Como Super Xuxa Contra Baixo Astral foi digitalizado para a televisão

Lançado nos anos 1980, o longa se destaca pelo tom ousado e por explicitar críticas à sociedade, articulando mensagens provocativas que dialogam com o contexto da época

min de leitura

Antes de estrelar seu próprio longa, Xuxa já havia participado de produções ao lado de Os Trapalhões e integrado o elenco do controverso Amor, Estranho Amor, de Walter Hugo Khouri. No entanto, foi apenas em 1988 que assumiu o protagonismo em um filme voltado ao público infantil.

Leia mais: Como Super Xuxa Contra Baixo Astral foi digitalizado para a televisão

Dirigido por Anna Penido e David Sonnenschein, Super Xuxa Contra Baixo Astral combina fantasia, aventura e elementos de terror ao acompanhar uma heroína determinada a enfrentar as forças negativas lideradas pelo vilão Baixo Astral, interpretado por Guilherme Karan.

Na época de seu lançamento, o longa atraiu mais de 2,8 milhões de espectadores, consolidando-se como a terceira maior bilheteria nacional daquele ano. Apesar do sucesso, ainda assim, o paradeiro de parte dos rolos originais permanece incerto ao longo das décadas.

Fã da obra desde a infância, o cineasta Diego Alexandre (Uma Fada Veio me Visitar) iniciou uma busca pelo filme ao descobrir que ele era considerado uma mídia perdida. A procura envolveu contatos com profissionais do meio audiovisual com quem já havia trabalhado anteriormente.

Diego Alexandre já esteve envolvido na produção de Uma Fada Veio Me Visitar, que marcou o retorno de Xuxa às telonas após 14 anos (Foto: Robert Duarte)

O desfecho, no entanto, ocorreu de maneira inesperada: um colecionador, sem conhecimento dessa busca, entrou em contato oferecendo justamente uma cópia do longa. O material estava no Rio Grande do Norte e foi posteriormente enviado a partir de São Paulo.

Com o filme em mãos, Diego assistiu à obra e deu início à etapa de avaliação técnica, marcando o começo do processo de recuperação.

A digitalização consistiu no escaneamento da película, convertendo o conteúdo analógico para o formato digital. Já a remasterização concentrou-se no tratamento de cor e som, aprimorando a qualidade geral da imagem e do áudio.

Parte do conteúdo passou ainda por um processo de restauração, ou seja, por uma etapa mais complexa, que envolve a correção de imperfeições como manchas, riscos e fungos. No caso do filme, essa intervenção foi aplicada de forma pontual, especialmente no primeiro rolo, devido a limitações orçamentárias.

Algumas cópias utilizadas apresentavam sinais avançados de desgaste, incluindo desbotamento, arranhões e início do processo de avinagramento. Além disso, foram identificadas perdas de fotogramas, o que provocava pequenos saltos perceptíveis durante a exibição.

Com orçamento de US$ 1,5 milhão, o filme apostou em uma produção ambiciosa para os padrões da época (Foto: Xicão Jones)

Para contornar essas falhas, foi necessário recorrer a outras cópias, incluindo materiais de acervos como a Cinemateca do MAM. A combinação dessas fontes permitiu recompor trechos ausentes e alcançar uma versão mais completa do longa, mesmo diante da ausência do negativo original em algumas partes.

Apesar das intervenções técnicas, não houve alterações na estrutura narrativa. As correções realizadas foram pontuais, como ajustes de enquadramento em determinados trechos, necessários devido às diferenças entre o formato original e as telas atuais em padrão 16:9.

Comparação entre as versões exibidas anteriormente na televisão (à esquerda) e a versão digitalizada (à direita)

Durante o processo, surgiram descobertas interessantes. Uma delas foi a identificação de trechos de áudio “inéditos” em uma cena-chave do confronto entre Xuxa e o vilão, cortadas nas versões exibidas anteriormente.

A digitalização em alta definição também revelou detalhes antes imperceptíveis. Elementos de figurino e cenografia ganharam destaque, como o brilho do arco-íris na roupa da protagonista. Aspectos técnicos, como o acabamento de materiais, lentes de contato do antagonista e até soluções de efeitos especiais (incluindo fios de nylon) tornaram-se visíveis.

Mesmo esses elementos considerados “imperfeições” foram mantidos. A decisão foi preservar a integridade estética e histórica da obra, evitando intervenções que descaracterizassem o filme.

A crítica especializada da época recebeu o filme com ressalvas, apontando o excesso de inserções publicitárias na abertura e as mensagens de autoconhecimento como pontos questionáveis (Foto: Divulgação/Dreamvision Film)

Outro achado importante diz respeito aos créditos de direção. Por restrições da Embrafilme à época, o nome de David Sonnenschein não foi oficialmente exibido nos cartazes de divulgação. Com a nova versão em alta resolução, foi possível identificar vestígios dessa remoção, um borrão sob o nome de Anna Penido indica a supressão do crédito original.

Para o cineasta, mais do que um resgate técnico, o projeto levanta uma discussão sobre a preservação do cinema popular brasileiro. Produções estreladas por Xuxa, assim como filmes de Amácio Mazzaropi e do grupo Os Trapalhões, foram responsáveis por grandes bilheterias, mas frequentemente marginalizadas pela crítica.

Ainda assim, essas obras desempenharam papel fundamental na formação de público e no fortalecimento da indústria cinematográfica nacional.

O desempenho da nova versão do longa também influencia diretamente a possibilidade de recuperação de outros títulos, como Lua de Cristal. Segundo Diego Alexandre, a continuidade desses projetos depende da recepção do público e do retorno financeiro das exibições. Ele enfatiza que práticas como a pirataria podem comprometer a continuidade dessas iniciativas, dificultando investimentos futuros.

Durante o especial de 30 anos do filme, a diretora Anna Penido afirmou que pode ter se inspirado em Labirinto – A Magia do Tempo, lançado dois anos antes (Foto: Divulgação/Canal Brasil)

O cineasta destaca ainda o papel do Canal Brasil nesse movimento de resgate, ao investir na curadoria e recuperação de obras nacionais, especialmente aquelas ligadas ao cinema popular, historicamente negligenciado.

A recuperação de Super Xuxa Contra Baixo Astral não é um caso isolado. Nos últimos anos, tem crescido o interesse pela preservação do cinema brasileiro, especialmente de obras que permaneceram fora de circulação por longos períodos. Movimento semelhante vem sendo observado em produções como Iracema – Uma Transa Amazônica (1974) e Onda Nova (1983), que também passaram por processos de remasterização e reexibição.

Iniciativas de digitalização e remasterização funcionam não apenas como ferramentas técnicas, mas como mecanismos de revalorização simbólica. Ao recuperar a qualidade original dessas produções, abre-se espaço para novas leituras estéticas e históricas, ampliando o reconhecimento de sua relevância.

Confira a chamada especial da exibição do filme no Canal Brasil:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *