A Idade de Ouro do Brasil reflete um país refém dos mesmos males

João Silvério Trevisan transforma em livro seu roteiro de Cinema escrito durante o regime militar

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Em 1977, censurado pela Ditadura Militar, João Silvério Trevisan escreveu um roteiro de cinema que nunca se concretizou em filme. Em 2019, ele reaproveitou a base da história e mesclou modernidade, trocando o analógico pelo digital e dando origem ao romance A Idade de Ouro do Brasil.

O espírito cinematográfico está presente na versão final, publicação da Alfaguara, que preserva batidas do teatro ao contar a história das Afrodites da Pauliceia, grupo de travestis comandado por Vera Bee, vulgo Abelha Rainha. O ano é 2009, Lula está na TV falando sobre o petróleo brasileiro, e um grupo político se reúne para organizar a gestação de um novo partido.

Para molhar o bico e tirar a pressão, a Véspera da Páscoa é data para que as trabalhadoras do sexo sejam contratadas – afinal, no Brasil, a política sempre chega junto da sacanagem. Trevisan narra tudo com lascívia e bom humor, criando personagens tridimensionais em suas caricaturas.

Conhecido por sua vasta participação nos alicerces culturais do Brasil queer, o autor empresta sua voz distinta para contar a ascensão de Vera Bee e suas súditas (Foto: Reprodução)

As travestis, que variam em comportamento, aparência e motivações, são guiadas pela sabedoria vacilante de Abelha, muito afetada pelas complicações do vírus HIV e prestes a se declarar nova monarca do país. Em seu blog, com posts sempre ditados pela virginal Menininha, a veterana detalha seu plano de governo e de igualdade.

A Idade de Ouro do Brasil atualiza nomes e locais, mas se mantém fiel ao espírito transgressor de sua data de origem: quando o país era atravessado pela violência e pela mentira, refém dos ricos e poderosos. João Silvério Trevisan avança no tempo e transforma um grupo de travestis, outrora as vítimas da história, em agentes de sua mudança.

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