Elvira tem os dentes tortos, um calombo no nariz e carece de cílios protuberantes ou cabelos sedosos. Não há notícia ruim, pois na Idade Média naturalista de A Meia-Irmã Feia, onde a protagonista vive, ela poderá corrigir cada imperfeição e, com sorte, ganhar o coração do príncipe no final do conto de fadas.
Numa releitura imunda e escatológica da história de Cinderela e suas irmãs postiças, a diretora Emilie Blichfeldt estreia no Cinema com um roteiro para lá de corajoso e um time de atrizes dispostas a sujar as canelas de lama, fezes e sangue. Sucesso em Sundance e em Berlim, o filme apareceu na pré-lista do Oscar 2026 de Melhor Maquiagem.

Num mundo pós-A Substância, o terror corporal que venceu a categoria no ano anterior, A Meia-Irmã Feia fala de tradições de beleza e sofrimento feminino com bastante proficiência e fome. A câmera acompanha cada corte, incisão ou batida de martelo, deixando que a atriz Lea Myren grite em nome da liberdade.
Sua contra-parte é Agnes (Thea Sofie Loch Næss), a bela e loura filha do dono do castelo, marido recém-casado e logo falecido, da mãe de Elvira e Alma, duas moças desfavorecidas pelos deuses da beleza. Para todo o esforço de construir um rosto ideal para as filhas, Agnes já nasceu cristalina.

Mas é justamente na brecha entre a perfeição que a “princesa” assume o posto de gata borralheira: na calada da noite, no celeiro da fazenda, a jovem se deita com o cavalariço e é descoberta pela protagonista. Filmando o sexo como o encontro desconfortável entre partes do corpo pouco exploradas, Blichfeldt se aproxima das genitálias com a mesma curiosidade que o faz aos demais detalhes da vida no campo europeu.
A Meia-Irmã Feia tem planos-detalhe na entrada traseira da Cinderela e no pênis do vassalo qualquer, ilustrando o truque ideal para que a princesa mantivesse uma virgindade angelical. Moeda de troca que será útil no baile do Príncipe Julian (Isac Calmroth), poeta pelo qual Elvira morre de paixão mas que se comporta como um ogro na companhia dos amigos.

Urinando na árvore no intervalo entre a caçada, o postulante ao trono se incomoda com as feridas que ostenta no órgão reprodutor, sendo recebido com os risos de escárnio que qualquer adolescente, independente do século que resida, preenche a cabeça dia e noite. Elvira não se assusta, tampouco se intimida, continuando sua série de decisões precipitadas embora fortuitas, no caminho do final feliz.
Na academia de dança onde treina para impressionar a realeza, a solução para o sobrepeso é simples, por mais que a irmã mais nova, Alma (Flo Fagerli), refute a ideia e abomine o ato de comer um ovo de tênia. O parasita intestinal, conhecido popularmente como solitária, irá se alimentar de tudo que Elvira entornar no estômago, mantendo-a magra e faminta.

Combinação ideal quando falamos dos ideais estéticos e o papel comercial que o casamento desempenhava na época: a mãe, papel de Ane Dahl Torp, passa por tribulações próprias, adequadas à idade e a classe social, e incentiva os sacrifícios da garota. Na ausência da fada madrinha digna da Disney, Agnes ganha ajuda de uma ente querida – e o labor costureiro de animais tão pecaminosos quanto a tênia.
Sem o glamour e o pó de pirlimpimpim, A Meia-Irmã Feia aposta tudo no gráfico desenrolar de suas ações, partindo do cirurgião Dr. Esthétique (Adam Lundgren), versado em cirurgias plásticas dos tipos mais invasivos, e chegando ao fatídico momento do sapatinho de cristal que teima em não caber nos pés de Elvira. A solução, como tudo no filme da diretora norueguesa, é partir para o mais rápido e eficaz resultado. Prepare o estômago e evite juntar a hora da janta à sessão de cinema.


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