer o título ou o prestígio. 25 anos depois de Quase Famosos, sensação que levou-a ao posto passageiro de favorita ao Oscar, ela retorna ao prêmio da Academia carregando a única lembrança de seu filme.
Song Sung Blue: Uma Sonho a Dois se baseia no documentário de 2008 que acompanha a ascensão de um casal de cantores amadores. Lightning (Hugh Jackman) e Thunder (Hudson) se conhecem por acaso num show de imitações e logo se entrelaçam num romance que une as famílias (cada um tem filhos e um divórcio nas costas) com os lucros musicais.

Ao fundar um duo que interpreta canções de Neil Diamond, o casal ganha fama e realização, apresentando-se em diversos locais para o delírio dos tietes. Mas quem cair desavisado no filme vai estranhar o andamento da direção e do roteiro de Craig Brewer (do remake de Footloose, Meu Nome é Dolemite e Um Príncipe em Nova York 2).
Um acidente rearranja a rotina de Mike e Claire, afundando a esposa numa depressão e isolando o marido no ciclo vicioso do alcoolismo. Em viradas surpreendentes e dignas da ficção barata, a história de vida do casal é embasbacante assim mesmo, o que acaba se provando um prato cheio para Song Sung Blue espremer a emoção e a catarse até a última gota.

Na certeza de que a nostalgia é o néctar para o sucesso, Brewer faz de Jackman o avatar de uma espirituosa reconstrução, ao passo que propicia a Hudson uma escalada de emoções e colapsos. Indicada ao Oscar 2026 de Melhor Atriz, ela canta, sorri, se apaixona, sofre, grita, chora e perde o fôlego, ticando a lista de expressões e trejeitos de uma intérprete tão cara aos votantes da Academia.
Fosse esse um filme lançado na época de Quase Famosos, é provável que Hugh, Craig e cia se juntassem na fanfarra de indicações e vitórias. Mas a Academia, em expansão internacional e geracional, mudou. A indicação de Hudson, porém, veio em detrimento do trabalho de Chase Infiniti, o coração pulsante de Uma Batalha Após a Outra que, após arrecadar menções em todos os precursores, ficou de fora da lista do Oscar.

Em sua estreia no Cinema, Infiniti caiu para que uma veterana tomasse seu lugar. O intervalo de vinte e cinco anos que separa as indicações de Hudson é maior que a vida da jovem atriz, vale destacar. Por Song Sung Blue, Hudson se une ao seleto grupo de mães e filhas indicadas ao prêmio de Melhor Atriz (ao lado de Judy e Liza e das Fernandas). A mamãe Goldie Hawn foi indicada por Private Benjamin, em 1981.
Estatísticas e curiosidades à parte, fica claro que Song Sung Blue foi milimetricamente montado para que seus atores colhessem os louros das cinebiografias musicais, com atenção a detalhes históricos, penteados cafonas e a emulação de uma química que, no documentário de 2008, já alcançava êxitos semelhantes.
Para dar vitalidade ao par de caricatos e extravagantes protagonistas, o elenco de apoio alterna consternação e humor. Ella Anderson é a filha adolescente sedenta por estabilidade, Hudson Hensley é um caçula mais aéreo do que funcional, King Princess surge como a sábia irmã mais velha, e os companheiros de trabalho musicais, papéis de Michael Imperioli, Fisher Stevens, Mustafa Shakir e Jackie Cox, diversificam o compasso familiar.


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