Agnes (Jessie Buckley) precisa estar em meio a árvores e folhas para respirar bem; que a natureza cerque-a física e mentalmente. Portanto, quando é obrigada a parir o filho enclausurada na casa da sogra, ela percebe que a criança nascida carregará para sempre uma mácula. Asterisco que serve primeiro como agouro e depois como sina. Este é Hamnet, o filho de Shakespeare morto na primeira infância – e objeto de análise da diretora Chloé Zhao.
Vencedora do Oscar por Nomadland, a chinesa escreve o roteiro ao lado da irlandesa Maggie O’Farrell, responsável pelo livro que serve de base à trama. Zhao pincela características de seu Cinema intimista e naturalista e mescla as influências literárias da autora, que trata de uma fina gama de documentos históricos para imaginar o luto da família do Bardo.

William (Paul Mescal) é um homem perturbado pela violência paterna e pela solidão, e enxerga em Agnes uma parada em direção à felicidade. Longe do casebre onde engravidou-a e deixou-a para trás com um trio de crianças para perseguir o sonho artístico na metrópole, Shakespeare é retratado como um sonhador incapaz de saciar a inimaginável sede de compreensão.
Entre Buckley e Mescal, ferozes na mescla de emoções que surge do amor proibitivo e passa para um cansaço muito particular da feminilidade materna, a dupla ganha amparo de Emily Watson (indicada ao BAFTA), em cenas dosadas de melancolia e zelo, e, mais adiante, pelos jovens intérpretes que dão vida, fôlego e transparência à prole.

Jacobi Jupe assume o papel-título num desempenho de partir o coração, em especial na sinergia com Olivia Lynes, vivendo sua gêmea Judith, e com a primogênita Susanna (Bodhi Rae Breathnach). Tamanha entrega faz de Jupe o destaque absoluto ao lado de Buckley, uma atriz jovem de idade mas experiente na arte de manipular os olhos, a voz e a expressão corporal. Quando Zhao dedica-se a impressionar a câmera de Łukasz Żal com o poderio cru da irlandesa, Hamnet faz do silêncio um som ensurdecedor.
Pois, como é do feitio da cineasta que trouxe calmaria ao Universo da Marvel, o filme calcula momentos de espera e contemplação. Na trilha sonora, Max Richter flutua entre o divino e o mundano para aterrar Agnes na pior das situações e dos espirais; daqueles que nem beliscando-se dentro do pesadelo é possível escapar.

Pela candura de Jupe, o destino de Hamnet, tão caro e tão devoto à irmã, queima em labaredas. Se, no livro original, Maggie O’Farrell assumia uma narrativa efêmera e passageira, quando as cenas são transpostas para as telas, a troca que define a vida de Shakespeare e de Agnes é assistida com reação de tristeza absoluta.
Alguns vão caracterizar a assinatura de Zhao como melosa ou gratuita, num filme dramático que assume os tons de luto e choro desmedido que faziam sucesso quando a Miramax comandava a temporada de premiações. Ledo engano, considerando a maneira característica e controlada que a diretora verte os gritos de Agnes, sejam eles literais, sejam eles figurados, no interior em carne viva que a atriz rasga em cena.

Pela maestria e controle, Zhao tornou-se apenas a segunda cineasta a receber múltiplas indicações ao Oscar de Melhor Direção, atrás de Jane Campion. Hamnet acumulou oito menções da Academia: Melhor Filme, inclusive, é creditado ao time de produtores que contam com o aval e a mentoria de Sam Mendes e Steven Spielberg.
Nina Gold está na lista de Melhor Escalação de Elenco, categoria que marca sua estreia no Oscar e reconhece os profissionais que compõem, entre figurantes e atores coadjuvantes, o time que dá vida ao desejo da diretora. Veterana de Hollywood, Gold selecionou uma dupla perfeita para rimar Hamnet com Hamlet nos irmãos Jacobi e Noah Jupe. O mais velho, que só aparece na fantástica conclusão teatral, transmite o luto e as dores da família, numa performance tão eficaz quanto desoladora.

Ademais, foram reconhecidos os trabalhos de Max Richter na Trilha Sonora, de Malgosia Turzanska nos Figurinos, de Fiona Crombie e Alice Felton no Design de Produção, e de Zhao em dose dupla (Direção e Roteiro Adaptado, ao lado de Maggie O’Farrell). Apesar do esnobe de Paul Mescal, lembrado no Globo de Ouro, no Critics Choice, no Actor e no BAFTA, Jessie Buckley foi a única atuação reconhecida nas indicações.
Favorita ao prêmio de Melhor Atriz depois de vencer o Critics e o Globo de Ouro, a irlandesa é veterana no Oscar, já reconhecida pelo trabalho tímido em A Filha Perdida. Desta vez, porém, ela é o rosto de seu filme e, dentre tantas escolhas que poderiam facilitar o trabalho de uma atriz em busca de louros e troféus, Buckley sempre opta pela introspecção e pela negação do escândalo, provando que a dor daquela magnitude não pode ser espelhada ou imitada de forma vaga.


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