Com os direitos da franquia 007 nas mãos da MGM, encoberta pelo mesmo guarda-chuva que engloba a Amazon, não é mistério nenhum a produção de A Isca (ou Bait), minissérie criada por Riz Ahmed que acompanha um ator muçulmano potencialmente na briga pelo papel do novo James Bond.
Ao longo de meia dúzia de capítulos que não estouram trinta minutos, o ator em ascensão Shah Latif (Ahmed, indicado ao Emmy 2026 de Ator em Minissérie) passa de candidato distante para um agente do caos na mídia e dentro da família. O tom surreal e cômico casa com a abordagem proposta, rendendo situações que constrangem e preocupam.

Riz Ahmed não é estranho às premiações: venceu um Emmy pelo trabalho em The Night Of e um Oscar pelo curta-metragem The Long Goodbye (e acumulou indicações também por Girls e O Som do Silêncio, respectivamente). Com A Isca, ele se alça ao posto de protagonista misterioso, confiante e tóxico. Seus parentes se alienam em sua busca pela fama, deixando-o sozinho, na companhia apenas de uma cabeça de porco com a voz do ator Patrick Stewart.
Bebendo da fonte que inspirou séries como Atlanta e Ramy, Bait é indigesta à princípio, especialmente pela arrogância de Shah. Ele se mete em enrascadas e só piora a situação, como na festa de gala onde agride um protestante ou na celebração de um feriado religioso, quando suas emoções explodem e a mãe termina o show com um safanão no filho mimado.

Bait também se constrói pelo humor de Ahmed, dividindo o fantástico quarto episódio com Ritu Arya, intérprete de Yasmin, sua ex-namorada que pode ou não estar se mudando de Londres sem chance de volta. A noite toma caminhos inesperados quando ela perde uma bolsa com o passaporte e a dupla corta o tráfego urbano e chega a uma rave com tinta neon.
Nos respiros curtíssimos entre situações de risco, Shah prova que estar na briga para viver um símbolo caucasiano da cultura britânica não é simples ou descomplicado como ele imaginara no passado. Alternando em tipos de tomadas, iluminação, montagem frenética e uma sequência onírica que não deve nada às aventuras do espião, A Isca é curta, direta ao ponto e premonitória: nossos sonhos podem ser mais espinhosos do que o esperado.


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