O Intruso é o título perfeito para todos nós

Premiado em Sundance, o longa de Louis Paxton integrou a Competição Novos Diretores da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

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Em uma ilha remota da Escócia, Isla (Gayle Rankin) e Sandy (Grant O’Rourke) vivem praticamente como os últimos habitantes de um mundo que já não existe mais. Caçam gaivotas, se vestem como elas e seguem as histórias ensinadas pelo pai, que passou a vida os convencendo de que o continente era perigoso. O intruso, Daniel (Domhnall Gleeson), é um funcionário do governo que precisa despejá-los pessoalmente. Em seu primeiro longa-metragem, Paxton apresenta o folclore escocês como o ponto de partida para uma comédia encantadora e, na verdade, muito profunda.

Isla é quem continua com as tradições e cuida do irmão, que tem um comportamento mais infantil e depende bastante dela. Sandy é curioso, carente e demonstra entusiasmo com qualquer novidade. Daniel também não é exatamente um exemplo de integração social. Solitário, desajeitado e pouco habilidoso nas relações pessoais, ele não se encaixa nem no nosso mundo, mas precisa saber vendê-lo para que os irmãos deixem a ilha depois de conquistar sua confiança e amizade em um começo turbulento em que foi perseguido, desacordado, amarrado e ameaçado de morte.

Todo o filme levou apenas 28 dias para ser gravado (Foto: Universal Pictures)

A boa convivência deles, entretanto, começa a mexer em questões mais delicadas que engraçadas em alguns momentos, com a vinda de mais agentes para o serviço. Depois da morte da mãe, o pai dos irmãos passou a alimentar a desconfiança dos filhos em relação ao continente, criando histórias sobre os perigos de abandonar a ilha e quanto a criaturas que habitavam o mar. É nesse imaginário que entram os Fin Men, seres do folclore escocês que atraem pessoas para as águas e que Isla vê com frequência a tentando a entrar no mar. Algo que para nós seria o equivalente a sereias.

Daniel começa a questionar essas histórias, e ao mesmo tempo Isla também questiona a vida que ele apresenta a ela. E não há como não nos colocarmos no lugar dela, o filme constrói uma realidade difícil de dissociar do que já conhecemos. E essa apresentação de Daniel quase funciona, só não poderia permitir qualquer vacilo, sendo frágil o suficiente para deixar de ser uma opção para que ela se mude. 

A perspectiva que o diretor propõe é muito humana e foge à simplicidade do maniqueísmo ao não transformar a ilha em um lugar ruim para justificar a partida deles. Enquanto ouvimos suas histórias ao redor da lareira, acompanhamos com algumas animações em preto e branco de Selina Wagner, aproximando o filme das ilustrações de livros infantis e das antigas fábulas que dão mais uma bela dimensão ao que já era bonito e que moldaram todo o mundo que os irmãos conheciam.

Há também um parentesco interessante entre O Intruso e Os Banshees de Inisherin (2022), de Martin McDonagh, que também transforma uma pequena comunidade insular em palco de conflitos profundamente ligados à solidão e à necessidade de companhia. Os dois filmes encontram humor em personagens que levam suas próprias convicções às últimas consequências, embora McDonagh conduza essa dinâmica por um caminho mais amargo e destrutivo, enquanto Paxton parece interessado na esperança de dias melhores. 

Em entrevista ao Eye for Film, o diretor explicou que queria que as situações fossem interpretadas a partir da realidade dos próprios personagens, sem intervenções para indicar onde estava o humor. Todas as discussões entre os irmãos, as tentativas de Daniel de se enturmar e os encontros com as criaturas do mar são tratados com a mesma convicção de que realmente aquilo é importante para eles e é tudo que conhecem, respeitar isso, ainda que de forma fictícia traz muita ternura e acalento ao pensar neles.

O Intruso faz rir de gaivotas, criaturas marinhas, celulares tratados como magia, histórias épicas de Tolkien reimaginadas e burocratas que carregam garrafas de urina para uma missão de despejo. E ainda assim não perde de vista o que existe de mais reconhecível em nós. Há uma crítica a uma sociedade que mede as pessoas pela produtividade, pela capacidade de seguir regras e pela facilidade de se encaixar, como se não houvesse espaço para quem escolhe outro caminho. Entendemos então por que eles não aceitariam facilmente trocar o lugar que amam e conhecem há tanto tempo pela vida complicada que vivemos.

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