A médica legista Kay Scarpetta surgiu em 1990, nas páginas de Post-Mortem, romance de Patrícia Cornwell que deu origem a uma longeva coletânea de histórias com a protagonista. Sua popularidade no mercado americano propulsionou uma série de quase-adaptações, com atrizes do calibre de Angelina Jolie e Demi Moore na briga pelo papel. Em 2026, Nicole Kidman encarna a doutora no seriado do Prime Vídeo.
Desenvolvida para a TV por Liz Sarnoff, que tem créditos maciços em Barry, Lost e Deadwood, a produção conta com 8 episódios e um elenco majoritariamente estrelado, com a divisão entre passado e presente propiciando uma gama de performances inspiradas e complementares. Kidman é uma Scarpetta experiente e resoluta, ao passo que sua versão de vinte e oito anos atrás ganha o carisma de Rosy McEwen, a melhor parte da sétima temporada de Black Mirror.

O ponto de tensão que une os acontecimentos de 1998 e os de 2026 é um assassino em série que caça mulheres. O caso foi o primeiro da doutora, e o motivo que a levou ao apogeu da profissão, o que motiva Scarpetta e seu fiel escudeiro, seu cunhado e ex-policial Pete Marino (Bobby Cannavale), a fazerem o possível para manter o segredo do passado.
Não é só na sala de autópsia que a série reserva suas contradições e dramas: afinal, a presença de Dorothy (Jamie Lee Curtis), a irmã festeira e desordenada de Kay, se faz audível e intrusiva. Seja no jeito espalhafatoso que Curtis esconde modular Dot, seja na relação conturbada com a filha Lucy (Ariana DeBose), uma ex-FBI que vive o luto pela esposa da pior maneira possível, a mulher é espaçosa e incomoda.

Gênia da tecnologia e dos computadores, Lucy recriou Janet (Janet Montgomery) por uma ferramenta de Inteligência Artificial, e usa-a como confidente diária. A família discorda da abordagem, mas quando a versão computadorizada da mulher morta começa a aconselhar pontos sensíveis das relações interpessoais das irmãs e de seus maridos, a coisa ganha contornos mais densos.
Kay é casada com o agente Benton Wesley (Simon Baker), uma figura para lá de complexa que antagoniza certa parte da trama. O ator de The Mentalist volta ao alicerce do homem em conflito com seu passado e bate de frente com o lado mais calculista e frio de Kidman. As cenas em que os familiares dividem refeições e brigas são uma das várias qualidades de Scarpetta.

Personagens periféricos do passado e do presente (e às vezes, em suas duas versões temporais) estão ali para azucrinar, confundir e dar alento aos muitos trabalhos da Dra. Kay, uma médica legista que faz as vezes de investigadora, inquisidora e especialista nos mais diversos assuntos. Até numa nave recém destruída ela adentra, disposta a encontrar indícios de um crime espacial que se liga ao mundano assassinato de mulheres da trama principal.
Scarpetta encontra humor no maquiavélico jogo de poder entre a lei, a medicina e a mídia, com a repórter Abby (Sosie Bacon) sendo vital para a resolução do caso dos anos noventa. Na pele dos jovens Benton e Pete, Hunter Parrish e Jake Cannavale (creditado como Jacob Lumet Cannavale) aquecem a tensão e a encruzilhada amorosa com a doutora.
Com agilidade e ganchos suculentos, a temporada termina num rompante de mistério e tensão, quando Kidman ganha a oportunidade de extravasar toda a culpa e a raiva de Kay numa cena digna de ser enquadrada apenas pelos olhos da estrela. Com seus familiares espalhados num mapa perigoso de repulsa e repressão, a protagonista precisará, por sorte (e uma provável renovação do Prime Video), encontrar forças para unir mais do que tecidos mortos nos cadáveres que analisa.


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