Metade da Idade Dele continua a revelar o ácido humor de Jennette McCurdy

Sucesso de vendas depois de publicar as memórias de uma infância terrível, autora estreia na ficção com livro ousado

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Jennette McCurdy não planejava que Metade da Idade Dele fosse sua estreia na ficção. Após o lançamento de Estou Feliz que Minha Mãe Morreu, um estouro em vendas e recepção cultural, a autora escrevia outra coisa, mas a história de Waldo e do professor Sr. Korgy cutucava-a sem chance de paz. E então o arriscado romance veio ao mundo.

Existem traços pessoais de McCurdy na vida de Waldo, uma menina de 17 anos que, abandonada pelo pai e sofrendo pela ausência constante da mãe, se entope de frivolidades para preencher um vazio intransponível. Nada a cativa ou a excita, exceto, claro, a figura decadente, quarentona, meio flácida e suburbana do professor do Ensino Médio. Na friorenta cidade de Anchorage, no estado do Alaska, os divertimentos são mínimos.

“Na cama, me transformo na caricatura obcecada por internet que me domina entre as dez da noite e as duas da manhã, a luz azul penetrando meus poros e o notebook irradiando seu calor questionável para meu rosto e colo, queimando meus ovários”.

Half His Age foi traduzido por Carolina Simmer para a editora Intrínseca (Foto: Reprodução)

Com o intuito de explorar a raiva feminina em constante contato com o desejo, a libido e as relações que nascem de vãos de poder e comando, o livro é uma coleção de sentimentos pouco processados, mas terrivelmente analisados e interpretados. Waldo é impulsiva, decidida e sabe esconder as emoções negativas. O professor, casado e pai de uma criança, reluta em aceitar o convite da aluna, mas quando o faz, Metade da Idade Dele desenrola um espiral de prazer, culpa e cansaço.

Uma voz emergente na Literatura que arranha temas tabus e não se acanha frente a qualquer moralismo, Jennette McCurdy intensifica a experiência de leitura com uma gama riquíssima de adjetivos e descrições gritantes das ações rotineiras da protagonista. Cada sessão de embelezamento ganha qualidades viscerais, como o processo de depilação, esfoliação e aplicação de cremes, batons e rímel. Qualquer fato cotidiano adquire ares de apocalipse, especialmente quando a relação entre aluna e professor ainda vive no campo da proibição.

McCurdy está envolvida na produção de uma série da Apple TV com base no livro de memórias e estrelada por Jennifer Aniston (Foto: Reprodução)

“Ele me pergunta sobre meu futuro, eu pergunto sobre seu passado, e algo nessa dinâmica parece pesado — a presunção de que minha vida ainda está por vir e de que a dele ficou para trás. Que vinte anos é a diferença entre uma vida ainda não vivida e outra que já terminou”.

Todavia, para cada escolha sagaz e mordaz no que diz respeito à forma com que conta a história, McCurdy se prende a uma série de ciclos: o sexo, embora explícito, é redundante, com repetições de sensações, posições e conclusões. Há, também, um fator de previsibilidade na narrativa, que direciona a protagonista por um caminho telegrafado de conquista e tédio.

Se o livro de estreia de McCurdy assustou o mundo ao apresentá-la como uma pessoa cheia de ressentimentos e machucados, sua investida na ficção atesta o caráter ácido de sua caneta. Mais no campo da expectativa para um futuro hipotético do que na análise de um presente verdadeiramente transcendental e inédito, Metade da Idade Dele é vítima da rapidez com que a nova geração consome seus gostos.

“Algo mais sombrio está à espreita, porém. Uma dúvida. Ele está mesmo me elogiando? Acha mesmo que sou madura? Ou está tentando enfatizar o que ele quer que eu seja, reforçar isso, garantir que seja assim de agora em diante, solidificar a versão de mim que torna sua vida mais tranquila?”

McCurdy explora raiva, poder e desejo femininos a partir de experiências pessoais, como um relacionamento com diferença de idade aos 18, sem fazer um relato autobiográfico e fugindo de moralismos ao construir uma protagonista ousada e ativa (Foto: Rolling Stone)

São mais de oitenta capítulos em pouco menos de trezentas páginas, deixando a experiência de leitura o mais próximo possível da rolagem da página inicial do TikTok: alguns repetecos, uma ou outra presença que enche os olhos, e depois mais do mesmo. Revertendo o arquétipo da Lolita para que a “garota” esteja no volante, McCurdy prefere discorrer sobre os efeitos psicológicos de tamanha pressão e expectativa, num labirinto moral que, sem surpreender, acaba em flores. 

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