Com reconto de Cinderela, 4ª temporada de Bridgerton amplia horizontes 

A temporada de Benedict entende o papel de um bom coadjuvante

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Chegando na quarta temporada, Bridgerton entende que repetir histórias de amor não é o caminho mais ideal para manter-se relevante e irresistível. Portanto, o enlace entre Benedict (Luke Thompson) e Sophie (Yerin Ha) busca inspiração no conto da Cinderela para manter o mistério e o sabor da paixão inéditos.

Mas não é apenas na narrativa da Gata Borralheira, ou melhor, Dama de Prata, que a temporada se mantém refém. Numa decisão inesperada, a criação de Chris Van Dusen faz da solidão um tema latente e vital para o andamento da história. Solidão quando, em uma grande família, os irmãos vão deixando a residência com seu amor eterno e abandonando os mais novos.

Após um temporal ,o casal se hospeda em Meu Chalé, residência nada modesta do segundo filho Bridgerton (Foto: Netflix)

Se Eloise (Claudia Jessie) fincou a bandeja na solteirice e no papel de titia, a presença cada vez mais madura da irmã Hyacinth (Florence Hunt) desperta na garota uma ótica até então inédita quando o assunto é o matrimônio. Recém chegado da escola no exterior, Gregory (Will Tilston) também molha os pés na lagoa que representa o futuro no mercado casamenteiro. Bridgerton brinca com as possibilidades ao utilizar 360, de Charli xcx, como trilha sonora do recital para os adolescentes, onde os passos de dança são turvos e os hormônios da idade borbulham de dentro para fora.

Nas perspicazes decisões criativas na trilha, a temporada também reimagina canções de Billie Eilish e Camilla Cabelo nos momentos de maior intimidade de Sophie e Benedict, um casal que queima em chama lenta ao longo dos dois volumes, lançados em janeiro e fevereiro de 2026. São muitos desencontros, beijos proibidos e convenções sociais jogadas pela janela no florescer de um casamento que não é possível pelas normas do reinado de Charlotte (Golda Rosheuvel).

Na teia de relações da Rainha e suas companheiras e súditas, o criado Brimsley, papel de Hugh Sachs, tenta apaziguar o clima (Foto: Netflix)

Ele, o segundo filho de uma família nobre. Ela, criada de uma mulher vil, Araminta Gun (Katie Leung, a Cho de Harry Potter). O sapato de cristal é substituído por uma luva prateada que atormenta o devasso protagonista pela temporada inteira, respingando os próprios problemas na rotina de Violet (Ruth Gemmell), a mãe coruja que procura uma saída do ninho.

Por mais que apareçam com menos destaque, Colin (Luke Newton) e Penélope (Nicola Coughlan) permanecem fiéis ao núcleo de Bridgerton, passeando entre encontros fraternais e a caneta, mais pesada e pesarosa do que nunca, da Lady Whistledown, uma situação que pressiona a autora a escolher entre o labor e o prazer.

O despertar lésbico de Francesa é tratado com paciência e espaço para que a jovem viúva não atropele suas emoções (Foto: Netflix)

Francesca (Hannah Dodd), de volta da viagem à Escócia natal de John (Victor Alli), mantém a postura de princesa enquanto pondera sobre questões íntimas demais para que a mãe Bridgerton responda com objetividade. A série ilumina o sexo pelas lentes da mulher, numa discussão franca e aberta sobre o orgasmo e a satisfação que lhes foram silenciadas desde sempre. Penélope, tão a frente de seu tempo, esclarece a mente da cunhada. Mais adiante, a mesma Francesa enfrenta o maior desafio de sua vida adulta, perdendo o porto seguro e prometendo, também, protagonizar o futuro da série da Netflix, ao lado de uma simpática e imprevisível Michaela (Masali Baduza).

Sem qualquer sinal da Duquesa e de sua família, o Visconde Anthony (Jonathan Bailey) e a Viscondessa Kate (Simone Ashley) fazem figuração na quarta temporada, apresentando o pequeno Edmund e comparecendo ao casamento que encerra os eventos do ciclo. Quem sai perdendo é a estabilidade e a coesão da família, numa omissão contratual dos atores que acaba empobrecendo as trocas entre irmãos, momentos tão inspirados e ricos do roteiro de Bridgerton.

O bebê Edmund, filho do Visconde e herdeiro do título, mexe com o ego de Benedict, sempre colocado em segundo plano (Foto: Netflix)

Se as duas primeiras temporadas se sustentavam com casais que garantiam respiro e suspense por uma porção de episódios, a série se reinventa e percebe que nem todo bom coadjuvante alça-se ao posto de bom protagonista, revezando as histórias de Benedict, Francesca e da própria Violet, enrolada de maneira feroz e impassível com o Lorde Anderson (Daniel Francis), e não deixando que apenas uma paixão domine a história contada.

No Palácio, Lady Danbury (Adjoa Andoh) implora por liberdade, e posiciona a Lady Mondrich (Emma Naomi) como sua sucessora frente à Rainha. A amizade da dupla, que data de anos e foi aprofundada na minissérie que reconta o casamento real, ganha contornos melodramáticos e tremendamente sentimentais, com Agatha viajando para seu país de nascimento e Charlotte demorando a aceitar qualquer mudança, por menor e mais dócil que seja.

A temporada abre com um Baile de Máscaras, onde a Dama de Prata conquista Benedict, e Violet se entrelaça ainda mais com Marcus (Foto: Netflix)

Também chamada de temporada “da criadagem”, o quarto ano puxa as referências de Downton Abbey e A Idade Dourada para dar rosto e voz aos serviçais “invisíveis” das residências, partindo da vivência de Sophie e chegando até a dar arcos de evolução para Varley (Lorraine Ashbourne) e Wilson (Geraldine Alexander), as governantas dos Bridgertons e dos Featheringtons. 

Escalada para um papel que exige introspecção e minúcias, Yerin Ha dá vida a uma Sophie espirituosa e precavida, que demora a se entregar para o amor de Benedict. O casal ganha Enchanted como trilha do apaixonar, e depois aclima a relação na melancólica e inesquecível The Night We Met, numa cena dirigida com cadência e carinho, espelhando também a relação riquíssima entre Danbury e a Rainha, em vias de separação, ao contrário do casal principal.

Michelle Mao e Isabella Wei interpretam Rosamund e Posy, as filhas de Araminta, numa relação desigual de amor e respeito (Foto: Netflix)

Atualizando o material literário tanto com a escalação de uma atriz sul-coreana para o papel de Sophie quanto com a bissexualidade de Benedict, vista aqui não como um desvio ou um atalho, mas como parte de sua pessoa, a temporada prova o valor das adaptações e a riqueza que nasce de ideias novas e mudanças no status quo

Transformando músicas pop em arranjos instrumentais para os bailes do século XIX, Bridgerton não esconde o lado farsesco e cafona de sua gênese. Um Perfeito Cavalheiro, o título do livro adaptado este ano, demonstra o lado cafajeste de Benedict, que oferece à Sophie a chance de ouro de ser sua amante. Ela nega, mas pondera. Quando as tensões desatam e o mundo parece voltar ao normal, é então que a voz de Julie Andrews retorna como aviso e alento: Lady Whistledown está de volta – e Penélope não é mais a detentora da pena.

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