Stuart Não Consegue Salvar o Universo, mas protagoniza uma série surpreendentemente engajante

Comédia com time de figurantes de The Big Bang Theory brinca com linguagem e com o atual estado esgotado da TV

•

min de leitura

Uma comédia dedicada aos personagens terciários de The Big Bang Theory provavelmente não estava entre as séries mais pedidas no escritório da HBO Max, mas os criadores Chuck Lorre e Bill Prady voltaram ao conhecido ecossistema nerd com um gancho: recrutaram Zak Penn e decidiram pela ambientação de sci-fi de viagem interdimensional, acompanhando Stuart (Kevin Sussman) enquanto corre atrás do prejuízo após o fim do mundo.

Em Stuart Não Consegue Salvar o Universo, o spoiler está no pôster e nos nomes dos episódios, que trazem, de forma direta ou indireta, um acontecimento que varia de mortes a decisões jurídicas da Warner. Em menos de vinte e cinco minutos por semana, ao longo de dez semanas, Stuart passou de coadjuvante fracassado a protagonista fracassado.

O cocriador Zak Penn tem créditos nos roteiros de X-Men 2, X-Men 3, Elektra, O Incrível Hulk, Os Vingadores, Jogador Número Um e Free Guy (Foto: HBO Max)

E se as expectativas eram inexistentes, quando Stuart Fails to Save the Universe começou a apresentar diversão, criatividade e uma vitalidade aparentemente morta no já explorado universo de Big Bang, o elenco se mostrou à altura da tarefa e, ao lado do dono da loja de quadrinhos, ganhou arcos de desenvolvimento pessoal. Denise (Lauren Lapkus), a namorada de idas e vindas, assume a posição de par romântico com motivações próprias e um nível de participação que a série-mãe demorou anos para empregar em suas personagens femininas.

Já Bert (Brian Posehn), o geólogo esquisitão de coração inocente, é o fiel escudeiro e principal aliado de Stuart, deixando ao excêntrico e pouco tolerável Kripke (John Ross Bowie) a função de alívio cômico que flerta com a vilania. Definidos os arquétipos e as missões de cada personagem, a comédia abre o baú de ideias e viaja por realidades alternativas e inusitadas, recrutando uma porção de atores-legado (e outros nem tão legado assim) de Big Bang Theory, como num playground narrativo em que a única regra é não haver regras.

O principal MacGuffin da série, o dispositivo de interferência quântica, pesa cerca de 14 kg e ganhou versões mais leves e de borracha para facilitar as filmagens (Foto: HBO Max)

Penny (Kaley Cuoco), Amy (Mayim Bialik), Bernadette (Melissa Rauch), Raj (Kunal Nayyar), Wil Wheaton, Neil deGrasse Tyson, Jon Cryer, Weird Al, Christine Baranski e muito mais: o elenco de apoio interpreta versões completamente distintas daquelas que vimos no passado, servindo de aceno para os fãs e manobra para atrair audiência. A cada capítulo, a inserção de um ex-TBBT aumenta o burburinho e brinca com as expectativas.

O trio de Sheldon, Leonard e Howard, responsável pela criação do objeto interdimensional que serve de MacGuffin, não aparece, mas a reta final da temporada, olhando para o futuro com a renovação anunciada para um segundo ano, aponta para possibilidades múltiplas. Terceiro spin-off de Big Bang (depois de Jovem Sheldon e George & Mandy), Stuart Não Consegue Salvar o Universo esbanja liberdade e tem pouquíssimo a perder, jogando em territórios arriscados com karma positivo.

Entre as realidades visitadas, temos uma Terra controlada pela IA, uma em que todos comem mato, outra com a poligamia em atividade, outra com bruxaria e uma em que todos escutam os pensamentos alheios (Foto: HBO Max)

A abertura, com tema escrito por Danny Elfman, conversa com quem assiste — e implora para que o botão de skip não seja usado em hipótese alguma. O senso de humor metalinguístico e autodepreciativo, característica inata de Stuart desde os tempos da série original, aqui se mostra uma ferramenta cativante. Sussman, em seu momento de personagem-título, não desaponta, vivendo dezenas de versões de um mesmo homem atrapalhado em crise de meia-idade.

Mantendo o estilo fidedigno ao amor dos personagens pelos super-heróis, a comédia ambienta o nono episódio no universo da DC, com a presença ilustre de Jay Garrick (Andy Ridings), o Flash. Já que a equipe foi proibida de usar o Lanterna Verde, graças à exibição paralela da série da HBO, cabe ao Velocista Escarlate derrotar um vilão do Batman e devolver o grupo ao ciclo aparentemente infinito de fuga e mistério. Uma entidade maligna, com ligações ao tema de abertura de Big Bang, parece surgir como antagonista-mor. Para descobrir, Stuart deverá falhar, falhar e falhar mais uma vez; afinal, está tudo no título.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *