Os Strokes já foram a banda que reciclava o passado. Agora parecem reciclar o futuro — ou a ideia de futuro que ficou para trás. Reality Awaits troca a nostalgia do rock pela nostalgia da tecnologia: sem saudade das guitarras, mas de um imaginário dos anos 1980 e 1990 em que computadores, realidade virtual e gráficos em 3D prometiam uma ruptura completa com o presente. E isso chegou: já temos as inteligências artificiais, mas elas são completamente idiotas.
A atitude é bastante fisheriana: olhar para uma época em que somos o futuro, mas perceber que ele veio acompanhado de uma estranha sensação de fracasso. Toda a estética de Reality Awaits nasce dessa contradição.
Os sintetizadores exagerados podem soar ridículos às vezes. Os vocais deformados pelo Auto-Tune também. Mas dá para enxergar graça nessa fronteira entre o kitsch e o camp: o kitsch como excesso que tenta parecer sofisticado e revela sua artificialidade; o camp quando o artista percebe essa artificialidade e decide transformá-la em linguagem.
A bem da verdade, a reputação dos Strokes foi construída pelo ruído — guitarras secas, produção econômica, uma estética quase antiestética (vale a memorável reportagem de Neil Strauss, que tentou acompanhar os Strokes para a Rolling Stone em 2001, pouco depois do lançamento de Is This It, mas acabou transformando a dificuldade de entrevistar a banda em parte da própria história). Agora, o quinteto parece fascinado pelo excesso; não sei o quanto disso é influência do próprio Julian Casablancas e sua experiência com o The Voidz, mas é algo novo e no mínimo interessante.
Dine N’Dash mostra bem essa contradição entre eras. Por baixo da produção carregada existe uma música pop-rock viciante, que lembra algumas coisas do First Impressions of Earth (2006), fase em que a banda começou a testar novos arranjos que ganharam forma no álbum seguinte, Angles (2011). Aos 47 anos, Casablancas ainda é um letrista inquieto, como o jovem revoltado de antes, e isso é bonito, na verdade.
Going to Babble On leva olha para o ambiente cultural que existe ao redor da banda hoje. A faixa tenta emoldurar a sensação de que toda experiência foi reduzida a comentário: explicações, reações e opiniões sobre tudo, o tempo inteiro, em todos os lugares. Mas ela não parece uma denúncia — nada em Reality Awaits soa realmente interessado em apontar culpados (estou pensando na diss para o Fantano).
A música parece mais preocupada em reproduzir esse excesso, em mergulhar nesse fluxo incessante de informação e ruído. “Sometimes it feels like the world is just moving too fast” (“Às vezes parece que o mundo está girando rápido demais”).

O disco também carrega referências que o conectam ao passado recente da banda. São nove faixas e uma arte de capa assinada por Richard Prince — uma imagem de faroeste filtrada pela lógica de apropriação artística do próprio Prince. Na verdade, a obra faz parte da série de “fotos de fotos” do artista, que reutilizou imagens publicitárias antigas, muitas delas de campanhas de cigarro, para questionar a relação entre consumo e reprodução.
Rick Rubin também entra nessa equação, mais uma vez como produtor. Em 2020, ele comandou a produção de The New Abnormal, trabalho que rendeu o reconhecimento tardio aos Strokes com seu primeiro Grammy, quase duas décadas depois de a banda redefinir o indie rock dos anos 2000 e influenciar uma geração inteira de artistas.
Aliás, sim, a provocação a Anthony Fantano em Lonely in the Future: parece menos uma crítica a uma pessoa específica e mais uma piada sobre o funcionamento da crítica musical atual. Não dá para afirmar que não é pessoal, mas isso aumenta a humanidade da coisa toda. Um disco existe como um conjunto de notas, rankings e vídeos. A discussão sobre arte foi incorporada pela lógica das plataformas e muitas vezes se concentra mais nas reações do que na obra. A própria Pitchfork passou a exibir a avaliação dos leitores ao lado das notas dos críticos. Fantano parece só um personagem popular de uma engrenagem maior.
Reality Awaits parece saturar o presente sem imaginar um novo futuro. Seu maior acerto é transformar o excesso digital em estética — talvez o futuro tenha chegado exatamente como foi prometido: imagens brilhantes e máquinas inteligentemente mal projetadas para esconder uma concentração de poder cada vez maior. Uma sensação permanente de que algo ficou faltando.


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