“Para Diane”, Olivia Wilde assina como dedicatória antes de os créditos rolarem em O Convite (The Invite), sua comédia de casais que captura muito do legado deixado por Keaton em sua caprichosa passagem pelo Cinema. Dirigindo um remake do espanhol Sentimental, de Cesc Gay, Wilde dobra funções também como protagonista, encabeçando metade do casal que oferece uma noite de jantar, queijo, jamón e quem sabe até vinho.
Isso, claro, se Joe (Seth Rogen), marido de Angela (Wilde), lembrar-se de comprar a bebida depois de lecionar sua aula de Música num conservatório e pedalar de volta para casa. O desconforto desarmonioso do casal pode ser notado explicitamente na montagem de abertura, que intercala a rotina dele, todo travado na magrela, e a dela, entre desempacotar um tapete vintage e passar mais tempo que o necessário no setor de frios do mercado.

O elemento de atrito é logo cuspido e escarrado de um para o outro, numa troca de insultos e cobranças no belíssimo apartamento, redecorado e agora pronto para receber visitas. Os convidados são um casal para lá de barulhento na Hora H, com quem Joe e Angela até agora só trocaram corteses olás no elevador e nas áreas comuns do edifício. Bate-boca intenso, e a campainha toca.
Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) deixam o pudor na porta e não retêm qualquer pensamento intrusivo ou delicado, deixando o clima de O Convite naquele delicioso limiar de desconforto e humor. O roteiro de Will McCormack e Rashida Jones lida bem com o cenário enxuto e com o número limitado de personagens, e ganha da direção de Wilde um amplo espectro espacial.

Vindo de um calamitoso trabalho em Não Se Preocupe, Querida, a cineasta volta ao seu nível de entrega (visto no virtuoso Fora de Série), e não brinca em serviço. Ela bloca cenas como se inspirada pelos mestres da romcom do século XX, ao mesmo tempo em que instrui a câmera de Adam Newport-Berra a encontrar ângulos obtusos, espaços iluminados tanto pelo pôr-do-sol urbano quanto pela mágica do Cinema.
Entre janelas, os casais se observam e alimentam ressentimentos uns pelos outros, com a trilha sonora de Devonté Hynes (o nome por trás do projeto Blood Orange) embalando a tensão e o flerte com o perigoso terreno desconhecido. Sim, a grama do vizinho é mais verde – e mais escandalosa, portanto O Convite exprime todas as emoções que vigoram de um lado do prédio para o outro, transformando quem assiste em vela de dois casais tateando na escuridão de sua solidão e desejo.

A cada novo cenário – ou cômodo – apresentado, o filme verte mais elementos estéticos para compor uma história contada também pelos silêncios, pelas frases ditas pela metade e pela desconfortável conversa que acontece na metade da trama. O que se segue é uma avacalhada jogada de dados, quando Joe, Hawk, Piña e Angela entendem que as regras mudaram – e quem quiser ser feliz, só precisa pedir.
Como comentário a respeito da falência das relações heterossexuais e suas amarras invisíveis, O Convite é também versátil em sua retratação do que significa se casar e qual a principal diferença entre isso e o amor, aquele sentimento volátil, explosivo e decidido a sumir quando as circunstâncias engrossam. Hilário e afetuoso, o filme que fez sucesso em Sundance abusa dos monólogos, escritos com ajuda de seus respectivos intérpretes, e devolve à audiência um espelho repleto de rostos e fantasmas reconhecíveis, embora raramente encarados.


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