Na virada da década de 2010, o filme A Rede Social capturou com astúcia, horror e um bocado de sensualidade os perigos da internet e de seus comandantes. Misto de aventura de amadurecimento com drama de corrupção pessoal, o longa uniu o texto ríspido e inventivo de Aaron Sorkin à direção abrupta e sarcástica de David Fincher, firmando-se como clássico contemporâneo e projeto carbono de qualquer história semelhante.
Em 2026, metade da dupla volta para a sequência, O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning) – para nosso azar, este alguém foi Sorkin, exímio roteirista e fraquíssimo diretor, que situa a história na virada da década de 2020, quando a ex-funcionária do Facebook Frances Haugen (Mikey Madison) denunciou dados sigilosos para o jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White).
O Mark Zuckerberg original, Jesse Eisenberg, recusou veementemente qualquer chance de retorno ao papel que lhe indicou ao Oscar, passando o bastão para Jeremy Strong, que mergulhou em seu método de atuação para capturar com precisão os maneirismos, tom de voz, jeito de se mexer e até as interações sociais do bilionário. No set, o veterano de Succession não conversava com o elenco e tratava os companheiros da maneira que o personagem o faria, com frieza e distância.

Com Sorkin dirigindo e roteirizando uma história menos chamativa que a de The Social Network, o filme novo cai numa armadilha que predata sua estreia: a sombra do original e a tentativa frustrada de capturar o mesmo ânimo de outrora. Mas este Reckoning é mais filme de investigação do que qualquer coisa, desenhando-se em quartos de hotel, bancos de parques e na sala de conferência do Facebook, onde Zuckerberg treina para seu depoimento no senado americano.
Entre momentos cronológicos distintos, a montagem de Alan Baumgarten costura causa e consequência, impondo aos atores uma tarefa de internalizar sentimentos que precisam ser explicados para a audiência por meio dos gráficos, estudos e dos documentos que Frances fotografa em clandestino. White, por outro lado, tem pouco a fazer como um jornalista político que aterrissa na área da tecnologia e necessita aprender termos, esquemas e o linguajar.
Após vencer o Oscar por Anora, Madison escolhe interpretar uma mulher introspectiva e fiel aos manuscritos da companhia para a qual dedicou a carreira. Aos poucos, ela se abre para a relação profissional com o jornalista e termina o filme numa ascendência inédita para a própria vida. A atriz não tentou emular ou imitar a Haugen da vida real, em vez disso apostando em decisões de caracterização e guarda-roupa para nortear o trabalho.

O grande chamariz de O Outro Lado das Redes é o Zuckerberg de Strong, um ator conhecido pela megalomania dramática e por preencher manchetes para além de seu talento quando as câmeras rodam. Aqui, ele faz exatamente o esperado: é ríspido, monotônico, ameaçador e um tanto fracassado, distanciando-se daquela versão mais terrorista emocional de Eisenberg.
2026 provou-se, por acaso, um ano cinematográfico em que os responsáveis pelo sucesso tremendo de A Rede Social se espalharam em distintos projetos. Eisenberg, recusando o papel principal, investiu na direção de A Grande Estreia (The Debut), ao passo que Andrew Garfield, o coprotagonista de 2010, interpreta outra figura extremamente controversa no mundo dos negócios tecnológicos, o Sam Altman de Artificial. Fincher, ainda preso no contrato da Netflix, lançará The Further Mis-Adventures Of Cliff Booth, sequência do longa de Tarantino.

Sorkin tenta ao máximo extrair de sua direção as mesmas qualidades de seu roteiro, mas o conjunto desanda pela estratégia de capturar a modernidade com lentes insípidas. A fotografia de Jeff Cronenweth usa de lentes claríssimas com luzes ofuscantes para demarcar o isolamento, e a composição original de Alexandre Desplat é prosaica e tradicional demais para uma história que poderia desafiar os padrões da indústria.
Depois que obras como Succession e O Aprendiz tomaram as expectativas pelos chifres e entregaram dramas de riqueza e manipulação decorados com elementos de horror, ansiedade e comédia, qualquer tentativa chapa-branca de fazer o mesmo apenas definha em comparação. E quando sua métrica é um filme tão estiloso quanto A Rede Social, o jogo já começa em derrota.


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