Publicado em 2003 com o título Millennium People, poucos anos antes da morte do autor J.G. Ballard, Terroristas do Milênio narra a revolta fictícia de uma comunidade de classe média britânica. Após um atentado matar sua ex-esposa (a quem odiava), o psicólogo David Markham se infiltra no condomínio Chelsea Marina e descobre mais afinidades do que imaginava.
Com tradução de Celso Nogueira para a Companhia das Letras, o livro começa no caos do Heathrow Airport: David percebe que sua ex-mulher está entre as vítimas e corre para certificar-se ou de sua segurança ou de sua morte. Ele ainda não decidiu. E tampouco o fez Ballard, que passa a emprestar sua narrativa cristalina para uma jornada de reuniões, bombas caseiras e raiva acumulada.
“Você não a ama, sei disso. Mas ainda a odeia. Por isso, precisa ir lá”.
Célebre por suas palavras que denotam com facilidade a hipocrisia moderna em meio ao sexo e à tecnologia, o escritor britânico investiga a figura do pediatra Richard Gould, um homem de aparência frágil mas capaz de mobilizar uma legião de cidadãos insatisfeitos. Entre eles, a decidida Kay Churchill seduz o protagonista tanto para sua cama quanto para seus ideais.
Com acontecimentos triviais se acumulando até que a situação fuja totalmente ao controle de seus feitores, a história de Terroristas do Milênio é estranha e demora a revelar suas camadas de análise, crítica e sátira. Quando chega o momento, porém, Ballard amarra uma porção de personagens equidistantes que, paralelos, discursam em prol de um mundo menos careta.

Autor de obras como Crash e Império do Sol, eternizadas no Cinema por David Cronenberg e Steven Spielberg, J.G. Ballard morreu em 2009, seis anos após a publicação deste livro. Sua contribuição para a Literatura e a Cultura pode ser sentida na Música, na Sétima Arte e em tudo que se preste a divergir da norma-padrão e, com espírito de azucrinar, questiona os mecanismos de manutenção do status vigente.
“Os americanos inventaram o cinema para não precisarem amadurecer jamais. Temos angústia, depressão e arrependimento da meia-idade. Eles têm Hollywood”.


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