O diretor Andrey Zvyagintsev não é mais bem-vindo na Rússia. Ao vencer o Grand Prix em Cannes com Minotauro, o cineasta criticou o governo de Vladimir Putin e implorou pelo fim da invasão russa na Ucrânia. A resposta veio rapidamente, com um comunicado definindo-o como agente estrangeiro, acusado de propagar informações falsas. O longa, presente na 50ª Mostra de São Paulo, dialoga com a atualidade.
A história acompanha Gleb (Dmitriy Mazurov), diretor de uma empresa incumbido de selecionar quatorze de seus funcionários para se “voluntariar” na guerra. A decisão não é apenas cruel, é impossível para o pai de família. Em contraponto, o casamento com Galina (Iris Lebedeva) está mais distante do que nunca, borbulhando em questões pouco resolvidas de afeto e masculinidade.
Baseado em La femme infidèle, longa dirigido por Claude Chabrol na década de 60, Minotauro busca uma inspiração cinematográfica para situar seu drama frio e impenetrável, amarrando o caso de traição com o papel dos abastados cidadãos que decidem quem vive e quem morre.

O cenário é quase invisível, com as paredes de vidro da residência da família refletindo os sentimentos que habitam o interior. Longe da cidade, é preciso cruzar estradas de terra e longas porções de vegetação para que Gleb, Galina e o filho Seryozha (Boris Kudrin) saiam de sua fortaleza e acessem o centro cinzento e silencioso da cidade.
Só existe vida e cor no apartamento de Anton (Yuriy Zavalnyouk), o amante de Galina que fotografa para viver e rejeita qualquer regra ou convenção que há muito cimentou o casamento com Gleb. Zvyagintsev deixa a câmera estática e propicia uma série de diálogos costurados à indignação e à vergonha de seus personagens.
Coprodução realizada entre Alemanha, Letônia e França, Minotauro é o representante deste último na disputa pelo Oscar 2027 de Filme Internacional. O cineasta não é novato na festa da Academia, tendo sido indicado sob a bandeira da Rússia pelos trabalhos em Leviatã e Sem Amor. Dez anos separam o trabalho anterior do atual, pois Andrey Zvyagintsev quase morreu durante a pandemia.

Em junho de 2021, o cineasta recebeu a vacina russa Sputnik V contra a COVID-19, mas logo desenvolveu febre alta e foi internado na UTI de um hospital em Moscou. Durante a internação, contraiu uma infecção resistente a antibióticos que provocou sepse hospitalar. Transferido para a Alemanha, foi colocado em coma induzido e, após despertar, desenvolveu polineuropatia, que o fez perder a capacidade de andar. Além da paraplegia, ficou impossibilitado de se sentar ou falar devido a lesões nos ligamentos da garganta. Em determinado momento, sua capacidade pulmonar de realizar trocas gasosas caiu 92%, e sua circulação precisou ser auxiliada por uma máquina de oxigenação. Ao todo, Zvyagintsev permaneceu hospitalizado por onze meses, recebendo alta em maio de 2022, em Wiesbaden, na Alemanha.
Minotauro, portanto, marca o retorno poderoso de uma voz singular do cinema europeu, disposta, inclusive, a denunciar a violência e a crueldade do país natal. Mais uma vez escolhendo um monstro mitológico para nomear seu filme, Zvyagintsev retrata a humanidade por um viés pessimista e inteiramente de carne e osso. Longe da Rússia desde 2021, quando passou a viver na França, o cineasta também enfrenta as consequências de sua posição política: caso retorne ao país, poderá sofrer sanções legais, incluindo multas e prisão. Em nome da Arte, ele está disposto.


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