Sem filtros, Rooster é comédia aconchegante e impossível de desagradar 

Steve Carell é escritor em tempo integral e pai coruja na nova série de Bill Lawrence para a HBO

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Criada por Bill Lawrence e Matt Tarses, a comédia Rooster mantém os traços esperados da dupla: como Ted Lasso, centra-se numa pequena comunidade que vive em prol de um objetivo comum; como Shrinking, traz comediantes consagrados em papéis que tiram risadas até uns dos outros. Em resumo, os ingredientes para uma produção imperdível estão todos borbulhando junto da performance central de Steve Carell.

A primeira temporada gira em torno do intrincado vínculo de um autor, Greg Russo (Carell) com sua filha Katie (Charly Clive), tendo como pano de fundo um campus universitário, onde ele é convidado para dar uma palestra. Autor da série de livros com um protagonista heróico chamado Rooster, Greg não faz o tipo acadêmico. Pelo contrário, os alunos que comparecem nunca leram sua obra. 

Anos antes de Rooster, os criadores Lawrence e Tarses trabalharam juntos em Scrubs (Foto: HBO)

Mas o espírito esperançoso do escritor, em adição ao estado lastimável da vida pessoal da filha, presa num divórcio complicado com outro professor do local, fazem com que Greg aceite a oferta de lecionar até o fim do semestre. Ávido por ajudar qualquer um com problemas, ele passa dez episódios entre as loucuras, as burocracias e o aconchegante clima do lugar.

Os criadores plantam sementes invisíveis para acomodar quem assiste na pacata vila universitária: toda manhã é brindada com um copo de chocolate quente com palito de alcaçuz para misturar a bebida. Todas as tardes são passadas na sauna do diretor Walter (John C. McGinley), um idoso porreta que alterna entre o quente do vapor e o frio da banheira de gelo para manter a forma invejável e quase ficcional.

Para a direção, Rooster convocou Jonathan Krisel (English Teacher), Oz Rodriguez (As Quatro Estações do Ano), Zach Braff (Shrinking) e Anu Valia (Adults) [Foto: HBO]

Há, também, as sessões de conversa com a professora e poeta Dylan (Danielle Deadwyler), uma mulher disposta a mudar de cargo e melhorar a vida de seus alunos. Isso sem contar a presença inconsequente de Archie (Phil Dunster), mestre em cultura russa que traiu Katie com uma aluna da pós-graduação e ainda não decidiu qual relacionamento quer para o futuro. 

Sunny (Lauren Tsai), pega no fogo cruzado do casal e do caso extraconjugal, é uma brilhante estudante que pouco tem a ver com o lado britânico esnobe de Archie – e sua colega de quarto Mo (Robby Hoffman) não vê a hora do namoro chegar ao fim. No escritório do diretor, a secretária Cristle (Annie Mumolo) comanda a agenda e a vida pessoal do chefe. Na sala de aula, o aluno Tommy (Maximo Salas) enfia os pés pelas mãos e busca em Greg, apelidado por ele e pelos garotos da classe de Rooster, como o personagem literário, uma figura paterna.

Rooster ostenta um time poderoso de atores convidados: Connie Britton, Scott MacArthur, Nancy Carell, Jim O’Heir são alguns dos nomes que brilham em papéis pontuais (Foto: HBO)

Com os personagens bem definidos em seus arquétipos e motivações, Rooster embaralha relações, alterna amizades e incrementa a narrativa com um reitor preso no passado, papel de Alan Ruck; um policial com talento para o humor, vivido por Rory Scovel; e uma renca de estudantes, dos mais variados cursos, vocatórios e visões de mundo, todos ali reunidos em prol da literatura (no caso da aula de Greg), da poesia (na sala de Dylan) e da História da Arte, ministrada por uma aérea Katie.

Carell, perito em interpretar personagens que precisam de pouco para comunicarem à que vieram, faz de Greg um receptáculo de ironia e amor familiar, ocasionalmente sendo o último a entender a piada ou reconhecer uma baixaria dita sem querer querendo. Deadwyler encarna a espirituosidade e a mão firme de Dylan, especialmente nas interações descabidas e doces com o personagem de McGinley.

No campo do romance, Dunster flexiona os músculos que usou para interpretar Jamie Tartt em Ted Lasso e cria em Archie um personagem completamente diferente e bem idealizado. Afinal, precisamos crer que alguém com os trejeitos e a visão de Katie cairia de amores por ele. Ela, nas escolhas corporais e nos olhares de Clive, é um destaque absoluto de Rooster

Em busca de vencer o primeiro Emmy da carreira após uma porrada de indicações, Carell pode subir ao palco pelos louros de Rooster (Foto: HBO)

Também irradiando em cena, a tímida Cristle ganha a ferocidade de Mumolo, uma atriz de pouco reconhecimento popular, e que assinou o roteiro original de Missão Madrinha de Casamento, indicado ao Oscar daquele ano. Também protagonista da joia Duas Tias Loucas de Férias, ela tem química para dar e vender com Carell, acarretando nas cenas mais engraçadas e doces da série, além de uma reviravolta que mexe com a ordem natural das coisas.

Já renovada para a segunda temporada, que promete um novo comando na universidade e mais um semestre de aulas para o protagonista, Rooster tornou-se a comédia estreante mais vista em uma década nas métricas da HBO. E com razão, considerando o time de atores, roteiristas e diretores, em uma tarefa uníssona de rir, constranger e derreter qualquer um.

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