Linda (Rose Byrne) só é vista em planos pequenos, com a câmera grudada ao rosto que descama em cansaço. O mundo ao seu redor é caótico, e a falsa segurança de proximidade atua na primeira das investidas sensíveis de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, filme-bomba sobre maternidade e a desarmonia que nasce junto de um bebê.
A história soterra a protagonista, que precisa cuidar da filha (Delaney Quinn) com um problema estomacal que requer vigilância constante, um colégio especializado e até um tubo digestivo que só funciona com a mãe vertendo líquidos durante a noite. Não é fácil ser Linda, e este é apenas um dos inúmeros problemas e contratempos.

Apenas em seu segundo longa como realizadora, Mary Bronstein escreve e dirige uma odisseia sombria e pecaminosa, muito influenciada pela subversão dos clichês maternos e da força feminina na ficção. Linda, que é uma terapeuta para lá de sobrecarregada, tem as rusgas pessoais com o seu psicólogo, papel de Conan O’Brien e precisa mudar de casa temporariamente depois que uma infiltração arromba o teto de seu apartamento.
Do buraco, sai mais do que esporos do mofo. É olhando para a imensidão de concreto, madeira, argamassa e sujeira que a personagem pondera sobre o futuro e o presente, numa espécie de vórtice temporal que suga sua energia e seu foco. Gravado ao longo de 27 dias, If I Had Legs I’d Kick You demonstra a urgência na linguagem.

No motel onde se hospeda com a filha – sem a companhia do marido (Christian Slater), que está longe por conta do trabalho, Linda não tem sossego com a atendente mesquinha (Ivy Wolk, de Anora) e só encontra “alívio” na presença de um vizinho descolado da realidade, vivido pelo rapper A$AP Rocky no ano que ele ganhou dois filmes muito distintos no Cinema.
Fato é que, sob o comando de Bronstein, o filme coloca a câmera dentro da cabeça de Byrne, uma atriz muito qualificada e pouco louvada. Linda é o veículo perfeito para o tipo de atuação que agrada público geral e público especializado, permitindo que ela estique os músculos cômicos (com os diversos pacientes e seus problemas cartunescos e por vezes catatônicos) e os dramáticos, com tendência ao terror e ao horror da rotina.

Com a filha, precisa manter uma compostura inexistente. Com o terapeuta, deixa que os pensamentos fluam até demais. Com o marido, nas diversas ligações telefônicas interrompidas por buzinas e pedidos da criança, Linda precisa extravasar para não explodir. Mas de nada adianta tanta procrastinação: é chegada a hora do grito esbaforido, numa representação brutal e canibal do que significa pôr alguém no mundo e zelar por essa pessoa, independente da aptidão das próprias faculdades. Um chute não é nada para o que a mulher deveria fazer a fim de se libertar.


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