Monstro: A História de Lizzie Borden bagunça os registros e não pede permissão

Temporada descarta sutileza ao reunir a assassina do machado e Aileen Wuornos

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A quarta temporada da antologia Monstro, da Netflix, se prova distante criativamente da proposta original. Isto é, um exame minucioso e calculista a respeito dos comportamentos e consequências de assassinos notórios, caso de Jeffrey Dahmer. Pela primeira vez protagonizada por uma mulher, a produção se afasta do true crime em uma criação que mescla o flerte com a ficção e as ligações nunca antes realizadas entre Lizzie Borden e Aileen Wuornos.

Ambientada em 1892, a criação de Ian Brennan (parceiro de longa data das produções de Ryan Murphy) decreta que o diretor Max Winkler dê o tom da narrativa capciosa e transitória de Lizzie, vivida de maneira ingênua por Ella Beatty (filha de Annette Bening e Warren Beatty). A garota sofre nas mãos de pais abusivos, papéis de Charlie Hunnam (o Ed Gein da temporada 3) e Rebecca Hall (com quem Beatty trabalhou em The Beauty).

Aileen Wuornos nunca visitou a casa dos Borden, nem sequer Massachusetts ou a região da Nova Inglaterra; a ideia de que ela teria se hospedado no local e sido admiradora de Lizzie Borden é uma licença artística sem evidências, já que a residência só se tornou uma pousada em 1996, seis anos após sua prisão (Foto: Netflix)

Para completar o quarteto principal, Vicky Krieps dá vida à empregada Bridget, que ganha o apelido de Maggie em razão da insensibilidade da patroa, espécie de bruxa que liberta a mente e os comportamentos de Lizzie. A forte carga erótica da amizade evolui para a cumplicidade e, então, para o banho de sangue que colocou a jovem vitoriana nos livros de História. As quarenta e uma machadadas no pai, duas a mais que na madrasta, são encenadas de maneira teatral (e dúbia) por Monster.

A grande e arriscada decisão da temporada está na inserção de Aileen Wuornos, serial killer condenada à morte na década de 90. Embora a caracterização e os maneirismos da assassina sejam reconhecíveis a uma légua de distância, a versão que Charlize Theron interpretou no filme Monster, em 2003, recompensada com um Oscar, não se compara ao trabalho de Sarah Paulson na série de mesmo nome. 

Rebecca Hall passa por poucas e boas, com destaque para os jatos de vômito após uma tentativa de envenenamento (Foto: Netflix)

Quando não parece exagerar, a veterana e queridinha do produtor Murphy apenas emula as qualidades e os vícios da atuação de Theron. Além do fato risível que cai diretamente no roteiro, ligando as vidas e mortes das mulheres reais com a sutileza de um búfalo na loja de porcelanato. Paulson esbraveja sobre machismo, preconceito e a exclusão feminina enquanto passeia pela mansão de Borden, transformada em cartão-postal – como numa sketch datada do Saturday Night Live.

Depois de unir Ed Gein a Alfred Hitchcock e Anthony Perkins, Monster exagera na tênue conexão entre Borden e Wuornos, soando muito mais artificial e induzida do que propriamente necessária. Quando abandona-se a lógica, a “amizade” rende momentos de extravaso, como na dança sem regras com a presença de Shelby, papel de Jessie Lee, a namorada de Aileen que a acompanha na road trip. O anacronismo está também na música de Monstro, com Borden sendo propulsionada ao som de Kate Bush, Wet Leg e Natalie Merchant. 

Vicky Krieps interpreta a Condessa de Sangue, personagem que inspirou a personagem de Lady Gaga em AHS: Hotel (Foto: Netflix)

Mais interessada em firmar-se como interpretação pessoal da história de Lizzie Borden, a temporada dobra fatos históricos para melhor encaixar suas ideias e execuções. A madrasta, gorda nos registros, é esbelta e ríspida; o pai, talvez até afeiçoado pela filha e sua irmã Emma (Billie Lourd), é um bêbado mais interessado em machados do que seres humanos. A aproximação de Lizzie com a atriz Nance O’Neil (Jessica Barden, de The End of the Fucking World e esposa do diretor Max Winkler), igualmente fabricada, concede liberdade artística e mais do toque sáfico da temporada.

Os elogios são raros e as críticas são ferrenhas para o nome de Ryan Murphy, que deve dormir e acordar com a orelha esquerda ardendo: e ele não tem culpa nem participação nesta versão de Monster, assinando apenas a produção e não envolvido em roteiro ou direção. Claro que sua marca maior, cultivada desde os tempos de Nip/Tuck e ampliada para as diversas franquias, sempre foi a de bagunçar sem pedir licença – e para todo bônus, há um indiscriminável ônus. 

Nota de precisão histórica: foi Andrew Borden, pai de Lizzie, quem matou os pombos dela, por acreditar que eles poderiam transmitir infecções e doenças — e não por causa do arrulho das aves (Foto: Netflix)

O oitavo e último capítulo prossegue com Monster numa abordagem inédita ao mostrar sua protagonista vivendo a liberdade e encarando seu legado. A presença mortal do passado está nas fantasias de Halloween, nos livros de terror baratos e na canção infantil que rima o crime. Beatty, tão expressiva quanto propensa a se jogar nas microexpressões de horror e crueldade, assume a luta sufragista, luta pelo direito das mulheres e entende o papel que lhe caberá até o futuro infindável.

Com seu rejuvenescimento para a pele de uma adolescente que sofre de cólicas tremendas e enxerga o romance como impossível, a Lizzie Borden de Monster é tudo menos pálida – é vítima e algoz, perseguida e capataz, Ella Beatty insere tensão na menor das interações, ao passo que a equipe criativa, majoritariamente masculina, disserta sobre os atos e os reflexos das mulheres em tempos nem tão distantes.

Joey Pollari repete a parceria com os produtores depois de papéis em Ed Gein, The Beauty e AHS: 13 (Foto: Netflix)

A quebra da visão dos homens acontece na presença da diretora Sarah Adina Smith, responsável pelos episódios focados na morte da madrasta e no julgamento da garota. De resto, é Max Winkler a voz da narrativa, sofrendo alguns males que pouco lhe dizem respeito, como o fato de que no extenso museu de Ryan Murphy, quase tudo já foi referenciado ou aludido.

Até a Condessa Elizabeth (vivida também por Vicky Krieps) ganhou protagonismo em American Horror Story. E mesmo que sua versão aqui se distancie daquela de Lady Gaga em Hotel, Monster não tem o poder de reinventar os conceitos ou realizar uma lavagem cerebral na audiência, invariavelmente refém das comparações. Nas parcelas ambientadas no passado longínquo da soberana europeia, a série dá tom de fábula aos escritos, e preenche um ciclo de histórias dentro de histórias: Aileen lê sobre Lizzie, que lê sobre a Condessa – e nós assistimos ao todo.

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