Em Popstar, Tinashe sabe que não precisa mais suprir expectativas de ninguém

Em seu oitavo álbum, o auge da carreira se revela uma glória íntima quando a liberdade de bastar a si mesma substitui as projeções do mundo

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Tinashe tinha 21 anos quando 2 On tocou pela primeira vez no rádio em 2014, e o mundo achou que a encaixotar como promessa de R&B, colocar ao lado de Usher e Britney Spears e esperar o próximo hit seria a receita perfeita. No entanto, se hoje não conseguimos prever o mercado e a opinião pública com tantos algoritmos, imagine há 12 anos. Frustrada, a gravadora da artista colocou mil entraves no Joyride, seu terceiro álbum de estúdio, que passou três anos sendo refeito, e a fez quase perder até a faixa-título para o namoro de Travis Scott com Rihanna, vendendo menos de 5 mil cópias quando finalmente saiu. 

A separação da RCA, em 2019, foi um livramento. Era, na prática, a primeira vez que alguém parava de tentar transformá-la em outra coisa. Dez anos depois de 2 On, veio Nasty — viral, platina e seu segundo grande hit. Popstar (2026), então, é o primeiro álbum de estúdio pós-estouro, e soa exatamente como o disco de quem não tem mais nada a provar.

Com 16 faixas, Tinashe compartilhou em entrevista ao Apple Music que escreveu mais de 150 músicas durante a produção de Popstar, mas não menciona quantas seriam interludes (Foto: Sydney Jackson)

Antes do lançamento, Tinashe pediu no X que o público ouvisse tudo em ordem, ainda que isso seja um pouco triste de precisar ser verbalizado, faz sentido. Reunir os cinco singles logo na primeira metade foi inteligente, suas transições e sequência são a episteme de uma pista de dança. O esquenta, o ápice e a ressaca. Sunglasses, produzida pela Arca, abre o álbum empilhando camadas de produção experimental sem ser pretensioso. Melatonin, melhor bop e mais agitada do álbum vem poucas faixas depois, e é um desbunde no que diz respeito a fritação.

É no meio do disco que Popstar revela seu lado mais interessante e inesperado para aqueles que estavam na mesma frequência dos singles. Empty Stadium, Flashbacks e Overdramatic formam um bloco melancólico que troca o front pela ida melancólica e pensativa ao banheiro. Falam sobre a adrenalina e o vazio de estar no palco depois que a plateia já foi embora, em letras que tratam a fama como sacrifício e não como festa, e sobretudo funciona mais por ser intencional e confessional que só boas.

Ao fim desse bloco, I’d Rather Be Alone — a melhor do álbum e single surpresa — nos faz chegar ao centro emocional do disco, um antídoto de término em que trap e R&B alternativo se cruzam por baixo de um verso seco provando que depois de chegar ao ponto mais baixo, só podemos subir. E nada aqui é gradativo, vamos da depressão à mania com minúsculas transições que funcionam milimetricamente, quadruplicando as batidas por minuto e dando espaço para os próximos singles eufóricos, Crash Out e Pillow Fight..

Na sequência vem Nobody Wanna Dance Anymore, a preferida do disco para boa parte do público. E que precisa virar single o quanto antes, ainda mais com créditos de composição para Lady Gaga por uma interpolação de Chillin, parceria de Wale com Gaga de 2010 reaproveitando o verso “lookin’ at, lookin’ at, lookin’ at me“. É um material de uma música atemporal que parece ter sempre existido e que soaria perfeita em um Guitar Hero, por exemplo.

Nessa e em todas as outras faixas, já não nos cabe rotular a qual gênero pertence, mas não há como negar que só uma popstar realmente poderia fazê-las. Aos fãs, inclusive, talvez as composições soem um pouco repetidas, de Aquarius à Songs for You, o disco que mais definiu quem ela era enquanto artista independente, sua carreira e todas as expectativas que a impõem são tópicos recorrentes. Mas não tira o mérito de serem boas, confessionais e tocarem nossos corações, felizmente conseguindo cada vez mais números.

No X, Pinkpantheress disse que Crash Out é a música do ano (Foto: The Fader)

Essa pode, inclusive, ser sua maior semana de vendas na Billboard 200, com uma projeção de 20.000 vendas — aos que não acompanham muito, essa contagem inclui reproduções em streaming, compras digitais e físicas que, se confirmado, vai superar as 18.821 cópias de Aquarius, seu maior resultado em semana de estreia até hoje. Além de já ter conquistado média 87 no Metacritic e nota 9.0 (!) na Pitchfork sendo nomeado como o melhor álbum pop do ano até agora.

A última parte do álbum, com Twentyfive Eight, Brainrot e Cloud 9, encerra em um tom mais leve até chegar em Heavy Weight, que carrega literalmente o peso de uma expectativa que a indústria, os fãs e a própria trajetória colocaram nela desde tão nova. Mesmo escolhendo guardar esse peso pro final, ela já provou, faixa a faixa, que sustenta tudo sem precisar de rótulos ou aprovações para continuar sendo quem quiser.

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