Ontem, Carmy (Jeremy Allen White) anunciou sua aposentadoria para uma plateia surpresa e insatisfeita. Hoje, a equipe do restaurante se reúne como num dia qualquer – só que não estamos falando de um dia qualquer: chovem canivetes em Chicago, alagando ruelas, formando poças e entupindo ralos. Os efeitos do caos climático logo serão transformados em obstáculos físicos para os personagens de The Bear, que chega à quinta e última temporada numa baixa.
A fria recepção de crítica e audiência para tudo que sucedeu à brilhante e vibrante temporada 2 mudou o modo de pensar do criador Christopher Storer, que desta vez (e pela última), decide que menos é mais. Sete dos oito episódios se passam num único turno de trabalho, aquecendo e borbulhando as relações estremecidas por novas decisões e velhas inseguranças.

Parece que estamos frente ao frenesi médico de The Pitt, mas é apenas The Bear dobrando as regras de sua própria concepção e concentrando os personagens num pequeno ambiente. A enchente resulta em danos estruturais, falta de talheres e de comida, e no bug do aplicativo que coleta e organiza as reservas da noite. Resumo da ópera: os comensais chegarão em pouco tempo, e os cozinheiros deverão trabalhar com a escassez.
Para ilustrar, a série traz as camisetas com impressão errônea como uniforme de guerra, ostentando os tempos de glória, e provando que esses anos de discussões, testes e contas matemáticas visando um orçamento viável não foram em vão. Sydney (Ayo Edebiri) concentra o foco da quinta temporada, assumindo o comando do restaurante e transferindo para si a âncora moral que Carmy carregou desde a morte do irmão.

Pela performance por vezes introvertida de Edebiri, os demais participantes da comédia do FX recebem permissão para vazarem seus problemas pessoais, internos e até mesmo coletivos, como o caso de Marcus (Lionel Boyce), recém-condecorado com um prêmio culinário, nervoso pelo convite feito ao pai (Harry Lennix) para jantar ali e triste pela surpreendente e repentina partida de Luca (Will Poulter), com passagens compradas para retornar à Dinamarca.
A resiliente Tina (Liza Colón-Zayas), preocupada com as finanças, é a pessoa que melhor lida com o caos do ambiente de trabalho, auxiliando Syd e o restaurante a permanecer a par de tudo que vem da boca dos garçons e sai pelas portas da cozinha. Ebraheim, o calmo e reservado personagem de Edwin Lee Gibson, guarda as respostas para o futuro temido por Uncle Jimmy (Oliver Platt), que passa a duração da temporada indo de posto burocrático em posto burocrático para reaver o dinheiro perdido num investimento falho.

Ao seu alcance, Uncle Computer (Brian Koppelman) recruta a jovem Cheese (Elsie Fisher), gênia dos números e dos gráficos, e a parte mais assertiva do trio. É ela, por seu jeito sem rodeios, quem lida com Crazy Mary (Deirdre O’Connell), parente da família que detém os “air rights” do restaurante. Numa temporada fechada para o mundo já estabelecido de The Bear, as duas atrizes respiram novidade ao elenco clássico.
E se Syd enfrenta desafios inéditos na carreira atrás do fogão e da bancada, o primo Richie (Ebon Moss-Bachrach) ostenta os mecanismos para fugir de seu histórico de raiva e descontrole. Silencioso, mas palavroeiro, o bom moço organiza o que parecia ser impossível de ordenar e até exercita técnicas de controle com a tão quieta como observadora Jessica (Sarah Ramos).

Para personagens que já tiveram seus arcos dramáticos finalizados, a quinta temporada de The Bear serve como epílogo. Caso de Natalie (Abby Elliott), que deixa a filha com a mãe Donna, mais uma vez na cáustica entrega de Jamie Lee Curtis, e depois recruta o marido Pete (Chris Witaske) para ajudar no trabalho braçal do dia. Os Fak, a gangue de irmãos de coração mole e cabeça dura, também ganham um deleitoso, se não por vezes enfadonho, capítulo de encerramento à altura de sua bobeira e entrega emocional para com os Berzzato.
Para dividir os focos dos clientes, até uma festa nos fundos do restaurante é organizada, com bebidas a gosto e possivelmente um pouco de cocaína. Se os risos imperam do lado de fora, é na parte de dentro que o caos se consome e incendeia. Mas estamos falando da quinta e última temporada da série, que agora usa da experiência e da sabedoria para lidar com os problemas do passado com a mentalidade do presente.

Pela câmera de Andrew Wehde, todo tipo de luz inunda as cenas, convergindo o senso de stress para uma memória borrada. Na trilha sonora de Hans Zimmer, carregada de batidas grossas e um piano indecoroso, The Bear alivia-se em campo físico, emocional e astral. The Original Beef of Chicagoland, a series finale que espreguiça uma hora de conclusões e recomeços, testemunha a favor do crescimento e da ideia primitiva (e assustadora) de que é sim possível ser feliz depois de anos vivendo na tristeza.


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