Primetime (2026) é o primeiro longa de ficção do documentarista Lance Oppenheim, conhecido por Some Kind of Heaven (2020) e também com o muito esperado You Can See Everything (2026) que encerra o festival. A produção da A24 teve sua estreia mundial na 83ª edição do Festival de Veneza, antes de chegar aos cinemas dos Estados Unidos e já recebeu três indicações ao Gotham Awards: melhor filme, melhor roteiro adaptado para Ajon Singh e atuação coadjuvante de Skyler Gisondo. Mas isso não sana questão que ele levanta: como criticar uma sociedade que transforma a violência em entretenimento quando a própria crítica também depende dessa reprodução para atrair o público?
O filme acompanha Chris Hansen em 2006, apresentador de To Catch a Predator, programa real que criava armadilhas para pedófilos que acreditavam estar marcando encontros com menores. Robert Pattinson assume o papel principal de Chris, um símbolo de justiça americano da época, enquanto se perde entre os limites entre jornalismo, espetacularização, punitivismo e voyeurismo. O roteiro de Ajon Singh, baseado em um artigo de Luke Dittrich, encontra a premissa de investigar a quebra da moral como produto, só que infelizmente não passa da superfície mais rasa que poderia.

A crítica de John Bleasdale para a Sight and Sound também observa como o abuso infantil acaba reduzido a máquina de entretenimento: “um filme superficial sobre a superficialidade que reduz o abuso infantil a um recurso de roteiro”. Para termos de comparação, American Fiction (2023), de Cord Jefferson, satiriza como o mercado editorial recompensa estereótipo da experiência negra desde que sejam vendáveis enquanto Primetime parece tão fascinado pela estética do espetáculo que não consegue se afastar dela o suficiente para questioná-la.
Agravante a isso, em uma crítica do Los Angeles Times, Matt Brennan ainda descreve como o filme parece tão fascinado por seu protagonista que não consegue reconhecer o quanto ele é menos interessante do que as pessoas e o sistema ao seu redor. Por exemplo, Skyler Gisondo interpreta Dan Plum, um ator em começo de carreira que aceita trabalhar como isca para conseguir espaço, mas logo percebe o preço da fama.

Phoebe Bridgers, que estreia como atriz no papel de Del, é uma das iscas experientes e dá conselhos a Dan. Os dois parecem estagiários descobrindo que o mundo corporativo não é tão glamuroso quanto vemos por fora e dão fôlego a essa descoberta, talvez se tivessem mais tempo de tela e menos nas dúbias vontades do protagonista, a temática poderia ter atingido o ponto de crítica que pareciam buscar.
Não é suficiente apresentar um sistema e esperar que a contradição nele, por si só, seja uma crítica. Mesmo quando o público reconhece a exploração e a hipocrisia em cena, o filme continua espetacularizando o que apresenta. Se a intenção era questionar esse modelo, falta justamente essa distância crítica, da mesma forma que falta o suspense e a força dramática para sustentar nosso interesse.
Tudo pressupõe que basta mostrar o problema que ele é compreendido, quando, na verdade, a tarefa mais difícil seria investigar por que funciona, quem lucra com ele e como o público participa disso. Mesmo sendo visualmente marcante, não estimula em mais nenhum outro aspecto.


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