Mike Flanagan dá razão e motivações a todos, mas se esquece de Carrie

Série do Prime Video mira no universo compartilhado e murcha potencial da personagem

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O primeiro livro publicado por Stephen King vai direto ao ponto: garota na puberdade sofre com o bullying no Ensino Médio e desperta poderes telecinéticos. Adaptado quatro vezes para o Cinema, o desabrochar de Carrie White ganha tratamento televisivo no projeto que inaugura a safra de Mike Flanagan na Amazon.

Em tempos de redes sociais e internet, a trama da ratinha envergonhada com traumas religiosos e nenhuma ciência do mundo exterior é trocada por uma visão mais moderna: Carrie (Summer H. Howell) e a mãe Margaret (Samantha Sloyan) eram mantidas escondidas por Ralph (Tahmoh Penikett), até que um acidente na construção acarrete na morte dele e a polícia descubra as mulheres.

Flanagan já está acostumado ao acervo de King, responsável por adaptações de Jogo Perigoso, Doutor Sono e A Vida de Chuck. Em Carrie, porém, o material original parece impedir a criatividade do cineasta, que acaba enfatizando demais os porquês que cercam a ira e a violência do colégio Ewen, enfraquecendo, assim, a presença da protagonista.

Mike Flanagan tem agendado a nova versão de O Exorcista, e planeja dirigir a adaptação da saga A Torre Negra para a Amazon (Foto: Prime Video)

A jovem atriz, escalada numa chamada de elenco que acumulou milhares de garotas em busca do papel, é o grande chamariz desta versão de Carrie. Summer H. Howell é gentil, espirituosa e ótima amiga; traços de personalidade que se mantêm quando o bullying de Chris (Alison Thornton) passa dos limites físicos e atravessa a esfera virtual.

Pelo perfil @carriered no Instagram, a vilã da vez organiza um exército de insultos e calúnias para o corpo discente e docente do colégio. Tratando da perseguição desenfreada e dos insultos velados, o roteiro deixa de lado a exclusão de Carrie e sua eventual ascensão ao posto de violenta contra-atacante de tal terror.

O clima da produção é do café com leite norteamericano, passando da popular ardilosa, sua fiel escudeira desmiolada (a Tina de Josie Totah), a bem intencionada melhor amiga que detesta o rótulo de maldade (Sue, vivida por Siena Agudong)  e o bonitão atleta com mais visual do que cérebro (Tommy, papel de Joel Oulette). Sobra espaço para o dealer mais charmoso do pedaço, Billy, que ganha na interpretação de Arthur Conti uma versão teen do Joe de You.

Várias músicas da trilha são da banda Haute & Freddy, a mesma estampada na camiseta que Carrie pega no setor de achados e perdidos; para o baile, Flanagan escolheu Lana del Rey, com clima etéreo e premonitório (Foto: Prime Video)

Para toda a fúria que King empregou em suas criações da década de 70 – perfeitamente traduzidas para o Cinema reativo e colorido de Brian de Palma, a Carrie de 2026 carece de camadas. A certa altura dos oito episódios, a protagonista passa a treinar como Eleven em Stranger Things, aproximando essa versão de um misto de X-Men com Meninas Malvadas e Gossip Girl.

Na vã tentativa de justificar os males da juventude com problemas familiares (no caso de Chris), um futuro distante do namorado do high school (para Sue) e até envolver os professores no bolo, Flanagan destrata a única personagem que importa, justamente a que dá título ao projeto. A Carrie de Howell é marcante pelas decisões de construção, sua imortal perseverança e, quando chega o momento, seu ataque no Baile de Formatura. Na verdade, quase isso.

Momento mais icônico de Carrie, a cena do baile é apressada e conta com a decisão estúpida de tirar da protagonista o peso das ações. Aqui, as ideias inéditas de Flanagan afogam o projeto, especialmente na maneira como a personagem Emaline (Thalia Dudek) estraga qualquer senso de violência. Junto das entrevistas conduzidas por uma misteriosa Kate Siegel, a expansão do “Kingverso” deixa tudo pior.

Os créditos de abertura ficam cada vez mais vermelhos ao longo da série: começam brancos no primeiro episódio, passam por tons rosados e avermelhados e chegam ao vermelho intenso no último (Foto: Prime Video)

Querendo continuar essa história por três temporadas, Mike Flanagan expande, adiciona e contrasta a jornada de Carrie com a de outras garotas, numa decisão de direção e montagem que primeiro soa perspicaz mas logo revela a gratuidade e a falência em comparação ao que King escreveu. Adaptações existem para mudar, alterar e compreender a sociedade atual, e Carrie faz isso – até certo ponto.

Na discussão do armamento, atiradores em escolas e o papel das redes sociais num ecossistema volátil e inflamável como o Ensino Médio, a produção do Prime Video moderniza as palavras de Stephen King. Até Margaret, a fervorosa crente raivosa do passado, passa pela transformação latente de sua classe atual, quando condena o Instagram mas, descobrindo o poder de persuasão e alienação, passa a adotá-lo como ferramenta diária.

Com diretores novatos (caso de Siegel e da atriz Kyra Sedgwick), ao lado dos veteranos Flanagan, Axelle Carolyn (de AHS: Double Feature) e Hiromi Kamata (de Xógum), a série abandona o esmero estético de outras assinaturas do realizador e se rende ao empoeirado e cínico clichê dos colégios americanos, só traduzindo um pouco de originalidade e frescor à fotografia quando a câmera captura a selvageria escolar à partir dos olhos e à altura dos ombros de Carrie.

Summer H. Howell não conhecia as outras adaptações de Carrie nem havia lido o livro quando foi escalada, e Mike Flanagan a desaconselhou a fazê-lo por planejar uma versão diferente da personagem (Foto: Prime Video)

Em cenas como a da biblioteca e a da carona para casa, a promissora Summer H. Howell prova seu talento e faz lamentar por uma versão de Carrie tão decidida a abdicar do olhar de sua figura principal. Ao lado da boazinha, as interpretações de Josie Totah e Alison Thornton ganham camadas de maldade e presunção, funcionando em contraste. E falar do talento de Samantha Sloyan é chover no molhado, e aqui ela faz de Margaret uma vilã velada, embora nunca inerte.

Com participações pontuais de nomes como Matthew Lillard (como o ineficiente diretor do colégio), Tim Bagley (como o espirituoso e otimista orientador educacional), Rahul Kohli (o professor que ganha o pior desvio de rota da série) e Amber Midthunder (como a apagadérrima Srta. Desjardin), Carrie patina sempre que desloca seu foco da protagonista telecinética. Azar para os fãs de Mike Flanagan que, maravilhados com a safra da Netflix, acreditaram finalmente estar diante de algo tão icônico, visceral e trágico quanto o filme que rendeu indicações ao Oscar para Sissy Spacek e Piper Laurie – quem sabe na próxima…

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