Categorizar I Love LA como apenas o “momento Lena Dunham” de Rachel Sennott seria diminuir os méritos e os objetivos da comédia da jovem atriz. Os moldes de Girls estão ali, na relação complicada e complexa de um grupo plural de amigos na vida adulta da cidade grande. Mas há mais do que uma mera emulação de clichês e mecanismos.
Troca-se a Nova Iorque de Sex and the City e de Girls por uma ensolarada Los Angeles, lar das grandes produções de cinema e do alto escalão social, de atrizes e cantoras a estilistas e empresárias. Maia, a personagem de Sennott, está em ascensão no mercado e começa a temporada temendo o retorno da antiga melhor amiga, que ficou na Grande Maçã quando o plano era, sempre, fixar-se na Califórnia.

Mas quando Talulah (Odessa A’Zion, de Marty Supreme) aparece de surpresa no aniversário de Maia, as expectativas e os planos de vida são reescritos. Não demora para que as duas façam as pazes e passem a trabalhar em conjunto: vender a marca da it girl para todos que estiverem dispostos a comprar. Há no roteiro de I Love LA, e especialmente na maneira como Sennott define suas personagens, a acidez da geração Z em contraste ao mundo de vazios que ela ocupa.
Alani (True Whitaker) é uma nepobaby desinteressada em um assunto específico, navegando os vinte e tantos anos mais como passageira do que como motorista. Completando o quarteto, o estilista Charlie (Jordan Firstman) ganha as tramas mais estapafúrdias ao adentrar o mundo das celebridades cristãs e a ira de uma cantora pop com quem trabalhou. É tudo muito passageiro na série, que encontra nos diálogos sua melhor ferramenta de identificação e comédia.

São piadas metralhadas, e Sennott, cria do humor pós-irônico de Amy Poehler e cia no SNL, não tenta deixar a audiência confortável ou a par de todos os assuntos. São cortes rápidos que revelam o caráter de quem fala e, melhor ainda, a resposta de quem ouve. Charlie é hilário e se apoia no carisma natural (e às vezes repelente) de Firstman, integrando o cosmos feminino com facilidade. As personagens, em sua maioria mímicas das personas que as atrizes demonstram em entrevistas e tapetes vermelhos, ganham profundidade com o passar dos acontecimentos e dos curtos oito episódios.
Charlie não chora no funeral de seu amigo-relâmpago, o cantor Lukas (Froy Gutierrez) que serve de paródia do sucesso de Benson Boone e outros queridinhos da América que escondem-se atrás de músicas vazias, mas virais. Mas, quando ele assiste a sextape que gravou anos atrás com um ex-namorado com quem esbarrou no funeral do cantor, dentro de uma loja de câmeras, nós entendemos por completo seu crescimento e evolução.

Mesmo caso de Talulah, uma garota “vazia” que só encontra propósito ao encarar a fazenda de cliques de uma influencer que decorou a gramática das redes sociais. Inspirando-se no que Dunham transformou em manual para as comédias de autor, I Love LA também pesca algumas referências de Atlanta, o surreal experimento social de Donald Glover que divertia em paralelo ao estranhamento, e também de Insecure, na mesma veia tragicômica de Issa Rae na terra das estrelas.
O quarto episódio, Upstairses, acontece todo numa festa bizarra na casa de Elijah Wood, onde as garotas são proibidas de subir as escadas, e não só porque “os lances do Diddy aconteceram assim”. A quebra de expectativas é compartilhada por todos os envolvidos, seja o ménage nada sexual entre Alani, Maia e o ator conhecido por viver Frodo, seja pela quebra de expectativas de Talulah com os mecanismos do TikTok.

O mais normal dos indivíduos é Dylan, namorado de Maia a quem Josh Hutcherson dedica calma e euforia em medidas complementares. Professor do Ensino Fundamental, ele duela com o estilo de vida festeiro dela e explode apenas quando os comportamentos da companheira ultrapassam limites do aceitável em Game Night. Galã e mocinho das sagas juvenis, o ator ganha uma renascença na pele de um sedutor (e por vezes bobão) namorado perfeito.
Ao final do episódio 8, que troca o sol pelos arranha-céus de Nova York, Sennott guia as personagens por um labirinto de decisões grandes demais para serem retratadas. Trocamos o visagismo melancólico de Girls, com os outfits gastos, os penteados ensebados e os empregos enfadonhos, pela miragem de glamour e sofisticação de Maia e seus amigos, tão cheios de si que não percebem a rotina preenchida por nada e rumo a lugar nenhum.


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