O papel do Brasil no epicentro drag no mundo podia ser sentido, notado e referenciado muito antes da estreia de seu próprio Drag Race. Mas, assim que Grag Queen assumiu o posto de mamãe, era questão de tempo para que o público recebesse os mimos de RuPaul. O mês de junho, em pleno Orgulho, começou com a primeira edição da Drag Con Brasil.
O local escolhido foi o Pavilhão Amarelo do Expo Center Norte, palco de eventos como a Bienal do Livro no passado, que recebeu com comodidade e segurança as rainhas e os fãs ávidos. No elenco, dezenas de RuGirls internacionais e quase todas as queens brasileiras tomaram conta do burburinho e do fuzuê paulistano, com shows e looks icônicos.

Com três palcos, o evento não deixou o silêncio imperar no ambiente. O stage principal tinha de tudo: além das performances individuais das artistas, houve competições de Dublagem, de Passarela e até um quiz insatisfatório sobre a herstory do programa. Paralelamente, palcos com enfoque político-social e humor também apresentavam atrações de dentro e fora do programa – o problema foi a acústica, que poluiu as conversas em booths alocados na boca dos debates.
Nos corredores, diversos estandes eram decorados pelas queens e por patrocinadores, comuns ao nicho queer e com bastante criatividade e valor de produção. Filas quilométricas tornaram-se constantes em algumas divas específicas, caso de Fontana, a sueca-brasileira que mostrou a demanda de favorita, e Ruby Nox, a ganhadora de Drag Race Brasil 2. As internacionais raiz, caso de CoCo Montrese, Eureka! e Alexis Mateo, também arrastaram multidões.

Os encontros, embora individuais, demonstraram o carinho e o maravilhamento das queens, recebidas no Brasil com palmas e batidas de leques. Como profissional da imprensa, não foi preciso encarar de forma demorada a espera por uma foto ou pequena entrevista, mas mesmo os fãs que encararam tamanha experiência saíram de sorriso aberto após cada encontro, foto ou compra.
E falando em dinheiro, até as opções de alimentação mostraram-se aceitáveis e justas, com destaque para o cachorro-quente deliciosamente montado com muito purê. A pizza, embora fina, dava conta de encher a barriga. Com bastante fluxo de pessoas, as filas dos food trucks corriam sem muita demora ou congestionamento.

A única demora foi na abertura do primeiro dia, quando a cerimônia de corte da fita e inauguração do tapete rosa foi adiada ao máximo. Nos telões, o trailer de Stop! That! Train! aumentaram a empolgação para o primeiro filme do Universo de Drag Race, embora a falta de anúncios para lançamento comercial no Brasil tornou frustrante a falta de uma exibição do longa para os presentes na convenção.
Inimigo das queens, o pink carpet começava numa estranha escada e terminava com elas voltando todo o trajeto e passando espremidas por entre os fãs da classe All Stars e a imprensa. A divisão entre ingressos VIPs e comuns era gigantesca, afastando o palco da grade, apesar dos vácuos na área mais exclusiva. Também faltou certa organização na divulgação dos eventos, shows e atrações, com dezenas de televisores mostrando informações redundantes ou já ultrapassadas. Na decoração, a ausência de fotos de RuPaul pode apontar uma questão burocrática de licenciamento.

E aqui vão alguns destaques que podem ser conferidos também nas redes sociais do Tesoura com Ponta, que conversou com as queens sobre o impacto de Drag Race em sua carreira, momentos favoritos da passagem pelo Brasil e uma brincadeira de tap ou block com o elenco da edição em mente.
Tayce, do UK 2, sofreu com malas extraviadas e um booth sem decoração ou aparatos, mas compensou com carisma, look extravagante e até arranjou tempo para provar um trago de paieiro fora do Expo. Eureka!, munida de seu fiel ventilador e power bank, ficou em live no TikTok, documentando os meet and greets com bom humor.

As mexicanas aprontaram com um performance dupla de Gala Varo e Horácio Potasio, e Lexa Fox vestiu a bola de futebol que protagoniza a Copa do Mundo em seu país de origem. Matraka trouxe sua estética à vida com um azul brilhante e merchs que brilhavam os olhos. Das Filipinas, Brigiding cintilou como as pérolas de seu look e Viñas DeLuxe nos contou os bastidores do icônico momento “stop chanting” do Slaysian Royale. As americanas Robin Fierce e Xunami Muse derramaram carinho e atenção ao público, ao passo que as britânicas Kyran Thrax e Kate Butch logo se integraram ao humor brasileiro.
Do Drag Race Brasil, Grag Queen comandou o palco ao lado de Ikaro Kadoshi, com participações especiais dos jurados Dudu Bertholini e Bruna Braga. Quanto às queens, quase todas marcaram presença, destacando, óbvio, a caminhada dupla de Ruby e Organzza, as campeãs do país. Apenas Aquarela, Rubi Ocean e Mellody Queen não integraram a programação oficial do evento – e Aqua apareceu desmontada, auxiliando no booth de Miranda Lebrão, com tema Br core, tênis amarrado nos fios e um poste cheio de personalidade.

Olhando o saldo total, a primeira Drag Con em território brasileiro foi um sucesso – e um convite para que a edição de 2027 aumente em seu elenco, estrutura e capacidade de honrar o legado das rainhas brasileiras e as internacionais. Ver o contato entre as ex-participantes do programa com queens locais, que vieram de várias partes do país especialmente para esse evento tão único, foi um dos prazeres do fim de semana que abriu as celebrações do Orgulho em São Paulo.


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