Valerie Cherish (Lisa Kudrow) está de volta! Sem as câmeras invasivas e constrangedoras do formato de falso-documentário, a terceira temporada de The Comeback, duas décadas depois de sua estreia, mira na iminente ameaça da Inteligência Artificial ao colocar sua protagonista na primeira produção inteiramente escrita pela ferramenta.
Os oito episódios são dirigidos pelo co-criador Michael Patrick King, que escreve ao lado de Kudrow a totalidade dos textos, caminhando entre a farsa do mundo da fama e a solidão que Valerie escolheu como rotina tanto tempo atrás. Especial no que tange o poder de uma linha curta que diz muito, The Comeback é a joia da HBO, uma série que desafiou toda lógica de produção e chega ao final cheia de ímpeto.

Menos ardilosa do que no ano anterior, exibido em 2014, quando o perigo do reality show parecia passageiro frente à TV roteirizada, a razão de ser da season 3 está nas costas de uma Valerie aclamada mas sem propósito. O Emmy que venceu por Seeing Red enfeita a sala da casa luxuosa, embora a carreira, cheia de altos e baixos, não tome tanto de seu tempo.
The Comeback então coloca Kudrow, na melhor interpretação de uma carreira de superlativos, para ralar. Ela vive o inferno pessoal numa produção da Broadway de Chicago, faz protesto em defesa dos roteiristas e atores na Greve de 2023 e depois é contatada com a proposta da rede Nunet, presidida por um cínico Andrew Scott, que a coloca como protagonista e produtora executiva de How’s That?, primeira série da história a ser escrita usando apenas a IA.

O segredo corrói Valerie, que precisa compartilhar a informação com seus entes queridos: o marido Mark (Damian Young), agora uma estrela do reality sobre os caras da finança em Hollywood; a cinegrafista Jane (Laura Silverman), afastada do meio desde que percebeu a ruína da indústria e trazida de volta para gravar outro projeto com Val; e Billy (Dan Bucatinsky), parceiro criativo da atriz que abre as asas para suas idealizações egocêntricas ao longo da temporada.
Quem falta é Mickey (Robert Michael Morris), o cabeleireiro e fiel escudeiro da ruiva. The Comeback homenageia a presença radiante e muito especial do personagem com um episódio para ser assistido com lencinhos de papel a tiracolo. Morto em 2017, o ator deixou um vácuo emocional impossível de ser preenchido ou contornado, o que propícia que Val, e por consequência, Kudrow, esvaziem o coração com a saudade e a eterna reverência.

The Comeback não tenta se dobrar aos maneirismos atuais da TV de prestígio, e centra-se principalmente na cruzada solitária de Valerie em defesa da Arte feita por pessoas, com mágoas, dúvidas, aspirações e receios. Tema semelhante também é tratado em Hacks, a comédia que deverá colocar Kudrow e Jean Smart numa batalha implacável pelo Emmy de Atriz em Comédia. Se Hacks puxa sardinha para o ácido e irônico humor de Ava e Deborah, The Comeback aposta tudo na consciência genuína de Valerie, uma mulher que aguentou anos de humilhação e de vexame, mas sempre mostrou-se superior a qualquer baixaria.
A fim de povoar um elenco que precisa de novos atores para a sitcom, equipe de produção que bate cabeça em busca da melhor saída contra a IA e figuras periféricas ao mundo de Valerie, a série é extravagante no departamento de casting: Ella Stiller é Patience, a social media da atriz; Jack O’Brien é Tommy, cabeleireiro experiente contratado depois de anos aposentado; e John Early e Abbi Jacobson são um casal de roteiristas infeliz com o estúdio.
How’s That? ganha com as atuações de Tim Bagley, Matt Cook, Barry Shabaka Henley, Zane Phillips e Brittany O’Grady; nos bastidores, Benito Skinner é um figurinista frustrado e Tony Macht vive um assistente com sonhos grandes. Julian Stern, filho de Kudrow, interpreta o expert em TI que virá a salvar a série. Lance Barber volta como Paulie G., Darien Sills-Evans é o diretor que falhou na atuação e Stephanie Hodge, de Company Retreat, comanda o set. Isso sem falar nas cameos de Fran Drescher, Jane Fonda, James Burrows, Clea DuVall, Frankie Grande, Adam Scott, Justin Theroux e Bradley Whitford.

Para toda a firula que os executivos distribuem sob o preceito de modernidade, agilidade e evolução, Kudrow e King devolvem a réplica na chave da integridade. O monólogo que encerra The Comeback, no episódio que ganha o título do nome desta protagonista atemporal, é daqueles para ver, rever e ver mais uma vez. Com a piada acoplada ao senso de luz em meio a escuridão e ao vazio do corporativismo, Valerie Cherish é, e sempre será, inesquecível e insubstituível.


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