Ryland Grace (Ryan Gosling) dá aula de Ciências para a turma do ensino fundamental quando é contatado por Eva Stratt (Sandra Hüller) com uma teoria perigosamente plausível: o Sol está morrendo. Por uma junção do acaso com o destino, ele acaba na nave Hail Mary em direção ao único astro que sobreviveu ao ataque de partículas chamadas de Devoradores de Estrelas.
Baseado no sucesso literário de Andy Weir, o filme é dirigido pela dupla Phil Lord e Christopher Miller (de Aranhaverso e muito mais). A identidade cartunesca e colorida da equipe casa com a abordagem esotérica e bem-humorada do apocalipse global, com Gosling dividindo a tela entre flashbacks de seus últimos dias na Terra, e sua rotina na espaçonave deserta.

Não demora para que o grande destaque apareça: é o alienígena Rocky, dublado e manipulado pelo mestre de marionetes James Ortiz. A dinâmica entre o carinha e o professor é construída de maneira cuidadosa e harmoniosa pelo roteiro adaptado por Drew Goddard (de O Segredo da Cabana, Demolidor da Netflix e Perdido em Marte), como a versão bem-sucedida de outro blockbuster do ano, O Mandaloriano e Grogu, igualmente centrado na amizade improvável entre um humano capacitado e uma figura quase infantil com mais sabedoria do que demonstra.
Na verdade, a totalidade dos aspectos e departamentos técnicos de Project Hail Mary atua em favor de um filme espetacular em gênero, número e grau. Na trilha, Daniel Pemberton evoca os grandes temas da ficção científica ao mesmo tempo em que imprime originalidade e sua autoria ao meio. Na câmera, o prolífico Greig Fraser brinca com texturas e cores, transformando o espaço sideral num quadro constantemente riscado e manchado; esforço equiparável no interior das naves, com Grace e Rocky sendo capturados à parte de sua solidão.

Quanto à originalidade e criatividade, o mundo extraterrestre de Rocky ganha ângulos oblíquos e cores terrosas, sem precisar pesar a mão em explicações desinteressantes ou prolixas. O ritmo da montagem de Joel Negron emprega a Devoradores de Estrelas um senso de aventura em consonância com o caráter emocional da história. Música e piadas são tão parte do escopo diário da dupla de protagonistas quanto a habitual apreensão quanto ao destino de seus planetas natais.
Não é comum que uma canção da cultura pop case tão bem ao núcleo de um filme, mas a inserção de Sign of the Times, de Harry Styles, pelas expressões outrora duras da personagem de Hüller, é mágica e traduz com fidelidade o clima de Hail Mary. Os diretores se atentam às arestas, polindo o espetáculo visual e textual para, num arremate, sorrir frente ao otimismo que tornou-se raro no gênero.


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