Que Verity, livro independente de Colleen Hoover, não é lá grande coisa, a comunidade literária já sabia há anos. Cabia a versão cinematográfica, com elenco chamativo, remixar a trama de vingança, obsessão e segredos para, talvez, energizar um pouco da lacônica jornada de Lowen (Dakota Johnson) pelo passado de Verity (Anne Hathaway).
Para dirigir o roteiro de Nick Antosca (envolvido em Cape Fear e Vingança Sabor Cereja), o responsável foi Michael Showalter, um cineasta de estimação dos estúdios, hábil em transformar fenômenos literários em hits para audiência (caso de Uma Ideia de Você, para o Prime Video), e ocasionalmente capaz de traduzir atuações em prêmios (Jessica Chastain ganhou o Oscar por Os Olhos de Tammy Faye, Amanda Seyfried ganhou o Emmy por The Dropout).

É quase certo que Verity cairá mais nos gostos da audiência do que no da crítica ou das premiações: a começar pelo clima de tensão sexual que bebe de Hitchcock mas nunca se presta ao papel de emular todo o pastiche de suspense e terror de mansão mal-assombrada. Na história, após se mudar para a casa da família Crawford para escrever os livros restantes da série da personagem título, Lowen acaba perseguida pela figura inerte de Hathaway e pela presença fascinante e trágica de Jeremy (Josh Hartnett).
Ao encontrar um manuscrito que parece revelar o cruel desenrolar da vida do casal, Lowen se vê refém daquilo que foi proposto a fazer: criar uma história – ou acreditar na versão melhor construída. Showalter não tenta reinventar a roda, deixando que Johnson, uma atriz acostumada ao sarcasmo como linguagem corporal, se delicie entre o frenesi psicossexual ao lado de Jeremy, um pai de família musculoso e sedutor, e a memória de Verity, a quem Hathaway imprime selvageria nos relatos e uma presença doentia no presente.

Para os fervorosos xiitas literários, Verity cometerá erros e falhas imperdoáveis, mas o roteiro de Antosca simplifica e reduz sequências repetitivas ou indiferentes ao plano maior, inserindo aqui e ali pistas de uma visão predominante (a discussão entre carta e manuscrito não ganha ponto final), além de explorar a figura pálida quase fantasmagórica das mulheres e o arquétipo guerreiro de Hartnett. Entre sombrio e cômico, há nove momentos em que um personagem lambe o dedo ou algum objeto, seja com sangue, açúcar, pasta de amendoim ou café.
No fim das contas, Verity entende o fio narrativo de seu material base ao, em detrimento de uma narrativa psicológica que investiga o poder da escrita e as cicatrizes da vida perfeita entre marido e mulher, escolhe as saídas mais vexatórias, oportunistas e gratuitas. Mas, olhando pelos positivos, a trilha sonora tem oklou, FKA twigs e Kali Uchis e The Marías!


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