Love Story: os altos e baixos sensoriais de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette

Minissérie antológica aponta culpados e vítimas dentro do relacionamento que regeu a década de noventa americana

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A tragédia que acometeu a vida de JFK Jr. (Paul Anthony Kelly) e Carolyn Bessette (Sarah Pidgeon) pode até abrir Love Story, mas ela não é o elemento que define sua essência. Criada por Connor Hines, a minissérie perdeu o ‘American’ do título e vive menos descaradamente sob o guarda-sol de Ryan Murphy, aqui apenas produtor executivo e longe do roteiro e da direção.

Reconstruindo os anos 90 com toda sua elegância, cafonice e vibe de liberdade pessimista, Love Story brinda a grande dinastia norte-americana numa roupagem de classe máxima. Os cenários são perolados, assim como a maneira que a câmera captura as ruas de Nova York e os espaços habitados pelo casal, primeiro como indivíduos independentes e depois na entregue façanha da paixão.

Love Story se baseia no livro Once Upon a Time, escrito por Elizabeth Beller (Foto: FX)

No centro do sistema solar, Pidgeon e Kelly emprestam carinho, carisma e emoção aos ícones da cultura estadunidense, um casal que, embora marcante na mídia, nunca se traduziu como sinônimo de fama latente no Brasil. Diferente, por exemplo, do casamento real entre Charles e Diana, que dividiu alguns períodos históricos com o filho do presidente e sua esposa angelical.

No papel de Jackie O, Naomi Watts é lânguida nas escolhas e nas ações, esticando sílabas e demonstrando a fraqueza de uma mulher que outrora conquistou o mundo com a beleza e a perseverança. Após sua morte, eclipsada pela performance estonteante da loira-agora-morena atriz, é Caroline, irmã de John e papel de Grace Gummer, quem encanta pelas elegantes e poderosas asserções a respeito da união entre “príncipe” e plebeia.

Em março, Daryl Hannah publicou um ensaio no New York Times para contestar as distorções e inverdades sobre ela retratadas na série (Foto: FX)

Mas essa não é uma história de amor proibido ou de perseguição pessoal, como apontam as escolhas musicais, entre bandas e cantores de uma década frutífera para a arte de ser jovem e imprudente, e o roteiro supervisionado por Hines. O drama da mídia fazendo as vezes dos abutres é sutil até tornar-se insuportável e reger a vida dos protagonistas.

Para fugir do frenesi, o sexto capítulo arma o plano de um casamento simples, mas não menos luxuoso ou espetacular, agraciado com luz de velas, terra batida no lugar do asfalto e até uma peripécia da costura na hora H, quando Carolyn precisa de um vestido que lhe vista de cima para baixo e não o contrário.

Grace Gummer, filha de Meryl Streep, interpreta Caroline com segurança e um senso de proteção irrestrito com a família e o irmão (Foto: FX)

No mundo da moda, de onde ela saiu e por onde conheceu o futuro marido, Carolyn é acompanhada pelo chefe, um dissimulado mas irresistível Calvin Klein, que ganha na interpretação do intrigante Alessandro Nivola uma camada de autopiedade que apenas contribuiu para a narrativa paralela do gênio incompreendido. As cenas situadas em escritórios de revista, seja a de CK, seja a George, fundada por John, são puro suco da estética millennial.

Love Story não desviou das típicas polêmicas que rodeiam produções sobre artistas ainda vivos. A atriz Daryl Hannah, então namorada de JFK Jr. na época do primeiro encontro com Carolyn, veio a público com críticas e ponderações sobre seu retrato unilateral e preto-no-branco. Na série, sua versão é vivida por Dree Hemingway, que emula os trejeitos aéreos da estrela de Kill Bill, seguindo à risca o papel da ‘outra’ que veio antes do amor verdadeiro.

Alessandro Nivola surge na pele do egoísta e autocentrado Calvin Klein, ao passo que a veterana Jessica Harper confere camadas de sabedoria à Ethel Kennedy (Foto: FX)

Sem se ater ao simples ato de recriar momentos eternizados por paparazzis e pela mídia, Love Story vai mais fundo, falando de amor, pertencimento, solidão e de destino, numa fábula infelizmente tirada das raízes da realidade, onde o casal, com potencial para dominar a cultura na virada do milênio, acabou vítima de um acidente aéreo. O momento acontece em Search and Recovery, nono e derradeiro capítulo.

Na ácida e cruel perseguição midiática que levou ao estado de quase separação, o casal, na companhia da irmã Lauren (Sydney Lemmon), se perde entre o céu e o mar. Para recolher os cacos, duas personagens entregam o espetáculo responsável por pontuar as máculas da minissérie. Gummer, como a perita na arte do luto Caroline, é cirúrgica ao negar a realidade, tremendo que o passado em Dallas regurgite entre o choro pelo irmão.

O canadense Paul Anthony Kelly só pôde participar do teste de química após obter seu green card, que chegou poucos dias antes da audição (Foto: FX)

E Ann, a tremenda Constance Zimmer, enraivecida ao perder duas filhas numa só tragédia, lê o poema que melhor intercede na composição ficcional de Love Story. Enquanto estiverem em evidência, essas pessoas permanecem ativas, vivas. Para todos os paralelos traçados com o declínio da sociedade americana (e mundial, considerando a morte de Lady Di), há um acordo de paz com a audiência, ciente de que, ao assistir a dramatização de traumas reais, assina embaixo na cláusula de exploração e, por consequência, deleite.

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