Turrona, geniosa, cabeça-dura e infinitamente criativa são apenas algumas palavras que definem a compositora Diane Warren, a mulher com mais indicações ao Oscar sem vencer. Relentless, documentário narcísico que segue sua vida entre partituras, premiações e devaneios, pinta uma figura multidimensional e por vezes desconfortável de conviver.
Pelo filme, Warren chega à décima sétima indicação da Academia, todas pelo trabalho em Canções Originais. A bola da vez é Dear Me, na voz de Kesha, que serve de carta ao passado e de lembrança da perseverança. Afinal, a infância de Diane não foi fácil.

Com depoimento de amigas da época e gravações antigas da família, Diane revela o lado frio da mãe, e suas incessantes dúvidas sobre o futuro artístico da filha. Esse fantasma a persegue e guia sua carreira, numa espécie de cabo de ferro entre o laço materno e o ódio que brotou das cobranças.
No campo romântico, os amigos e colaboradores próximos tiram sarro da situação: “como uma pessoa que nunca se relacionou amorosamente com alguém pode escrever baladas tão apaixonadas?”. Relentless visita o hall da Warren com inserções das canções que compôs e que, na voz de uma série de artistas, eternizaram-se na cultura.

São sucessos cantados por Cher, Jennifer Hudson, Lady Gaga e Céline Dion, observados com fascínio e adulação pela própria compositora, uma pessoa de temperamento particular e nada chegada ao contato físico ou a dar satisfações. Quando volta à casa que cresceu, vai abrindo portas e gravando mobílias, sem se deixar acuada pelos moradores atuais.
Na contramão de um retrato higienizado da estrela abaixo e distante dos holofotes, Relentless ganha na direção de Bess Kargman, acostumada a comandar registros esportivos e de campeonatos, uma veia de autoridade e de preservação do habitante angelino como alguém desligado do mundo real e bêbado pela fama e pelo glamour da terra das estrelas.

Com recortes de momentos de bastidores nas premiações, a exemplo do Oscar 2022, o filme não retoca as arestas brutas de Diane e mostra o descontentamento de perder, de novo, o prêmio. Quando o anúncio de que Billie Eilish era a campeã, Warren fica de queixo caído, pasma por perder justamente no aniversário póstumo do pai, o único familiar que a apoiou no sonho de trabalhar com Música.
Pois até mandada para um centro de detenção juvenil Diane foi, a pedido da mãe, aterrorizada ao encontrar maconha na mochila da garota. As cicatrizes de uma criação destoante e apática permanecem na mulher como uma armadura impossível de ser retirada ou adaptada. Existe rancor, esperança vã e até uma ponta de vingança pelo patamar alcançado.

Warren foi reconhecida com um Oscar Honorário em 2022, e dedicou o discurso à mãe, num tom de adoração e deboche, características básicas de sua pessoa. Mas este asterisco da Academia de Cinema para com ela não foi o suficiente para apagar o fogo e a vontade de ganhar um careca dourado para valer. Relentless segue assim, acompanhando, ombro a ombro, uma corrida sem linha de chegada à vista, onde Warren pena para morder a medalha, verificar a validade do metal e, quem sabe, aposentar a caneta e as fitas cassete.


Deixe um comentário