Abordagem pé no chão favorece o drama introjetado de Lanternas

Kyle Chandler e Aaron Pierre interpretam com tenacidade dupla de personagens fadada ao conflito

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A fantástica e inquietante Lanternas, da HBO, recusa os tropos comuns da mídia pop: não tem trajes coloridos, tampouco conta com cenas de ação ou criaturas alienígenas desenhadas com criatividade e engenho. É, em seu âmago, um drama investigativo que, entre suspeitos e culpados, redime as existências contrastantes de Hal Jordan (Kyle Chandler) e John Stewart (Aaron Pierre).

Criada por Damon Lindelof (de Lost e Watchmen), Chris Mundy (de Ozark) e Tom King (prolífico autor de HQs e ex-funcionário da CIA), a série se divide em duas linhas do tempo. Em 2016, o recruta John Stewart é convocado pelos Guardiões de Oa para treinar sob a tutela de Hal Jordan, o Lanterna Verde terráqueo desde a década de 80. Dez anos depois, os mesmos personagens retornam à zona rural de Nebraska para perseguirem um mistério não resolvido em sua primeira visita.

A série aposta em uma direção de fotografia atenta às composições e ao que cada imagem comunica ao espectador, caso dessa cena que enquadra todos os personagens num resumo da confusão futura (Foto: HBO)

Pontual e contida, a direção de Lanternas é compartilhada por James Hawes, Geeta Vasant Patel, Alik Sakharov e Stephen Williams, muitas vezes com foco redobrado nas interações humanas entre os protagonistas, água e óleo, e a comunidade interiorana atravessada por uma invasão alienígena silenciosa. É nos ombros da xerife Kerry Kane (Kelly Macdonald) que o dever da lei, e, neste caso, da polícia intergaláctica da Tropa, é cobrado e registrado.

O suspense impera na busca pelo Caçador Cósmico, uma criatura tão poderosa quanto destrutiva, que remonta os tempos de aprendiz do próprio Hal, treinado por Sinestro (Ulrich Thomsen), hoje em dia um pária encarcerado pelo assassinato de um Guardião. Deste novelo de relações interrompidas por circunstâncias maiores, a série ainda apresenta a enigmática família Macon, encabeçada pelo patriarca Will (Garret Dillahunt), sua esposa Zoe (Poorna Jagannathan), o filho Billy (Jason Ritter) e o neto Noah (quando criança, papel de Cary Christopher, e mais tarde vivido por Shea Pritchard).

O anel e a bateria de poder usados por Hal Jordan foram criados especialmente para a série pelo artista conceitual Ed Natividad, enquanto a aparência física dos objetos ficou a cargo do responsável pelo departamento de adereços Jeffrey Paul Johnson (Foto: HBO)

James Gunn, o co-CEO do Universo da DC, definiu a primeira temporada de True Detective como inspiração de Lanternas: do cenário cheio de poeira e amargura ao estilo narrativo de dividir a série em dois distintos períodos de tempo, cortados pelo fracasso silencioso, a tentativa é mais do que bem-sucedida. Ao adotar a lentidão, o drama agarra a oportunidade de construir ciclos de evolução e danação para os personagens clássicos dos gibis.

Vindo do homem que repaginou Watchmen como uma alegoria racial que hipnotizou a TV em tempos de doom-scrolling, Lanternas é incisiva nas questões de gênero e de classe social, além de explorar com riqueza de detalhes e conflitos a criação de John por parte de dois pais extremamente inexperientes: são eles quem guiam o princípio de nascimento e de amadurecimento do jovem, moldado para não sentir medo.

A atitude silenciosa de Sinestro abre espaço para conclusões e desdobramentos futuros no mundo dos heróis (Foto: HBO)

Como Bernadette e John Stewart Sr, Jasmine Cephas-Jones e J. Alphonse Nicholson encontram o tom certo para soarem protetores e terrivelmente ruins de matemática. Deste modo, John cresce forte mas oco, elemento usado para que Pierre, um ator exímio desde os tempos de The Underground Railroad, consiga encontrar Chandler à altura de uma dinâmica de opostos obrigados a trabalhar em harmonia.

O charme sacana e cafajeste do veterano imprime em Hal Jordan uma versão que parece escrita nas estrelas. Ele é preparado, mas acumulou anos de insatisfação e frustração, operando com base na moral inata e longe da tutela dos Guardiões. Na série, os líderes ganham a interpretação calculada e corrosiva de Laura Linney, parceira de Mundy desde Ozark, atriz que impressiona com gestos mínimos.

Vencedor do Emmy por Friday Night Lights, Kyle Chandler vive com Hal Jordan um personagem icônico e que lhe cai como luva – digo, anel (Foto: HBO)

Frustrando os espectadores sedentos por referências e aparições surpresa, a série dos Lanternas economiza nesse quesito, atando sua história ao plano maior do DCU por meio das beiradas. A exceção é a presença de Guy Gardner (Nathan Fillion), reprisando o papel do Lanterna da Terra e enfim explicando o destino do anel de Hal e a “contratação” de seu atual substituto. Para o futuro, o John de Aaron Pierre está confirmado no elenco de Homem do Amanhã, sequência de Superman.

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